Capítulo 5

1810 Palavras
Amara caminhava de volta para casa com passos rápidos. O mercado ficava cada vez mais distante atrás dela, mas as palavras da velha continuavam ecoando em sua mente. "Algumas histórias não gostam de terminar." "Quando um personagem aparece muitas vezes… ele pode ganhar consciência." "Você terá criado algo que não pode mais apagar." Ela apertou a mochila contra o peito. Dentro dela estava o diário. E agora ele parecia muito mais pesado do que antes. O céu começava a escurecer lentamente. As nuvens estavam grossas, e o vento soprava pelas ruas fazendo folhas secas rodopiarem pelo chão. Amara caminhava sem prestar muita atenção ao caminho. Sua mente estava cheia demais de perguntas. Aquela mulher realmente sabia muito sobre o diário. Mas ao mesmo tempo… ela parecia não ter contado tudo. — “Ele escolheu você.” A frase voltou à sua cabeça. Amara franziu a testa. — Isso não faz sentido. Ela chegou em casa poucos minutos depois. Como sempre, a casa estava silenciosa. Sua mãe ainda estava no trabalho. Amara entrou, fechou a porta e foi direto para o quarto. O gato estava lá. Sentado no meio da cama. Assim que viu Amara, ele levantou-se e caminhou até a escrivaninha, como se estivesse esperando por algo. Amara tirou a mochila das costas. — Você vai achar isso estranho… — murmurou ela para o gato — mas aparentemente eu tenho um diário mágico que pode criar coisas. O gato apenas piscou lentamente. Amara colocou o diário sobre a mesa. — E segundo a mulher do mercado… se eu escrever personagens muitas vezes… eles podem começar a existir. O gato pulou para a mesa. Seus olhos estavam fixos no diário. Amara respirou fundo. — Isso é ridículo. Ela abriu o diário. As páginas estavam quietas. Nenhuma palavra nova. Ela virou até a página onde havia escrito pela última vez. As frases ainda estavam lá. "Cada palavra cria um eco no mundo." "Se algo nasce… algo também desperta." Amara sentou-se na cadeira e pegou a caneta. Seu coração estava acelerado. Parte dela queria fechar o diário e esquecer tudo aquilo. Mas outra parte… uma parte muito mais curiosa… queria testar mais. — Só mais uma vez — disse ela. O gato continuava observando. Amara começou a escrever. "Na pequena rua em frente à casa da garota, as luzes dos postes começaram a piscar." Ela parou. Esperou. O quarto ficou silencioso. Nada aconteceu. — Ok… talvez não funcione sempre. Mas naquele exato momento… As luzes do quarto piscaram. Uma vez. Duas. Três. Amara levantou-se rapidamente da cadeira. — Não… Ela correu até a janela. Na rua, os postes estavam piscando. A luz apagava. Voltava. Apagava novamente. Como se algo estivesse interferindo na eletricidade. Amara sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Ela voltou lentamente para a mesa. O diário estava aberto. E uma nova frase estava sendo escrita. A tinta aparecia devagar. "A garota começa a entender o poder das palavras." Amara respirou fundo. — Isso… é incrível. Mas a frase continuou. "Mas ela ainda não sabe como as histórias crescem." Amara franziu a testa. — Crescem? A tinta continuou surgindo. Mais lenta. Mais pesada. "Toda história precisa de um personagem." O gato levantou as orelhas. Amara ficou olhando para o papel. Seu coração acelerou. — Um personagem… Ela pensou por alguns segundos. Então um sorriso pequeno surgiu em seu rosto. — Ok… vamos tentar algo. Ela pegou a caneta novamente. O gato observava cada movimento. Amara começou a escrever lentamente. "Nas sombras da rua, algo começou a se formar." Ela parou. O vento soprou do lado de fora. As árvores balançaram. Amara continuou. "Era apenas uma forma escura no