Os meses seguintes trouxeram para Thomas uma nova rotina — mais mundana, mais intensa e, de certa forma, mais humana.
Ele já não era o homem que orava antes de dormir. Agora, era o homem que acordava tarde, tomava café frio e seguia para o trabalho com o cheiro da noite ainda grudado na pele.
No banco, voltou a ser o funcionário exemplar. Disciplinado, respeitado, um homem que sabia sorrir no momento certo e manter a postura impecável diante dos clientes.
Mas, quando o expediente acabava, o outro Thomas despertava — aquele que vivia nas esquinas iluminadas, entre gargalhadas, fumaça e copos de vidro.
Foi numa dessas noites que conheceu Lívia.
Ela trabalhava no bar que ele mais frequentava, um pequeno pub perto do centro, com luz baixa e música de voz e violão.
Não era uma daquelas mulheres que ele procurava por fuga — havia algo diferente nela.
Lívia tinha olhos serenos, um sorriso melancólico e um jeito de falar que parecia não combinar com o lugar.
— Cerveja ou whisky hoje? — perguntou ela, ao atender sua mesa pela primeira vez.
— Surpreenda-me — respondeu ele, e ela sorriu com um canto da boca.
Era um sorriso que não prometia nada, mas também não recusava nada.
Nas semanas seguintes, Thomas começou a ir ao bar mais por Lívia do que pela bebida.
Ela o ouvia como ninguém, ria das piadas, mas também o silenciava quando ele tentava bancar o homem que “sabia de tudo”.
— Você vive como quem tenta provar algo — disse ela, certa vez. — Mas pra quem?
A pergunta ficou ecoando nele.
Começaram a sair depois do expediente dela. Primeiro, cafés rápidos. Depois, caminhadas pela orla.
Thomas descobriu que ela estudava à noite e trabalhava para pagar as contas. Não se via como santa nem como perdida. Era apenas alguém tentando sobreviver.
— Eu já julguei muito as pessoas — confessou ele, uma madrugada. — Agora acho que tô só tentando entender.
— Entender o quê?
— Onde foi que eu me perdi.
Lívia sorriu, mas o olhar ficou sério.
— Às vezes, a gente não se perde. A gente só muda o caminho.
O tempo passou, e o envolvimento entre os dois cresceu.
Não era amor ainda — era um reconhecimento mútuo, uma identificação entre feridos.
Thomas sentia algo que há muito não sentia: paz.
Mas, no fundo, também sentia medo.
Medo de se apegar, medo de se iludir, medo de repetir o passado.
E, acima de tudo, medo de admitir que, talvez, ainda fosse capaz de amar.
Certa noite, ela perguntou:
— Você ainda pensa em voltar pra igreja?
Thomas olhou o copo, pensativo.
— A igreja ficou pra trás. Eu não quero mais fingir que sou santo pra poder respirar.
— E eu? — ela perguntou, com um sorriso triste. — Onde eu fico nessa tua nova vida?
Ele demorou pra responder.
— Você me faz lembrar do que é ser humano. E isso já é mais do que eu esperava sentir de novo.
Ela encostou a cabeça em seu ombro.
E, por um instante, ele acreditou que poderia começar de novo.
Mas o tempo, como sempre, trouxe o peso da consciência.
Certa manhã, ao se olhar no espelho do banheiro, Thomas sentiu algo estranho:
não era culpa, era cansaço.
Percebeu que havia trocado um tipo de prisão por outra.
Agora, não eram as regras da igreja que o prendiam — era o vício da fuga, o medo de encarar a própria solidão.
Lívia, sensível, percebeu a mudança.
— Você anda distante — disse ela, certa noite. — O que foi?
Thomas segurou a mão dela.
— Você é incrível, Lívia. Mas eu preciso me reencontrar. E, pra isso, preciso parar de me esconder nas pessoas.
Ela o olhou, compreendendo mais do que gostaria.
— Então vai. Mas volta inteiro, não pela metade.
No dia seguinte, Thomas não apareceu no bar.
Nem no outro.
Nem no outro.
Voltou a dedicar-se ao trabalho, aos estudos, às pequenas rotinas que havia abandonado.
Os amigos notaram a mudança — estava mais centrado, mais quieto, mais sóbrio.
Mas havia serenidade no olhar.
E, pela primeira vez em anos, Thomas entendeu o que significava liberdade:
não era o prazer sem culpa, nem a fé sem falhas.
Era a capacidade de escolher a si mesmo.
E, enquanto caminhava pela rua, com o sol nascendo sobre o Recife que nunca dorme, ele pensou em tudo o que viveu — e sorriu.
Porque, enfim, não havia mais correntes.
Nem da fé, nem do pecado.
Nem de ninguém.
Apenas ele, um homem em paz com suas próprias imperfeições