Capítulo 28 – O Espelho e a Luz

715 Palavras
Era uma tarde comum de quinta-feira. O banco estava tranquilo, e Thomas acabara de sair do expediente. O sol se punha sobre o Recife, espalhando reflexos dourados pelos vidros dos prédios. Ele caminhava devagar, apreciando o vento morno, quando ouviu uma voz familiar atrás de si: — Thomas? Virou-se, e por um instante, o tempo pareceu parar. À sua frente estava pastor Jonas, o mesmo homem que, anos antes, o havia recebido na igreja com abraços e o expulsado com silêncio. O pastor estava mais velho, os cabelos grisalhos, o olhar cansado — mas ainda com aquele ar de autoridade suave que o tornava respeitado. — Faz tempo, meu filho — disse ele, com um sorriso hesitante. — Pensei que tivesse sumido do mapa. Thomas o olhou por alguns segundos antes de responder: — E sumi mesmo. Do mapa da igreja, pelo menos. Os dois caminharam até uma cafeteria próxima. O pastor pediu um café preto; Thomas, um expresso duplo. Houve um momento de silêncio constrangido, como se cada um medisse o peso das palavras que ainda viriam. — Muita gente perguntou por você — começou o pastor. — Dizem que está bem, com um bom emprego, vivendo outra vida. Thomas deu um leve sorriso. — É verdade. Vivo outra vida. Uma vida… minha. Jonas assentiu, pensativo. — Eu sempre soube que você tinha fé. Só achei que um dia voltaria. Thomas olhou pela janela, vendo o trânsito passar. — Sabe, pastor… por muito tempo eu pensei que perder a fé era o mesmo que perder a Deus. — E não é? — perguntou Jonas. Thomas o encarou. — Não. Eu perdi o medo, não a fé. Hoje, eu acredito num Deus que não precisa me vigiar pra me amar. O pastor o observou, surpreso com a calma na voz do antigo discípulo. — E as consequências? O que viveu, o que sofreu... tudo isso não te fez pensar que talvez tivesse se afastado do caminho certo? Thomas respirou fundo. — Se eu não tivesse me afastado, ainda estaria preso. Achando que o certo é o que agrada os outros. Eu precisei cair pra entender que fé sem liberdade é só obediência. O pastor ficou em silêncio por um tempo. Finalmente, sorriu — um sorriso triste, mas sincero. — Sabe, Thomas… a igreja também erra. A gente fala muito sobre perdão, mas às vezes esquece de praticar. — E eu aprendi a perdoar também — respondeu ele, com serenidade. — Inclusive a vocês. Jonas se recostou na cadeira. — E a Eloísa? Thomas olhou para o café e deu um leve riso. — Continua achando que o mundo é pecado. Tentou me procurar de novo, mas aprendi que nem toda culpa vem de Deus. Algumas vêm das pessoas que não suportam ver a gente livre. O pastor baixou os olhos, pensativo. — Então, você não pretende voltar? Thomas negou com a cabeça. — Não pra lá. Mas voltei pra mim. E isso, pastor… foi o milagre que eu nunca achei que aconteceria. Eles terminaram o café em silêncio. Quando saíram, o sol já havia desaparecido, e as luzes da cidade começavam a acender. O pastor apertou a mão de Thomas. — Fico feliz em te ver de pé. Mesmo que o caminho não seja o que eu esperava. Thomas sorriu. — E eu fico feliz por, finalmente, andar sem precisar ser guiado. O pastor se despediu e atravessou a rua, sumindo entre as pessoas. Thomas ficou parado por um instante, olhando o movimento, sentindo uma estranha leveza no peito. Naquela noite, deitado em sua cama, pensou em tudo o que havia vivido — os pecados, as perdas, as quedas, os julgamentos. E entendeu que talvez fé e liberdade nunca tivessem sido inimigas. Apenas duas faces da mesma busca: a de se encontrar. Abriu o caderno e escreveu: “Hoje encontrei o homem que um dia me guiou. E percebi que, no fundo, ele ainda carrega as mesmas correntes das quais eu me libertei. Talvez, no fim, todo pastor precise de um pouco de mundo. E todo pecador precise de um pouco de céu.” Fechou o caderno. Sorriu. E adormeceu com a sensação de que, pela primeira vez, não precisava mais fugir — nem da culpa, nem de Deus, nem de si mesmo.
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