começo." A caneta tremia um pouco em sua mão. "Algo feito de sombra e silêncio." O gato levantou-se. Seu pelo estava arrepiado. Amara não percebeu. Ela continuou escrevendo. "A criatura não tinha rosto." "Apenas dois olhos amarelos brilhando na escuridão." Um arrepio percorreu o quarto. Amara respirou fundo. — Isso vai ser uma boa história. Ela escreveu a última frase: "A criatura observava a casa da garota… esperando." Amara largou a caneta. — Pronto. O quarto ficou em silêncio. Nada aconteceu. Ela suspirou. — Acho que personagens não funcionam. Mas naquele instante o gato começou a rosnar baixo. Amara virou-se. — O que foi? O gato estava olhando para a janela. Fixamente. Seus olhos estavam enormes. Amara sentiu o coração acelerar. — Para com isso… você está me assustando. Ela caminhou até a janela. O vento lá fora estava mais forte agora. As árvores balançavam. As sombras da rua se moviam lentamente. Amara olhou para o poste de luz mais próximo. A luz piscou novamente. Então apagou. Por um segundo a rua ficou completamente escura. E naquele instante… Amara viu algo. Uma forma. Parada perto da árvore em frente à casa. Alta. Imóvel. Feita apenas de escuridão. Dois pontos amarelos brilharam na noite. Olhos. Observando. Amara deu um passo para trás. Seu coração começou a bater tão forte que parecia que ia sair do peito. — Não… não… não… A luz do poste voltou. A rua estava vazia. Nada. Nenhuma criatura. Nenhuma sombra. Amara respirava rápido. — Foi só imaginação… Mas atrás dela… o diário começou a se abrir novamente. As páginas viraram sozinhas. Frrrrrr… Amara virou-se lentamente. Uma nova frase estava surgindo. A tinta parecia mais escura que antes. Mais profunda. As palavras apareceram: "A primeira sombra nasceu." Amara sentiu o estômago gelar. A frase continuou. "E ela já encontrou a garota." O gato soltou um miado baixo. Amara ficou olhando para o diário. Sem perceber que do lado de fora da casa… entre as árvores escuras… dois olhos amarelos brilhavam novamente. Observando a janela. Esperando. Porque agora… a história tinha começado de verdade. ** Amara ficou parada no meio do quarto, encarando o diário aberto sobre a mesa. Seu coração batia tão forte que parecia ecoar em seus ouvidos. "A primeira sombra nasceu." "E ela já encontrou a garota." As palavras estavam ali. Imóveis. Reais. Ela sentiu a garganta secar. — Isso… isso é impossível — sussurrou. O gato ainda estava olhando para a janela. Seu corpo estava tenso, o r**o rígido e o pelo levemente arrepiado. Amara respirou fundo e tentou se acalmar. — Eu só escrevi uma história. Ela passou a mão no rosto. — Foi só imaginação. Mas sua mente insistia em lembrar do que tinha visto segundos antes. Aquela forma escura perto da árvore. Os olhos amarelos. Observando. Amara se aproximou lentamente da janela novamente. Seu coração parecia cada vez mais pesado. Ela abriu um pouco a cortina. A rua estava silenciosa. O poste de luz iluminava o chão com um brilho fraco e amarelado. As árvores balançavam devagar com o vento. Nada mais. Nenhuma criatura. Nenhuma sombra estranha. Amara soltou um suspiro longo. — Está vendo? — disse ela para si mesma — Eu estou ficando paranoica. Ela fechou a cortina. Quando se virou, o gato estava olhando diretamente para ela. Seus olhos brilhavam na luz fraca do quarto. — Você também viu alguma coisa? — perguntou Amara. O gato não respondeu, claro. Ele apenas continuou observando. Amara caminhou de volta até a mesa. O diário ainda estava aberto. As frases escritas pareciam quase vivas sobre o papel. Ela passou os dedos pela página. A tinta estava seca. Normal. — Talvez eu esteja