Juan estava jogando sujo e Laura sabia disso, mas ele estava certo e ela não podia negar esse fato. Realmente suas contas estavam aumentando, e o
dinheiro que ela ganhava como dançarina na boate m*l dava para pagar a dívida de seu pai e o aluguel do apartamento onde morava com a sua irmã. Com o novo trabalho no café, ela poderia quitar um pouco das dívidas, mas ainda assim, não era o bastante.
Laura olhou para seus pés, pensou bem e respondeu:
— Eu aceito. — Olhou para Juan que sorria. — Mas com uma condição.
— Qual?
— Sem sexo. Me recuso a dormir com os clientes. Já basta eles olhando meu corpo nu em cima daquele palco, tocar em mim é proibido.
— Tudo bem. — Juan desceu dois degraus. Ergueu a mão e tocou o rosto dela. Aquele toque fez com que Laura sem querer, soltasse um suspiro. — Durma bem. Amanhã à noite venho te buscar. Mandarei um motorista entregar o vestido para que você possa usar.
Ele passou por ela indo embora sem olhar para trás.
Laura estava confusa. Nem ela mesmo sabia o que tinha acabado de acontecer. Ela realmente havia aceitado aquele trabalho.
Balançando sua cabeça para os lados, Laura continuou a subir os degraus até chegar em seu apartamento. Aquela noite tinha sido demais para
ela, e seu corpo cansado implorava por descanso.
Às sete horas da manhã o despertador do celular tocou. Com seus olhos ainda fechados, ela tateou seus dedos sobre a cômoda ao lado de sua
cabeça, em busca do pequeno aparelho barulhento. — Merda! — exclamou ela, irritada.
A cabeça de Laura latejava, resultado da ressaca da noite regada a tequila e música alta. Contra a sua própria vontade, Laura abriu os olhos e deixou que a claridade que entrava pela janela aberta de seu quarto terminasse de acordá-la. Levantou e arrastando seus pés, começou a preparar o café da
manhã de sua irmã, que ainda dormia na casa da vizinha.
Aquela manhã havia se passado mais demorada do que o costume.
O café estava repleto de clientes, que ao mesmo tempo tinham que dividir o espaço com Pietro e sua equipe de reforma. Para onde olhava, ela via
Pietro dando ordens, gesticulando seus braços fortes. De vez em quando ele a olhava e sorria. Aquilo definitivamente estava acabando com o subconsciente dela.
Cafés de todos os tipos estavam sendo preparado pelas as mãos delicadas e habilidosas de Laura.
— Minha filha, você está sendo elogiada por todos os clientes que entram aqui. O que você coloca nesses cafés? — perguntou Sr. Koll, rindo.
— Obrigada, mas estou apenas fazendo o meu trabalho. Trato todos bem para que se sintam em casa. Às vezes, tudo o que precisamos é de um
sorriso amigável e um café quente.
O homem de meia idade, cabelos grisalhos e barriga um pouco avantajada, sorriu e saiu.
Laura estava certa. Um sorriso já era o bastante para alegrar a vida de alguém. Para Pietro aquilo bastava.
A hora do almoço se aproximava e Laura já conseguia ouvir o ronco que vinha da sua barriga. Ela estava com fome, tinha saído de casa com um café puro na tentativa de curar a ressaca. Na noite anterior ela não havia comido nada, tudo o que fez foi beber e dançar como se o mundo fosse acabar e era tudo o que restava para fazer.
— Laura! — chamou seu chefe. — Pode ir almoçar, eu fico no comando até você voltar.
— Obrigada.
Com sua bolsa no ombro, Laura saiu rumo a um pequeno restaurante.
Era simples, porém, muito acolhedor. Mesas de madeiras espalhadas por toda a extensão do ambiente. Cadeiras acolchoadas, sofás de cantos para os mais íntimos.
Laura caminhou entre as mesas ocupadas até chegar em um dos sofás que estavam livres. O lugar estava cheio, mas também não era para menos,
todos ali possivelmente, estavam em seus horários de almoço, e nada melhor do que um lugar confortável para passar aqueles minutos descansando e desfrutando de um gostoso prato de comida.
Laura esperou que um garçom fosse até ela. Olhou o cardápio e pediu uma salada de folhas, arroz branco e filé de peixe. Por mais que ela estivesse
faminta, seu estômago poderia não aceitar muito bem a comida que lhe fosse oferecida.
— Posso me sentar? — Uma voz rouca e grossa invadiu seus tímpanos. Laura ergueu seu olhar e viu Pietro em pé ao seu lado usando um terno azul escuro. — Se não for incomodo.
— Não, claro que não. — Laura sacudiu a cabeça saindo do transe. — Sente-se, por favor.
Ele sorriu.
Sem perder o contato visual com Laura, ele sentou à sua frente. Chamou um garçom e pediu um prato de macarrão ao molho branco com champignon. Assim que a comida chegou, Laura e Pietro engataram uma conversa animada.
— Então, Pietro... — Laura tomou um gole de seu suco natural. Ela tinha prometido a si mesma, que não colocaria nenhuma bebida alcoólica em
seu organismo durante um longo tempo. — Me conte como é ser arquiteto?
Pietro deixou o garfo sobre o prato ainda cheio. l
— É fascinante quando vejo a reação dos meus clientes. Fico tão satisfeito quando consigo realizar seus sonhos. É como se eu estivesse
realizando os meus.
— Nossa, que lindo! — Admirada, Laura suspirou. — E seus pais te apoiam nisso?
Cabisbaixo, Pietro deixou um suspiro longo e cansado escapar de sua boca. Parecia sofrido, como se lá no fundo pedisse ajuda.
Vendo aquilo, Laura sentiu seu peito arder. Ela conhecia muito bem aquela expressão de dor e sofrimento. Por impulso ou compaixão, tocou a mão de Pietro que estava sobre a mesa. Seus olhares se conectaram naquele instante.
— Eu sinto muito, não queria te deixar triste.
— Tudo bem, só é difícil falar sobre eles. — Laura concordou com um leve balançar de cabeça. — Perdi meu pai quando eu ainda era um adolescente
imaturo. Não tive tempo de apresentar a ele a minha primeira namorada e nem de ir aos jogos de futebol aos domingos com ele. — Pietro piscou os olhos na
tentativa de retrair as lágrimas.
— E sua mãe? — Bom, minha mãe fez a escolha dela. Ficou com um homem que causou muita dor a pessoas incríveis. Sinto muito por elas.
Laura se compadeceu outra vez da dor dele. Ela detestava ver o sofrimento alheio, ainda mais quando era de uma pessoa que tinha erguido a
mão a ela sem ao menos conhece-la.