— Eu sei como é. Nossas dores são semelhantes. — Laura não tinha percebido, mas suas mãos ainda estavam unidas. Seu olhar pousou sobre a
mesa. Pietro apertou de leve seus dedos e com um sorriso nos lábios disse que já estava na hora de voltar ao trabalho.
A mesma senhora que havia pedido meia dúzia de salgadinhos voltou ao balcão e pediu mais uma xícara de cappuccino. Laura fez o mesmo processo
pela milésima vez naquele dia. Sorriu, balançou a cabeça, virou em direção a máquina de café, selecionou a opção certa e esperou alguns segundos até que o café estivesse pronto.
No final do dia Laura já estava enjoada de tanto fazer café.
Pietro ofereceu uma carona, a qual dessa vez ela não recusou. Laura estava mesmo cansada, e ela tinha que reunir forças para passar a noite ao lado de um governador velhote, barrigudo e safado.
Ela se despediu de Pietro com um aceno de mão e correu para dentro de seu prédio. Ao chegar em seu andar, Laura ouviu o som dá risada doce e
meiga de sua irmã. Nicolle brincava no corredor com o cachorrinho da senhora Judith. Ela
corria de um canto para o outro enquanto o filhote corria atrás dela. Vendo aquela cena, Laura percebeu o quanto ela era sortuda por ter
Nicolle em sua vida. Se não fosse por ela, Laura não estaria mais viva. Foram inúmeras vezes em que pensou em dar um fim em sua dor e solidão, mas todas às vezes que olhava para o pequeno corpinho dormindo ao seu lado, a sensação se dissipava. Rindo, aproximou-se de sua irmã.
— Será que posso receber um abraço desse? — perguntou ela, abrindo os braços.
— Laura! — Correndo, Nicolle pulou em seus braços e a abraçou forte. — Você vai ficar comigo hoje à noite?
— Eu queria muito, meu amor, mas vou ter que ir trabalhar. — Os olhinhos pequenos dela se encheram de lágrimas. Ela sentia falta de sua irmã, das brincadeiras e das vezes que assistiam algum filme de desenho na televisão.— Eu juro que assim que eu conseguir bastante dinheiro, vou parar de
trabalhar a noite. Vamos viajar e comprar muitos brinquedos, mas até que isso aconteça, eu preciso trabalhar muito. — Nicolle não concordou, e nem entendeu o porquê dela querer tanto dinheiro, mas aceitou. — Agora vamos, você tem que tomar banho e eu tenho que me arrumar para trabalhar. Já falei com a dona Judith, ela vai ficar com você.
Nicolle correu para seu quarto assim que Laura abriu a porta.
Respirando fundo, Laura deixou sua bolsa sobre o sofá e seguiu para a cozinha. Sua boca estava seca, porém, antes mesmo que ela pudesse pensar em
abrir a geladeira para pegar uma garrafa de água, alguém tocou a campainha. Praguejando seja quem fosse que estivesse do outro lado da porta, Laura foi até a sala.
— Senhorita Cooper? — Um homem alto e careca perguntou.
— Sim. Quem é você?
— O Sr. Juan me enviou aqui para fazer essa entrega. — Suas mãos se ergueram diante dela, e uma sacola grande de uma loja de roupa apareceu em seu campo de visão. — As instruções estão no cartão. Passar bem.
Como se nada tivesse acontecido, o homem saiu e deixou Laura sem entender nada. Fechou a porta atrás de si e correu para o seu quarto. Colocou a
sacola sobre a cama e devagar, começou tirar a caixa de dentro. A caixa da cor prata com um laço em cima instigaria a curiosidade de qualquer um, inclusive a de Laura. Seus dedos passaram pelo laço vermelho.
— O que será que Juan ganha com isso? — ela perguntou em voz alta para si mesma.
Vencida pela curiosidade, Laura tirou o laço e o jogou de qualquer jeito no chão. Tirou o papel que protegia o conteúdo da caixa e quase que seus olhos saltaram para fora. Suas mãos ergueram o vestido que mais parecia ser uma obra de arte de tão belo e delicado que era. Um vestido como aquele, longo de tule plissado sem mangas na cor vermelho, com certeza custara os olhos da cara
como dizia sua mãe. Seu decote em V deixaria seus s***s quase amostra. Ela o colocou na frente de seu corpo e olhou seu reflexo no espelho grande da porta do guarda-roupa. Realmente ele tinha bom gosto no quesito vestuário. Com cuidado, Laura guardou o vestido na caixa. Olhou na bolsa e viu uma pequena caixa onde tinha um lindo par de saltos finos da mesma cor. Um bilhete dobrado dentro da pequena caixa chamou sua atenção.
Espero que fique tão lindo em você quanto nos meus pensamentos.
Use essa noite. – J.
Laura sorriu e dobrou o bilhete. Olhou em seu relógio e viu que ainda tinha algumas horas de sobra para se arrumar.
Algumas horas depois já estava pronta. Nicolle já tinha ido para a casa da vizinha que cuidava dela como se fosse uma filha.
Duas batidas na porta.
Bastou apenas isso para que o coração de Laura começasse a bater freneticamente. Sorvendo uma boa quantidade de ar para seus pulmões, Laura
colocou a mão na fechadura e abriu a porta.
Juan estava do outro lado, vestido em seu terno impecavelmente lindo. Cabelo penteado para trás a pele do rosto lisa e aquele olhar, um olhar que
tinha o poder de deixar qualquer mulher louca para tê-lo dentro dela. Ele não teve como disfarçar seu desejo. Laura estava perfeita. O vestido parecia fazer parte do seu corpo. Sua cintura fina, os s***s fartos, pernas torneadas, tudo se encaixa perfeitamente ao vestido. Seus cabelos estavam presos de um lado, e nas pontas alguns cachos grossos. A maquiagem como sempre era leve, apenas sua boca carnuda estava marcada com o batom vermelho.
— Você está linda. — Juan não conteve o elogio. — O governador irá enlouquecer quando te ver.
Sem graça, Laura riu.
— Obrigada.
Ela pensou em dizer que ele também estava muito bonito, mas preferiu se calar.
— Vamos? — Ele ofereceu seu braço para ela. Como se estivessem indo para um baile real, Laura fechou a porta, cruzou seu braço com o dele e seguiram rumo a festa.
No caminho, Juan explicou a Laura que ele faria o papel de segurança, mas na verdade estava lá para orientá-la no que fazer. Ela apenas concordou
calada. Não tinha o porquê de contrariá-lo, afinal, quando ela aceitou o emprego sabia muito bem no que estava se metendo, porém, a única condição
imposta era não ter relações sexuais com nenhum cliente, fosse ele rico, famoso ou desconhecido. Seu corpo não estaria a venda.
O motorista informou que eles já tinham chegado. Laura olhou pela janela do carro e viu o lindo e enorme prédio à sua frente.
Juan saiu do carro e elegantemente, abriu a porta para Laura sair.
Ela estava encantada com o luxo do local. Vários carros importados estavam estacionados. Algumas pessoas riam e andavam em direção a entrada.
— Esse lugar é lindo!
— Isso porque você ainda não viu por dentro — comentou Juan. — Vamos entrar, o governador não gosta de atrasos. Você já sabe o que fazer:
apenas sorria, tire fotos ao lado dele e o acompanhe para todos os lados.
— Ok.