levando isso longe demais — murmurou. Ela pegou a caneta novamente. Mas parou. A lembrança das palavras da velha do mercado voltou imediatamente. "Se você escrever personagens muitas vezes… eles podem começar a existir." Amara engoliu seco. — Eu não escrevi muitas vezes. Foi só uma vez. Só uma pequena descrição. Nada mais. Mas mesmo assim… algo dentro dela dizia que aquilo não era tão simples. O gato pulou da mesa de repente. Amara quase levou um susto. — Ei! O gato caminhou pelo quarto devagar. Depois parou novamente perto da porta. Seus olhos estavam fixos no corredor escuro. Amara franziu a testa. — O que foi agora? Silêncio. A casa estava quieta. Muito quieta. Talvez quieta demais. Amara caminhou até a porta do quarto. Ela abriu lentamente. O corredor estava mergulhado na penumbra. A única luz vinha da cozinha, fraca e distante. — Tem alguém aí? — perguntou ela. Nenhuma resposta. O gato deu alguns passos pelo corredor. Parou novamente. Olhando para a sala. Amara começou a sentir um aperto no peito. — Isso é ridículo — disse ela, tentando parecer corajosa. Ela caminhou até a sala. Olhou ao redor. Nada. A televisão desligada. O sofá vazio. As cortinas se movendo levemente com o vento que entrava por uma pequena fresta da janela. Tudo normal. Amara respirou fundo. — Está vendo? Nada. Mas quando ela se virou para voltar ao quarto… ela percebeu algo. A janela da sala estava aberta. Completamente aberta. Amara parou. — Eu não deixei isso assim. Ela caminhou lentamente até a janela. O vento frio entrava pela a******a, fazendo as cortinas dançarem. Amara olhou para fora. A rua parecia vazia. Mas havia algo estranho. As sombras das árvores pareciam mais longas. Mais densas. Quase… vivas. Amara sentiu um arrepio subir pela coluna. — Ok… chega disso. Ela fechou a janela rapidamente. Assim que a trancou, ouviu um pequeno som atrás dela. Tap. Algo muito leve. Como um passo. Amara congelou. Seu coração disparou. — Mãe…? Nenhuma resposta. O silêncio voltou. Ela virou-se devagar. O gato estava no meio da sala. Mas agora ele estava completamente imóvel. Seus olhos estavam fixos em um ponto do teto. Amara levantou os olhos. Nada. Apenas o teto branco. — Você está me assustando — murmurou. O gato soltou um rosnado baixo. Muito baixo. Quase inaudível. Amara sentiu o estômago apertar. Ela decidiu voltar rapidamente para o quarto. Quando entrou, percebeu algo que fez seu coração quase parar. O diário estava novamente aberto. Mas agora havia uma nova frase escrita na página. Uma frase que ela tinha certeza absoluta de que não tinha visto antes. As palavras estavam lá. Escuras. Claramente visíveis. "A sombra está mais perto do que ela imagina." Amara deu um passo para trás. — Quem está escrevendo isso?! O quarto permaneceu silencioso. Mas a tinta começou a se mover novamente. Devagar. Letra por letra. Formando uma nova linha. Amara observava sem conseguir respirar. "Ela entrou na casa sem fazer barulho." O sangue de Amara gelou. — Não… A frase continuou. "Ela não precisa de portas." O vento soprou novamente pela casa. As cortinas se moveram. As sombras no quarto pareceram se alongar. Amara olhou lentamente para o chão. Algo estava errado. Muito errado. A sombra da mesa estava normal. A sombra da cadeira também. Mas perto da porta… havia uma terceira sombra. Alta. Estreita. Que não pertencia a nenhum objeto do quarto. Amara sentiu as pernas enfraquecerem. Seu coração batia descontrolado. Porque aquela sombra… estava se movendo. Devagar. Como se estivesse respirando. E lentamente… começando a se levantar da parede.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR