O dia na escola pareceu interminável para Amara.
Ela tentou prestar atenção nas aulas, tentou copiar o que os professores escreviam no quadro, tentou fingir que tudo estava normal… mas sua mente estava completamente em outro lugar.
No diário.
Nas palavras que apareciam sozinhas.
Na maçã que caiu da mesa exatamente como ela havia escrito.
E naquela última frase perturbadora.
"Se algo nasce… algo também desperta."
O que exatamente aquilo significava?
Durante a aula de matemática, Amara abriu discretamente a mochila e tocou o diário que estava dentro dela.
Ainda estava frio.
Como se não pertencesse completamente ao mundo real.
Ela rapidamente fechou a mochila novamente.
— Amara — disse o professor de repente.
Ela levantou a cabeça.
— Sim?
— Pode resolver a questão no quadro?
Alguns alunos riram.
Amara piscou algumas vezes.
Ela nem sequer tinha ouvido a explicação.
— Eu… acho que não.
O professor suspirou.
— Então preste mais atenção na aula.
Amara assentiu e voltou a olhar para o caderno.
Mas seus pensamentos estavam longe dali.
Muito longe.
Finalmente o sinal tocou.
Os alunos começaram a sair da sala conversando e rindo, mas Amara levantou-se rapidamente, pegou sua mochila e saiu quase correndo da escola.
Ela precisava voltar ao mercado.
Precisava encontrar aquela mulher.
O vento da tarde estava mais forte agora, levantando pequenas nuvens de poeira pelas ruas.
Amara caminhava rápido.
Cada passo fazia seu coração bater mais forte.
Algo dentro dela dizia que aquele diário não tinha aparecido em sua vida por acaso.
E a única pessoa que parecia saber alguma coisa sobre ele… era a velha vendedora do mercado.
Quando Amara finalmente chegou à praça, o mercado de rua estava tão movimentado quanto no dia anterior.
As barracas coloridas ocupavam quase toda a praça.
Pessoas caminhavam entre elas comprando frutas, roupas, utensílios e objetos antigos.
Mas Amara não olhava para nada disso.
Seus olhos procuravam apenas uma coisa.
A pequena barraca de livros.
Ela caminhou entre as pessoas até finalmente vê-la.
Lá estava.
Exatamente no mesmo lugar.
A mesa de madeira escura.
Os livros empilhados.
E atrás dela… a mesma mulher idosa.
Sentada calmamente.
Como se estivesse esperando.
Amara aproximou-se.
— Boa tarde.
A mulher levantou os olhos lentamente.
Quando viu Amara, um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.
— Eu imaginei que você voltaria.
Amara parou.
— A senhora… imaginou?
A mulher inclinou levemente a cabeça.
— Algumas histórias são fáceis de prever.
Amara colocou a mochila sobre a mesa e tirou o diário de dentro.
Ela colocou o livro diante da mulher.
— Este diário… não é normal.
A mulher não pareceu surpresa.
Na verdade, seu sorriso ficou um pouco maior.
— Não mesmo.
Amara franziu a testa.
— A senhora sabia disso?
A mulher passou os dedos lentamente sobre a capa do diário.
— Eu conheço esse livro há muito tempo.
— Então por que me vendeu?
A mulher levantou os olhos.
— Porque ele escolheu você.
Amara piscou.
— Escolheu?
— Sim.
Amara riu nervosamente.
— Livros não escolhem pessoas.
A mulher inclinou-se levemente para frente.
Seus olhos pareciam muito mais atentos agora.
— Esse escolhe.
O vento soprou entre as barracas, fazendo algumas páginas de livros se moverem.
Amara cruzou os braços.
— Eu escrevi coisas nele… e elas aconteceram.
A mulher assentiu.
— Sim.
— E frases aparecem sozinhas nas páginas.
— Também é normal.
Amara ficou irritada.
— Normal?!
