Capítulo 25 – Noites Sem Céu

712 Palavras
Recife não dorme — e agora, Thomas também não. As noites que antes eram feitas de hinos e orações se tornaram longas, cheias de luzes de néon, risadas roucas e copos cheios. O homem que um dia cantou no coral agora se sentava em mesas de bar, com o colarinho aberto e o olhar cansado, assistindo à própria transformação como quem observa um estranho no espelho. No começo, era libertador. A cerveja gelada, a música alta, o toque leve de mãos que não cobravam amor nem promessas. Ali, ninguém o chamava de “irmão” ou “pecador”. Era apenas Thomas, um homem tentando esquecer quem foi. Os amigos o receberam de braços abertos. — Agora sim, voltou pra vida, rapaz! — dizia André, brindando mais uma rodada. E Thomas ria, meio embriagado, meio livre. Mas, por dentro, uma parte dele ainda observava tudo em silêncio — a parte que sabia que liberdade demais também pode ser uma prisão. No bar, conheceu rostos novos a cada semana. Mulheres bonitas, de riso fácil e olhar direto. Nenhuma fazia perguntas. Nenhuma queria o amanhã. E isso bastava. Com o tempo, os bares já não bastavam. As madrugadas o levaram a lugares que antes condenava — salões pequenos, iluminados por luz vermelha, com perfume forte e vozes doces chamando pelo nome de quem pagava. Thomas entrou pela primeira vez num desses lugares com o coração dividido. Lembrou-se de tudo o que aprendeu sobre pecado, tentação, inferno. Mas quando uma mulher de vestido azul se aproximou e sorriu com doçura, ele percebeu que o inferno podia ser mais acolhedor do que a solidão. Não buscava amor. Buscava esquecimento. As noites se tornaram rotina. Um novo copo, um novo rosto, uma nova mentira contada a si mesmo: “é só hoje”. Mas o hoje se repetia, e o amanhã nunca chegava. No caminho de volta pra casa, Thomas olhava as ruas vazias e sentia o vento quente no rosto. O cheiro de cigarro e perfume barato o acompanhava como lembrança. E, no fundo, ele sabia — estava se perdendo outra vez. Mas, agora, não sentia culpa. A mãe, perceptiva como sempre, começou a notar as ausências. — Você tem chegado tarde, meu filho — disse, certa manhã, sem levantar os olhos do café. — Tô aproveitando um pouco a vida, mãe. Ela assentiu, mas o olhar dizia mais do que as palavras. — Só cuidado pra não confundir viver com se castigar. Thomas sorriu. — Eu só tô cansado de ter medo. — E quem disse que coragem é viver sem medo? — respondeu ela, calma. — Às vezes, coragem é enfrentá-lo de frente. Ele não respondeu. Mas aquelas palavras ficaram. No espelho do banheiro, certa madrugada, Thomas se olhou de novo. O rosto estava diferente — mais maduro, mas também mais vazio. O brilho dos olhos se misturava com um cansaço que nem o álcool apagava. — Então é isso que eu sou agora — murmurou. — Um homem livre… e perdido. No reflexo, por um instante, pareceu ver o Thomas de antes — o do coral, o das promessas, o que acreditava no amor. Mas ele desapareceu junto com o vapor do espelho. Naquela noite, saiu novamente. Mas, ao chegar ao mesmo bar de sempre, algo dentro dele hesitou. As risadas, as vozes, as luzes — tudo parecia igual, mas pela primeira vez, nada o atraía. Sentou-se no balcão, pediu uma bebida e ficou olhando o movimento. As pessoas dançavam, se beijavam, viviam. E ele, no meio de tudo, sentiu-se mais só do que nunca. Talvez estivesse, enfim, descobrindo que a liberdade sem rumo é só outro tipo de corrente — mais leve, mas ainda assim uma prisão. Quando voltou pra casa, o amanhecer começava a pintar o céu. A mãe dormia, a rua estava quieta. Thomas olhou para o horizonte e, pela primeira vez em muito tempo, murmurou algo parecido com uma prece — não pedindo perdão, nem bênção. Apenas dizendo: — Eu ainda tô aqui. E, naquele instante, percebeu: o pecado já não o definia, mas o vazio ainda o habitava. E ele teria de aprender a conviver com os dois — o homem que era, e o homem que o mundo o forçava a ser
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR