Capítulo 26 – Entre o Desejo e o Despertar

775 Palavras
Os meses seguintes trouxeram para Thomas uma nova rotina — mais mundana, mais intensa e, de certa forma, mais humana. Ele já não era o homem que orava antes de dormir. Agora, era o homem que acordava tarde, tomava café frio e seguia para o trabalho com o cheiro da noite ainda grudado na pele. No banco, voltou a ser o funcionário exemplar. Disciplinado, respeitado, um homem que sabia sorrir no momento certo e manter a postura impecável diante dos clientes. Mas, quando o expediente acabava, o outro Thomas despertava — aquele que vivia nas esquinas iluminadas, entre gargalhadas, fumaça e copos de vidro. Foi numa dessas noites que conheceu Lívia. Ela trabalhava no bar que ele mais frequentava, um pequeno pub perto do centro, com luz baixa e música de voz e violão. Não era uma daquelas mulheres que ele procurava por fuga — havia algo diferente nela. Lívia tinha olhos serenos, um sorriso melancólico e um jeito de falar que parecia não combinar com o lugar. — Cerveja ou whisky hoje? — perguntou ela, ao atender sua mesa pela primeira vez. — Surpreenda-me — respondeu ele, e ela sorriu com um canto da boca. Era um sorriso que não prometia nada, mas também não recusava nada. Nas semanas seguintes, Thomas começou a ir ao bar mais por Lívia do que pela bebida. Ela o ouvia como ninguém, ria das piadas, mas também o silenciava quando ele tentava bancar o homem que “sabia de tudo”. — Você vive como quem tenta provar algo — disse ela, certa vez. — Mas pra quem? A pergunta ficou ecoando nele. Começaram a sair depois do expediente dela. Primeiro, cafés rápidos. Depois, caminhadas pela orla. Thomas descobriu que ela estudava à noite e trabalhava para pagar as contas. Não se via como santa nem como perdida. Era apenas alguém tentando sobreviver. — Eu já julguei muito as pessoas — confessou ele, uma madrugada. — Agora acho que tô só tentando entender. — Entender o quê? — Onde foi que eu me perdi. Lívia sorriu, mas o olhar ficou sério. — Às vezes, a gente não se perde. A gente só muda o caminho. O tempo passou, e o envolvimento entre os dois cresceu. Não era amor ainda — era um reconhecimento mútuo, uma identificação entre feridos. Thomas sentia algo que há muito não sentia: paz. Mas, no fundo, também sentia medo. Medo de se apegar, medo de se iludir, medo de repetir o passado. E, acima de tudo, medo de admitir que, talvez, ainda fosse capaz de amar. Certa noite, ela perguntou: — Você ainda pensa em voltar pra igreja? Thomas olhou o copo, pensativo. — A igreja ficou pra trás. Eu não quero mais fingir que sou santo pra poder respirar. — E eu? — ela perguntou, com um sorriso triste. — Onde eu fico nessa tua nova vida? Ele demorou pra responder. — Você me faz lembrar do que é ser humano. E isso já é mais do que eu esperava sentir de novo. Ela encostou a cabeça em seu ombro. E, por um instante, ele acreditou que poderia começar de novo. Mas o tempo, como sempre, trouxe o peso da consciência. Certa manhã, ao se olhar no espelho do banheiro, Thomas sentiu algo estranho: não era culpa, era cansaço. Percebeu que havia trocado um tipo de prisão por outra. Agora, não eram as regras da igreja que o prendiam — era o vício da fuga, o medo de encarar a própria solidão. Lívia, sensível, percebeu a mudança. — Você anda distante — disse ela, certa noite. — O que foi? Thomas segurou a mão dela. — Você é incrível, Lívia. Mas eu preciso me reencontrar. E, pra isso, preciso parar de me esconder nas pessoas. Ela o olhou, compreendendo mais do que gostaria. — Então vai. Mas volta inteiro, não pela metade. No dia seguinte, Thomas não apareceu no bar. Nem no outro. Nem no outro. Voltou a dedicar-se ao trabalho, aos estudos, às pequenas rotinas que havia abandonado. Os amigos notaram a mudança — estava mais centrado, mais quieto, mais sóbrio. Mas havia serenidade no olhar. E, pela primeira vez em anos, Thomas entendeu o que significava liberdade: não era o prazer sem culpa, nem a fé sem falhas. Era a capacidade de escolher a si mesmo. E, enquanto caminhava pela rua, com o sol nascendo sobre o Recife que nunca dorme, ele pensou em tudo o que viveu — e sorriu. Porque, enfim, não havia mais correntes. Nem da fé, nem do pecado. Nem de ninguém. Apenas ele, um homem em paz com suas próprias imperfeições
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