Capítulo 26

1340 Palavras
— Bom dia, em que posso servi-lo? — Com um sorriso no rosto, Laura perguntou. — Um café expresso e um croissant. — O senhor de óculos quadrado e barba por fazer falou — rápido, estou com pressa. “Nem um bom dia?” Pensou Laura ao se virar. Ela foi até a máquina de café, colocou o refil e esperou que a mágica acontecesse. Enquanto a xícara de café estava sendo cheia, Laura se apressava para pegar o croissant. Não demorou para que tudo já estivesse nas mãos do cliente. O aroma do café inundava o ambiente e aquilo trazia imagens da infância onde ela acordava cedo para ajudar sua mãe no preparo do café da manhã de sua família. — Eu acho que já te vi antes — disse o cliente. — Seu rosto, ele me parece familiar. — Desculpa Senhor, mas creio que não — dito isso Laura foi de encontro a outro cliente que se aproximava. De longe, Pietro observava Laura sorrir ao atender cada pessoa. Aquilo estava errado, ele sabia que deveria ter contado a ela sua real intenção, porém, não queria perdê-la. Mas como ele poderia perder alguém que nem a ele pertencia? Sacudindo sua cabeça para os lados, concentrou-se em seu trabalho. Ele tinha muito o que fazer e ficar pensando em Laura ou em seu sorriso encantador não ajudaria em nada. O primeiro dia de trabalho de Laura já havia chegado ao fim. Seu desempenho tinha sido elogiado por Pietro e o seu novo patrão, o Sr. Koll. Pietro insistiu para que Laura aceitasse a carona que ele havia oferecido, porém, ela bateu o pé firme no chão e disse que ele já havia feito muito por ela. Com um sorriso largo no rosto e cantarolando, Laura seguiu até sua casa. Nicolle estava na casa da vizinha e ficaria por lá até que Laura chegasse da boate onde ela e suas novas amigas iriam. Sem olhar para a porta da vizinha, Laura passou rápido e entrou em seu apartamento. Jogou sua bolsa no chão e correu para o banheiro. Ela tinha menos de uma hora para se arrumar. Sua roupa já estava separada sobre sua cama: um vestido preto colado que deixava suas coxas expostas. Seus saltos da mesma cor estavam ao lado da cama. O recorde do banho mais rápido do mundo com certeza havia sido dela, estava com pressa e pela primeira vez depois de muito tempo, ela estava feliz por estar pensando em si em primeiro lugar. Vestida, Laura fez a maquiagem, dessa vez caprichado nos olhos e não só nos lábios. Seus cabelos soltos desciam sobre seus ombros com alguns pequenos cachos nas pontas. Ela se olhou no espelho e sorriu. Naquela noite ela iria dançar, mas não para ganhar dinheiro e sim para se divertir. A boate onde ela e mais cinco meninas estavam era enorme. Cabiam duas boates de Juan dentro daquela. As paredes eram espelhadas, o chão de LED combinava perfeitamente com as luzes dos holofotes. O som alto da música sendo remixada pelo DJ da noite entrou em sintonia com o corpo de Laura, o que a fez dançar no meio da multidão. Seus braços se movimentavam de um lado para o outro igual o seu quadril. Cansada, Laura foi até a mesa onde suas amigas estavam bebendo. — Nossa, cansei — disse ela ao se sentar. — Nunca te vimos tão alegre assim — comentou Vitoria. — Acho que nunca te vi sorrir. Laura bebericou um pouco da bebida florescente que estava sobre a mesa. — Digamos que eu não era assim antes. — E porque mudou? — Lavínia, uma das dançarinas da boate onde elas trabalhavam perguntou. Laura olhou para suas unhas vermelhas. — Não gosto de falar muito. Não me orgulho do que... — Do que faz da vida? — interrompeu, Lavínia. — É isso? Laura não respondeu. — Laura, — começou Vitoria. — Ninguém chegou aqui por acaso, todas nós temos um motivo para fazer o que fazemos. Eu por exemplo, fui espancada pelo meu pai desde