Juan assumiu seu posto de segurança e andando atrás de Laura, os dois entraram no prédio.
Laura sabia onde o governador estava, Juan já tinha dito, porém, ela achou grosseiro da parte dele não ir buscá-la na entrada. Para ela, aquilo era falta de educação. Por mais que fosse tudo encenação, ela gostava de bons modos.
O governador era um senhor na faixa etária dos setenta anos de idade. Cabelos totalmente brancos e pele enrugada. Estava de costas para ela.
— Querido, desculpa a demora. — Com a voz calma e doce, Laura falou.
O governador virou e se surpreendeu com a beleza da mulher que o chamava.
— Não foi nada, minha vida. Venha, vou lhe apresentar alguns amigos.
O teatro estava indo de vento em polpa, ninguém diria que ela era uma stripper contratada para omitir a triste e c***l verdade sobre o governador, que ele não tinha ninguém porque era um velho asqueroso. Para onde ele ia, Laura estava ao seu lado com o melhor e mais bonito sorriso.
Juan por outro lado, estava a observando atentamente. Com a desculpa de ser um segurança, ele praticamente grudou no casal de mentira. Ver Laura sendo guiada e mostrada como um troféu para os demais daquela festa, estava deixando-o incomodado.
— Querido, se me der licença, preciso ir ao toalete. — Usando uma voz doce, retirou-se sob o olhar de desejo do governador.
Juan a seguiu sem que ninguém percebesse.
— Onde pensa que vai? — indagou ele, pegando em seu braço.
— Respirar um pouco — disse ela se livrando de sua mão. — Aquele velho está causando ânsia de vômito.
Juan concordou. A guiou até a varanda do prédio, onde tinha uma bela visão de Nova Iorque. O céu estava estrelado, e o vento frio que soprava entre
as árvores, tocou o rosto dela.
— Aqui é tão lindo — comentou ela, com seu olhar perdido na imensidão da noite escura. — Fazia tempo que eu não via as estrelas. Senti falta
disso.
— Em breve você terá a sua liberdade de volta — Juan disse. Encurtou a distância entre eles, ficando ao lado de Laura.
Laura olhou para Juan. Suas tatuagens estavam todas cobertas, mas ainda assim, ela conseguia ver um pedaço pequeno do desenho em seu pescoço
e nas mãos.
— Me responda uma coisa, Juan. — Laura voltou seus olhos para o céu. — Por que escolheu essa vida?
Juan não respondeu.
Seu silêncio era ensurdecedor. Laura queria que ele respondesse, nem que fosse qualquer coisa, até mesmo um palavrão. Ela só queria saber se ele
estava bem, pois algo dentro dela dizia que sua pergunta tinha despertado algo doloroso dentro dele.
Com um suspiro longo, Juan falou:
— Eu não escolhi essa vida, ela que me escolheu. — Laura franziu o cenho. — Sou filho de mexicanos, e naquela época a vida no México estava muito difícil. Meus pais decidiram que seria melhor tentar a vida aqui em Nova Iorque. Mas não tínhamos dinheiro para passagens e nem moradia. Então, eles
chegaram à conclusão de que entraríamos no país de forma ilegal. Eu consegui, mas eles e minha irmã não.
— Eles foram deportados?
Juan riu.
— Antes fosse... Eles foram assassinados junto com outros que tentaram pisar no solo americano. Eu vi tudo. Cada tiro. Cada grito de desespero. O sangue jorrando de seus corpos já sem vida. Eu tinha apenas seis anos. — Juan respirou fundo. Seus olhos ardiam devido as lágrimas que se formavam. — Um casal me encontrou perdido nas ruas. Eu estava magro, com frio, com fome e medo. Minha dor tocou o coração da mulher, que convenceu
o marido a me adotarem. Foi assim que consegui a minha cidadania americana.
Laura não conteve as lágrimas, saber que Juan havia passado por tanta dor e sofrimento enquanto ainda era uma criança, mexia demais com o seu
coração. Toda vez que ela via uma criança chorando ou passando por alguma dificuldade, a imagem de sua irmã vinha em sua mente. Ela dava graças a Deus por ser a irmã mais velha, e assim poder cuidar dela.
— Eu sinto muito. — As mãos de Laura tocaram as de Juan. — O que aconteceu com seus pais adotivos?
— Fizeram o mesmo que o seu pai. Pegaram dinheiro com um agiota, mas não conseguiram pagar. Eu cresci sendo criado por bandidos, cada um pior que o outro, mas chega uma fase da vida que o coração não aguenta mais. Assumi o lugar do homem que matou meus pais adotivos. Toda a Nova Iorque responde ao meu chamado. E assim será até o dia da minha morte.
Laura não sabia o que dizer, ela sentia pena dele, mas ao mesmo tempo medo do que era capaz de fazer.
— Acho melhor entrarmos. Falta muito para essa noite acabar?
— Na verdade... — Juan olhou em seu relógio de ouro. — Terminou tem uns dez minutos. Vamos. Não precisa se despedir. Ele sabe o que fazer.
Laura agradeceu e o seguiu para fora do prédio. Entrou no carro e pela primeira vez naquela noite deixou seu corpo relaxar sobre o banco de couro do carro.
— Você não se importa de antes passarmos em meu apartamento? Tenho que dar a sua parte do dinheiro.
— Tudo bem — respondeu ela, descansando sua cabeça na janela do carro.
O percurso até a casa de Juan foi feito em total silêncio. Ninguém tinha mais nada a dizer, não depois da conversa que tiveram.
As palavras dele não paravam de martelar na cabeça de Laura. Ela estava intrigada com tanto mistério. O medo a excitava e a cada olhar que ele
lhe lançava, era como se uma parte de sua alma fosse despida.
O motorista parou o carro em frente a um grande prédio. A frente era cinza e com enormes janelas.
Eles caminharam calados até o elevador. Foi digitado o código que dava acesso a cobertura de Juan e ainda calados, eles entraram. O ar estava
pesado dentro da pequena caixa de metal. As portas fechadas, o cheiro do perfume masculino de Juan, sua postura firme ao lado, tudo aquilo era demais
para a cabeça de Laura. Ela não aguentava mais.
Quando as portas se abriram, Laura conseguiu respirar. Sua v****a pulsava quase implorando pelo toque de Juan, e ele parecia entender seu olhar,
pois também sentia o mesmo desejo naquela hora. Sem falar nada, ele agarrou a nuca de Laura, olhou em seus olhos e como um leão faminto, devorou seus lábios.