A chama do fogão tremulava, lançando reflexos dourados nas paredes. Lígia continuava mexendo o risoto com movimentos meticulosos, como se o som da colher contra a panela fosse mais seguro do que o da própria voz. Thomas esperou. O relógio da parede marcava sete e quarenta e dois. Cada segundo soava como um grão de arroz batendo no fundo do alumínio. — Eu só perguntei... — ele tentou, com calma. — Quando foi que o nosso mapa virou um manual? Ela suspirou, desligou o fogo e virou-se devagar. — Quando percebi que, se eu não colocasse regras, você ia se perder. — respondeu, com frieza polida. — Eu te conheço, Thomas. Você se doa demais, confia demais, esquece de se proteger. — Então você decidiu me proteger de mim mesmo? — ele ironizou, sem elevar o tom. — Alguém precisava fazer isso. —

