Recife não dorme — e agora, Thomas também não.
As noites que antes eram feitas de hinos e orações se tornaram longas, cheias de luzes de néon, risadas roucas e copos cheios.
O homem que um dia cantou no coral agora se sentava em mesas de bar, com o colarinho aberto e o olhar cansado, assistindo à própria transformação como quem observa um estranho no espelho.
No começo, era libertador.
A cerveja gelada, a música alta, o toque leve de mãos que não cobravam amor nem promessas.
Ali, ninguém o chamava de “irmão” ou “pecador”.
Era apenas Thomas, um homem tentando esquecer quem foi.
Os amigos o receberam de braços abertos.
— Agora sim, voltou pra vida, rapaz! — dizia André, brindando mais uma rodada.
E Thomas ria, meio embriagado, meio livre.
Mas, por dentro, uma parte dele ainda observava tudo em silêncio — a parte que sabia que liberdade demais também pode ser uma prisão.
No bar, conheceu rostos novos a cada semana.
Mulheres bonitas, de riso fácil e olhar direto. Nenhuma fazia perguntas. Nenhuma queria o amanhã.
E isso bastava.
Com o tempo, os bares já não bastavam.
As madrugadas o levaram a lugares que antes condenava — salões pequenos, iluminados por luz vermelha, com perfume forte e vozes doces chamando pelo nome de quem pagava.
Thomas entrou pela primeira vez num desses lugares com o coração dividido.
Lembrou-se de tudo o que aprendeu sobre pecado, tentação, inferno.
Mas quando uma mulher de vestido azul se aproximou e sorriu com doçura, ele percebeu que o inferno podia ser mais acolhedor do que a solidão.
Não buscava amor.
Buscava esquecimento.
As noites se tornaram rotina.
Um novo copo, um novo rosto, uma nova mentira contada a si mesmo: “é só hoje”.
Mas o hoje se repetia, e o amanhã nunca chegava.
No caminho de volta pra casa, Thomas olhava as ruas vazias e sentia o vento quente no rosto.
O cheiro de cigarro e perfume barato o acompanhava como lembrança.
E, no fundo, ele sabia — estava se perdendo outra vez.
Mas, agora, não sentia culpa.
A mãe, perceptiva como sempre, começou a notar as ausências.
— Você tem chegado tarde, meu filho — disse, certa manhã, sem levantar os olhos do café.
— Tô aproveitando um pouco a vida, mãe.
Ela assentiu, mas o olhar dizia mais do que as palavras.
— Só cuidado pra não confundir viver com se castigar.
Thomas sorriu.
— Eu só tô cansado de ter medo.
— E quem disse que coragem é viver sem medo? — respondeu ela, calma. — Às vezes, coragem é enfrentá-lo de frente.
Ele não respondeu. Mas aquelas palavras ficaram.
No espelho do banheiro, certa madrugada, Thomas se olhou de novo.
O rosto estava diferente — mais maduro, mas também mais vazio.
O brilho dos olhos se misturava com um cansaço que nem o álcool apagava.
— Então é isso que eu sou agora — murmurou. — Um homem livre… e perdido.
No reflexo, por um instante, pareceu ver o Thomas de antes — o do coral, o das promessas, o que acreditava no amor.
Mas ele desapareceu junto com o vapor do espelho.
Naquela noite, saiu novamente.
Mas, ao chegar ao mesmo bar de sempre, algo dentro dele hesitou.
As risadas, as vozes, as luzes — tudo parecia igual, mas pela primeira vez, nada o atraía.
Sentou-se no balcão, pediu uma bebida e ficou olhando o movimento.
As pessoas dançavam, se beijavam, viviam.
E ele, no meio de tudo, sentiu-se mais só do que nunca.
Talvez estivesse, enfim, descobrindo que a liberdade sem rumo é só outro tipo de corrente — mais leve, mas ainda assim uma prisão.
Quando voltou pra casa, o amanhecer começava a pintar o céu.
A mãe dormia, a rua estava quieta.
Thomas olhou para o horizonte e, pela primeira vez em muito tempo, murmurou algo parecido com uma prece —
não pedindo perdão, nem bênção.
Apenas dizendo:
— Eu ainda tô aqui.
E, naquele instante, percebeu:
o pecado já não o definia, mas o vazio ainda o habitava.
E ele teria de aprender a conviver com os dois — o homem que era, e o homem que o mundo o forçava a ser