Capítulo 29 – Novos Horizontes

550 Palavras
O telefone tocou numa manhã qualquer, dessas em que o tempo parece andar devagar. Thomas estava revisando relatórios no escritório do banco, concentrado, quando a secretária o chamou à sala do superintendente. O convite inesperado trouxe aquele frio conhecido no estômago — o mesmo que antecede mudanças grandes, mesmo quando a gente finge que não se importa. — Thomas, sente-se — disse o superintendente, um homem de voz grave e olhar calculado. — Tenho observado seu trabalho nos últimos meses. Disciplina, resultados, postura. Thomas assentiu, discreto. — Obrigado, senhor. — A diretoria está expandindo a rede de agências no interior. Precisamos de alguém confiável para assumir a gerência geral de Caruaru. E o seu nome foi o primeiro que veio à mesa. O silêncio que seguiu foi pesado e luminoso ao mesmo tempo. Caruaru. Nova cidade, nova equipe, nova vida. — É uma proposta séria — continuou o chefe. — A mudança não é simples, mas o cargo vem com aumento e moradia assistida. O que me diz? Thomas respirou fundo. Por dentro, um turbilhão. Por fora, serenidade. — Eu digo que… talvez seja hora de recomeçar. --- Naquela noite, ao contar à mãe, ela sorriu com o mesmo orgulho de quando ele passou no primeiro concurso. — Então vai, meu filho. O mundo não acaba nas esquinas daqui. — Mas eu tenho medo, mãe — confessou. — Medo de errar de novo. Ela o abraçou, firme. — O erro só vira pecado quando você para de tentar. --- Os dias seguintes foram de correria. Documentos, assinaturas, despedidas no banco. André, o amigo de sempre, o abraçou forte. — Sabia que você ainda ia subir, meu velho. — riu. — Mas ó, não esquece da gente quando virar diretor, hein? Thomas riu também. Mas, no fundo, sabia que aquela promoção era mais do que profissional — era simbólica. Era o selo do recomeço que ele tanto buscou. --- Na última noite antes da mudança, foi até o terraço da casa da mãe e observou o Recife iluminado. Pensou em tudo o que deixava para trás — a igreja, o casamento, as culpas, as madrugadas vazias. Cada lembrança parecia mais leve agora. Pegou o caderno e escreveu: > “Não é sobre fugir. É sobre partir sabendo que o que me prendia já não me pertence. O homem que vai embora não é o mesmo que um dia se ajoelhou pedindo perdão. Agora ele só agradece por ter sobrevivido.” --- A estrada para Caruaru era longa e quente, cercada por paisagens de sertão e horizonte aberto. Enquanto o carro avançava, Thomas sentia o peso das correntes — todas — ficando para trás, uma a uma. Ao chegar à nova cidade, viu o letreiro da agência com o seu nome na placa: Gerente Geral — T. Menezes. Sorriu. Não por vaidade, mas por constatar que, pela primeira vez, o título combinava com o homem. Não o religioso, não o pecador — apenas o homem que, enfim, se encontrou. --- No final do dia, sentado no banco da praça de Caruaru, o vento leve batendo no rosto, Thomas olhou o céu avermelhado e pensou: “Talvez Deus nunca tenha me deixado. Só mudou de endereço junto comigo.” E sorriu. Porque, dessa vez, o recomeço não era uma fuga. Era um lar.
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