Ela riu, ao encher a caneca branca de porcelana de café.
— Obrigada pelo elogio — disse, entregando a caneca ao cliente, que talvez por descuido, ou não, segurou sua mão. — O senhor está me machucando.
— Uma mulher tão bonita e gostosa assim não deveria trabalhar. Se estivesse comigo teria tudo do bom e do melhor. Posso te dar as estrelas, teria uma vida de rainha.
Laura tentou se desvencilhar do aperto firme da mão do homem à sua frente, porém, ele era muito mais forte do que ela,
— Por favor, me solte...
Ela não precisou dizer mais nada, Pietro se materializou ao lado do homem. Olhou para suas mãos e encontrou o olhar de socorro de Laura.
— Algum problema aqui, Laura? — Pietro usou sua voz firme. — Este cliente está lhe incomodando?
— Só estamos conversando, não é mesmo, Laura? — Cinicamente, o homem perguntou. — Você não tem uma reforma para fazer?
Pietro riu sem mostrar divertimento.
Mantendo seu punho fechado, ele desferiu um soco certeiro no rosto do homem o fazendo cair com tudo no chão. Laura gritou, quando viu Pietro sobre o corpo caído. Ele socava o homem que tentava se proteger de um Pietro descontrolado. Laura tentou separá-lo, mas seu esforço estava sendo em vão.
— Parem com isso! — O Sr. Koll, junto aos outros clientes, conseguiram apartar a briga. — Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui?
— Esse maluco do c*****o veio para cima de mim do nada!
— Mentira! — Laura gritou, defendendo Pietro. — Ele estava me importunando, falando coisas inadequadas, Pietro apenas me ajudou. Foi ele que me faltou com respeito.
— Vou ter que pedir ao senhor que se retire daqui, por favor. Não quero ter que denunciá-lo por assédio s****l a minha funcionária. Tenho câmeras espalhas por todo o recinto, e seria muito fácil comprovar o que acabou de acontecer.
Com fogo saindo dos olhos e sangue escorrendo pelo nariz, o homem saiu.
Laura respirou fundo e nem se deu conta de que duas lágrimas escorriam de seus olhos. Sendo aparada por Koll, ela foi levada até sua sala para poder se recompor.
— Fique aqui, vou trazer um chá de camomila.
Laura soluçava quando seu chefe saiu a deixando sozinha por pouco tempo, pois Pietro entrou na sala e correu em sua direção. Se ajoelhou lado de sua cadeira e pegou suas mãos, a beijando.
— Desculpa, Laura... — murmurou, triste. — Eu não queria assusta-la. Mas quando vi o que ele estava fazendo... aquele ato...
— Você não me assustou — disse ela limpando a garganta. — O que estava fazendo?
Pietro levantou. Respirou fundo e voltou a olhá-la.
— Enquanto ele segurava sua mão, ele abria o zíper da calça com a outra mão e tentava se masturbar. Laura, eu juro que não consegui ver mais nada diante de mim.
Aquilo a comoveu, ela sentiu algo de bom em Pietro, como se de alguma maneira ele fosse lhe proteger sempre. Ela se levantou e o abraçou. Repousou sua cabeça em seu peito e inalou o cheiro do seu perfume. Era gostoso. Forte. Másculo igual a ele.
— Obrigada! — disse erguendo o olhar em sua direção. Passou a mão por seu terno amassado. Seus dedos delicados arrumaram a gravata que estava torta. — Pronto, agora você parece com o Pietro que conheço.
Eles riram.
— Não quero interromper, mas já interrompendo... — Nas mãos, o Sr. Koll trazia uma xícara cheia de chá de camomila. — Aqui está o seu chá. Se você não estiver se sentindo bem para trabalhar, pode tirar o dia de folga, creio que Mary e eu damos conta disso aqui.
Laura tomou um gole generoso do chá.
— Estou ótima. Obrigada pela ajuda, Pietro. — Ela beijou carinhosamente a bochecha dele. — E obrigada pelo chá, senhor Koll.
O dia foi embora e junto levou à tarde também. O ocorrido de mais cedo já havia sido esquecido, Laura se concentrou em atender os clientes que entravam e saíam a toda hora do café. À tarde, ela correu para a academia de artes. Reencontrou alguns amigos antigos, inclusive sua melhor amiga, Christina. Alguns professores e finalmente, sua antiga classe de balé. Ela sentia falta de colocar sua roupa e saltar pela sala espelhada. De se olhar através dos espelhos e junto aos demais, dançar coreografias belíssimas. Ela estava voltando a suas origens, seu sonho não poderia morrer e não morreria. Laura batalharia até conseguir entrar para o melhor grupo de balé clássico.
A aula pareceu passar mais rápido do que antigamente, quando ela percebeu, já estava na hora de ir para a boate e assumir sua outra identidade. Ela mais parecia uma agente do serviço secreto: de manhã era uma simples atendente do Café do Sr. Koll, e ao anoitecer, ela era Laura, a stripper que dominava o prazer.
Já de roupa trocada, saiu em direção ao ponto de ônibus e subiu na condução que a levaria até a boate. Deixou sua cabeça descansar na janela e olhando a rua através do vidro, ela seguiu viagem até seu destino.
***
Na versão mais lenta e sensual da música I Got You (I Feel Good), Laura deslizava sobre o palco, dançando encantando a todos na boate.
“Oh, Eu me sinto bem, eu sabia que me sentiria
Eu me sinto bem, sabia que me sentiria
Tão bem, tão bem, por ter você
Oh, Eu me sinto bem, como açúcar e tempero
Eu me sinto bem, como açúcar e tempero
Tão bem, tão bem, por que eu tenho você”
Laura girou, e com um pulo, ficou de cabeça para baixo no poste de pole dance. Assobios e gritos ecoaram por toda a boate. Sim, aquela música combinava perfeitamente com ela naquele momento.
Laura se sentia bem, só não sabia o motivo de se sentir assim tão bem, tão leve. Ela rodopiava fazendo movimentos sensuais.
Juan a observava da plateia, ele sempre ficava nos bastidores, atrás da cortina, mas naquela noite ele queria saber qual era a sensação de vê-la dançando para vários homens. Nua. Totalmente exposta, tendo somente seu rosto coberto pela mesma máscara preta.
Os olhos de Laura estavam fixos na plateia, nas feições de alguns homens que estavam mais próximos do palco. Ela estava se tornando uma mulher forte, e isso a agradava. Ela não queria ser a garotinha chorona de sempre, a menina que andava com medo pelas ruas. Laura queria ser forte, capaz de correr atrás dos seus objetivos.
Assim que a última estrofe da música tocou, Laura encerrou o show. Sorriu para todos e desfilando nua sobre seus saltos, desceu do palco. Ela não sabia, mas um dos clientes da boate a esperava no camarim. Vestida com seu roupão, ela abriu a porta do camarim e assim que entrou um rosto conhecido a abordou.
— Oi, Laura. — A voz do homem que assediara pela manhã no café fez seu corpo inteiro estremecesse. — Eu sabia que te conhecia, lembra da primeira vez que te vi no café? Eu sabia que seu rosto não era estranho. Agora sei quem você realmente é. Uma p**a!
Ele fechou a porta e jogou Laura contra a parede. Ela gritou por ajuda ao mesmo tempo que ele tentava desfazer o nó do roupão.
Com um chute, Juan colocou a porta abaixo. Correu em direção a Laura e a puxou pelo braço e segundos depois, alguns dos seguranças da boate estavam tirando o homem dali.
— Deem uma boa lição nesse filho da p**a. Todos sabem que a regra predominante daqui é de não tocar nas meninas, a não ser que elas queiram, e tem que ser nos quartos.
Aquilo era demais para ela. O mesmo homem tentara lhe assediar duas vezes seguida. Seu corpo tremia quando Juan a pegou no colo e a tirou dali.
— Não se preocupe, cuidarei de você essa noite. Te levarei para minha casa.
— Quero ir para a minha, por favor — pediu, escondendo seu rosto no peito dele.
— Tudo bem. Cuidarei de você do mesmo jeito.