A mulher soltou uma pequena risada.
— Para esse diário… sim.
Amara respirou fundo.
— Eu quero saber o que é isso.
A mulher ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois disse calmamente:
— Esse diário já pertenceu a outros escritores.
— Escritores?
— Pessoas que gostavam de criar histórias.
Amara sentiu um arrepio.
— E o que aconteceu com eles?
A mulher olhou para o diário.
Seu sorriso desapareceu lentamente.
— Alguns desapareceram.
Amara ficou imóvel.
— Desapareceram?
A mulher assentiu.
— Outros enlouqueceram.
Um frio percorreu o corpo de Amara.
— Isso não é engraçado.
— Não estou brincando.
Amara olhou novamente para o livro.
— O que exatamente ele faz?
A mulher respondeu com calma:
— Ele transforma histórias em realidade.
Amara suspirou.
— Eu já percebi isso.
— Mas esse não é o verdadeiro perigo.
Amara levantou os olhos rapidamente.
— Então qual é?
A mulher apontou para o diário.
— As histórias que você escreve… também começam a viver.
— Claro que vivem. Elas acontecem.
A mulher balançou a cabeça.
— Não estou falando apenas disso.
O vento soprou mais forte.
As páginas de alguns livros começaram a virar sozinhas.
A mulher continuou:
— Quando um personagem aparece muitas vezes… quando uma história cresce… quando emoções são colocadas nela…
Amara sentiu o coração acelerar.
— O que acontece?
A mulher respondeu em voz baixa:
— Ele ganha consciência.
O mundo pareceu ficar silencioso por um instante.
— Consciência…?
— Sim.
Amara pensou imediatamente na frase que tinha aparecido no diário.
"E nas sombras… algo começa a despertar."
— Isso já aconteceu antes?
A mulher assentiu lentamente.
— Muitas vezes.
Amara deu um passo para trás.
— Então… o diário é amaldiçoado?
A mulher pensou por um momento.
— Eu diria que ele é… exigente.
— Exigente?
— Toda história precisa de conflito.
Amara sentiu o estômago apertar.
— O que isso quer dizer?
A mulher olhou diretamente nos olhos dela.
— Se você escreve coisas boas… o diário cria equilíbrio.
— Equilíbrio?
— Algo sombrio também pode nascer.
Amara lembrou imediatamente da última frase escrita no diário.
"Se algo nasce… algo também desperta."
Seu coração começou a bater mais rápido.
— Então se eu escrever um personagem r**m…
A mulher terminou a frase:
— Ele pode começar a existir.
O silêncio caiu entre elas.
Amara olhou para o diário.
E pela primeira vez sentiu medo real daquele objeto.
— E se eu parar de escrever?
A mulher respondeu calmamente:
— Às vezes… já é tarde demais.
Amara ficou pálida.
— O que quer dizer com isso?
A mulher tocou novamente o símbolo na capa do diário.
— Algumas histórias não gostam de terminar.
O vento passou novamente pela praça.
Amara pegou o diário rapidamente.
— Então eu só preciso não escrever nada perigoso.
A mulher suspirou.
— Eu espero que seja tão simples quanto você imagina.
Amara colocou o diário de volta na mochila.
— Obrigada pelas informações.
Ela virou-se para ir embora.
Mas antes de sair, a mulher disse:
— Menina.
Amara parou.
— Sim?
A mulher olhava para ela com uma expressão séria.
— Se algum dia… algo começar a responder às suas histórias…
Amara sentiu um arrepio.
— O que eu faço?
A mulher respondeu lentamente:
— Pare de escrever sobre ele.
— E se isso não funcionar?
A mulher ficou em silêncio.
Por um longo momento.
Então disse algo que fez o coração de Amara gelar.
— Então você terá criado algo que não pode mais apagar.
Amara engoliu seco.
E naquele instante, dentro da mochila…
o diário começou a se abrir sozinho.