Capítulo 5

1235 Palavras
Com ajuda de dona Cecília, Laura conseguiu dar um enterro descente a mãe. Não havia sido como ela merecia, mas foi digno de um ser humano descente. Passaram-se dois dias desde que ela disse adeus a Núbia, e ainda assim custava a acreditar que não a veria mais. Laura não conseguiu nenhuma notícia do pai. Toda vez que tentava ligar para ele, a mensagem gravada dizia que aquele número não existia. Estava desesperada; foi logo depois do enterro de sua mãe, quando chegou em casa que a ficha realmente caiu. Seu pai tinha lhe abandonado, e havia sido por ele que sua mãe não estava mais ali. Laura jurou a si mesma que faria o pai pagar pelo sofrimento que causara a sua família. Mesmo não sendo uma pessoa má, desejou que ele sofresse o mesmo que ela estava sofrendo. Com sua irmã dormindo, Laura pesquisou nos classificados do jornal, algum emprego que a ajudasse a pagar as contas, que eram muitas. Como se não bastasse as compras para dentro de casa, ainda tinham os alugueis atrasados e suas aulas de dança, que pelo andar da carruagem, teria que parar de frequentar. Ela não tinha cabeça e nem tempo para assistir as aulas o que lhe causaria a perda da sua bolsa. Mesmo ganhando uma semana para tirar o luto, ela ainda tinha que arrumar um emprego; e uma irmã pequena para criar. — Nick? — carinhosamente, Laura a chamou. Passou os dedos em seu rosto e admirou a beleza da irmã. Ela se parecia muito com sua mãe, e ver o tamanho da semelhança entre as duas a fazia querer chorar, porém, sabia que não podia. A dor sempre existiria, era inevitável não sofrer com a perda de um ente querido, mas a vida deveria ser seguida. — Meu anjinho, acorde. Laura foi presenteada com o olhar sonolento e manhoso de Nicolle. A pequena de cabelos castanho-claros, olhos escuros e bochechas rosadas, coçou os olhos e bocejou. — A mamãe e o papai já voltaram? — Inocente, achava que algum dia seus pais voltariam. — Estou com saudades. Como contar para uma criança de quatro anos que seu pai a abandonou a mercê da sorte? Como dizer que elas haviam sido rejeitadas feito um animal asqueroso? Não tinha como contar a verdade, pelo menos não naquele momento. — Não, eles não voltaram — suspirou. — Você sabe que a mamãe está lá no céu agora junto com a vovó e o vovô, não é? Eles estão juntos, e você não pode ficar triste. — Mas eu não consigo... Quero a mamãe — chorando, Nicolle abraçou a irmã mais velha. Ela era apenas uma criança. Uma criança que não conseguia lidar com os seus sentimentos. Laura acalentou a menina até que ela estivesse mais calma. Ela teria que usar todos os ensinamentos que sua mãe lhe passou quando viva. Responsabilidades todo mundo tinha, mas saber como administrá-las, já era outra coisa. Depois do café da manhã triste, Laura arrumou sua irmã e a levou para a escola. Algumas mães as olhavam com pena, e isso a incomodou. Ela detestava quando a tratavam diferente, ainda mais com sentimento de dó. Elas esperaram até o sinal tocar e se despediram com o beijo de esquimó, encostando as pontas de seus narizes, e seguiriam seus caminhos. Laura aproveitaria o tempo que a irmã estava em aula para procurar um emprego. O que ela ganhava cuidando dos filhos das amigas e alguns vizinhos, muito m*l dava para pagar o aluguel, outra coisa que estava a deixando de cabelos brancos. Como ela pagaria quatro meses de alugueis atrasados? A primeira parada era uma mercearia que ficava a duas ruas de sua casa. O local era bem movimentado, o que gerava bastante lucro. Sorrindo amigável, entrou no estabelecimento e se dirigiu até ao balcão. — Bom dia. — Bom dia, minha jovem. O que deseja? — A senhora de cabelos claros e óculos grandes, lhe perguntou. — Eu vim pela vaga de emprego. — Com rapidez, Laura tirou de dentro de sua bolsa marrom, o jornal amassado. — Desculpa, mas estamos querendo alguém mais velho. Você ainda é muito nova. Laura não desistiria, ela iria lutar por aquele emprego. — Eu aprendo rápido as coisas. Prometo não decepcioná-la. A senhora negou. Ela estava decidida a não contratá-la. Derrotada, Laura deixou a mereceria. Olhou no jornal e viu que ainda tinham mais dois lugares para ir. Uma daquelas vagas seria sua. Caminhando depressa, Laura andava entre a multidão que se aglomeravam nas calçadas. Seus pés começavam a doer devido ao sapato apertado e por ficar andando de um lado para o outro.Seus pensamentos estavam amontoados, uma verdadeira confusão que precisava urgentemente de uma faxina. O dia foi chegando ao fim e sem boas repostas, Laura voltou para casa. Dona Cecília se ofereceu para ficar com Nicolle enquanto ela procurava por emprego. A senhora a buscou na escola e passou a tarde toda ao lado da menina que antes vivia sorrindo. — Conseguiu algo, minha filha? — perguntou, entregando a Laura uma xícara de café fumegante. Sorvendo um bom gole do liquido, Laura sacudiu a cabeça dizendo um não silencioso. — Eles só querem pessoas com experiência. Como posso ter experiência em alguma coisa se não me dão uma chance? Fica difícil assim. Estou vendo que terei que voltar a trabalhar como babá, isso se eles ainda quiserem. Depois do que aconteceu com a minha mãe, as pessoas passaram a me olhar diferente. — Realmente é complicado — Cecília puxou uma cadeira e sentou ao lado de Laura. — Quero que saiba que sua mãe era uma grande amiga. Eu gostava muito de ficar conversando com Núbia durante a tarde. Amo demais sua irmã e você também... — Onde a senhora quer chegar com essa história? Cecília puxou o ar dos pulmões, encostou as costas na cadeira e olhou para a morena à sua frente. — Eu tentei conversar com o síndico do prédio, mas ele não aceitou. Você tem uma semana para conseguir o dinheiro dos meses atrasados, ou ele irá te despejar. Me desculpa, mas não tenho condições de ajudar. Eu já cuido dos meus netos e uma filha doente. As despesas são enormes, a pensão do meu falecido marido é a quantia certinha para as contas. Sinto muito! Laura não podia fazer nada. Não era certo ficar com raiva da única pessoa que estava lhe ajudando nesse período difícil de sua vida. Também não seria certo ficar vivendo às custas dos outros; não havia sido criada para isso. — Tudo bem. Darei um jeito. — Terminou de beber o café. Despediu-se da amiga, pegou sua irmã e foi embora. Dentro de casa, Laura foi até sua cozinha, abriu a geladeira e quase chorou quando viu apenas algumas garrafas de água e uma jarra de suco velho. Abriu o armário e encontrou dois pacotes de macarrão instantâneo. Aquela seria a refeição. Ela ligou o fogo, colocou a água para esquentar e despejou o conteúdo que havia no pacote dentro da panela. Três minutos, esse era o tempo estimado para o cozimento do macarrão. Com o auxílio de duas colheres, ela serviu uma porção para sua irmã e outra para ela. Levou os dois pratos fumegantes até a sala. — O que você acha de jantarmos assistindo um filme? — Forçando um sorriso, Laura colocou os pratos na pequena mesa de centro.
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