minha infância a adolescência inteira. Quando fiz dezoito anos resolvi sair de casa. Eu era nova, não conhecia ninguém, não tinha como me sustentar. Juan me encontrou dormindo ao relento debaixo de uma ponte. Ele disse que eu era bonita demais para ter aquele fim. Me levou para boate e me deu uma família. Tudo bem que é uma família não tão convencional, porém, muito melhor do que a família que convivi. Laura piscou algumas vezes tentando conter suas lágrimas. — Já que estamos falando sobre nossas vidas... — Lavínia bebeu o resto do líquido âmbar de seu copo e falou: — Minha mãe me vendeu para o chefe do tráfico onde morávamos. Era terrível, ele me fazia ir buscar drogas nos lugares mais horríveis. Fiz coisas que até Deus duvida. Um belo dia, ele e Juan tiveram uma discussão. Não sei que fim levou o escroto do homem que abusava de mim, mas sei que Juan me tirou de lá. A conversa continuou. Laura ficou sabendo que Sabine, uma n***a linda de olhos pequenos, só estava naquela vida porque era a única maneira de pagar o tratamento contra o câncer de sua mãe. Já Julie, a loira alta, que mais parecia uma modelo do que uma dançarina, estava naquela vida porque realmente gostava do que fazia, e não tinha vergonha de assumir sua profissão, afinal, ela não estava fazendo m*l a ninguém. — Viu, Laura. Todas nós temos uma história de vida. Você pode se abrir com a gente. — Vitoria secou o rosto de Laura. — Não somos pessoas ruins, trabalhamos para nós sustentar ou sustentar alguém. Algumas dançam, outras fazem programas, mas todas temos uma história de vida por trás da máscara de sedução. — Minha mãe cometeu suicido tem poucos meses. No mesmo dia meu pai nos deixou. Fiquei sozinha no mundo com uma criança pequena para criar, minha irmã. Fui despejada, fui roubada no abrigo onde fui com ela. Fiquei sabendo que meu pai havia deixado uma dívida enorme com Juan, que por acaso, eu tenho que pagar. Minha única saída era dançar para sobreviver e criar minha irmã. Não é tão r**m agora, eu já dançava antes. — O quê? — Lavínia perguntou. — Balé — Laura respondeu e sorriu. — A parte que não gostei no início foi ter que tirar a roupa, mas agora tanto faz. Minha irmã tem uma casa, está estudando em uma escola boa, voltarei a dançar na minha antiga escola. Fiz amigas lindas e com histórias de vida incrível. — Mas ainda falta algo, não é? — Vitoria arqueou uma sobrancelha. — Sim, só não sei ainda o que é. A noite passou mais rápida do que Laura poderia imaginar. Quando o táxi a deixou em frente ao seu prédio, já era três e meia da manhã. Nicolle provavelmente já estava dormindo, e ela não queria acordá-la, e nem a senhora Judith. Na manhã seguinte ela a buscaria. Subindo os degraus até o seu andar, se deparou com Juan sentando no meio da escada bloqueando sua passagem. — Se divertiu essa noite? — perguntou ele, a olhando de cima a baixo com um olhar faminto. — O que você quer? — Tenho um trabalho para você como acompanhante de luxo, mas não se preocupe, você não terá que dormir com ninguém. Você será apenas um troféu. Irá ficar ao lado do cliente pousando para fotos e sorrindo. Ele está pagando muito bem. — Juan, eu já disse que não quero. Juan levantou. Colocou as mãos dentro do bolso e a encarou determinado a ganhar aquela batalha. — Com sua irmã estudando em uma escola particular, você voltando a ter aulas de balé naquela academia cara, o custo de vida não vai subir? Sem contar o aluguel e as outras despesas extras. Acho que você vai precisar de dinheiro para pagar tudo isso, não é? Essa é a sua oportunidade, Laura. O que me diz, aceita ser acompanhante de luxo do governador?
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR