| Agora...
Dulce Maria
Antes de todas as minhas aulas, eu fazia uma meditação com os meus alunos. Eu dava muita ênfase na questão de controlar a respiração para poder controlar a voz quando cantar. Além de, claro, ensiná-los a importância de ser uma pessoa positiva e de bem com a natureza.
Os outros professores me achavam meio louca, por mais que não dissessem isso na minha cara, os cochichos deixavam transparecer o quão "fora da caixinha" eu era aos olhos de todos.
Depois de um passado conturbado, tudo o que me restava era ser alguém positiva, estar sempre de bem com a vida e buscar ver o lado bom de tudo. Os meus alunos até me apelidaram carinhosamente de "senhorita Namastê".
— Vocês precisam sempre se lembrar de manter a concentração, respirar o mais fundo que puderem, pensar sempre em coisas boas, lembranças que lhe fazem felizes ou até pessoas que lhe fazem bem. Cantar é amar e cantar com o coração cheio de mágoa não ajuda o universo a te ajudar. Vocês podem reparar bem como é diferente a energia que uma pessoa transmite quando ela faz música na base da raiva.
— E se for na base da tristeza? — uma aluna perguntou.
— Muitas músicas lindas foram feitas quando seus criadores estavam tristes. Mas estas não são feitas para passar boas emoções, correto? Uma música feliz deve ser cantada por alguém feliz.
— Acha mesmo que as nossas emoções influenciam na forma como a gente canta? — outro aluno perguntou.
— É óbvio que sim. Nossas emoções influenciam em qualquer coisa que a gente tente fazer na vida. Principalmente se tratando de música. A música em si é a nossa energia cantada. Se você tiver uma energia r**m, a sua música vai ser r**m. — fiz uma careta e eles riram. O sinal tocou e todos começaram a arrumar suas mochilas. — Lembrem-se de estar sempre de bem com o universo, só assim ele lhes trará coisas boas. — cada um deles me cumprimentou ao sair.
Fui para casa prestando atenção em cada detalhe da cidade. O cheiro doce de bolo recém saído do forno que cobria uma rua, as cores fortes das flores nos canteiros das casas, o canto dos pássaros sobre as árvores e o vento, que chicoteava meu rosto, fazendo meus cabelos serem jogados para trás.
E eu era grata a cada detalhe do planeta, cada coisinha que para os outros não era nada demais, mas para mim era motivo para sempre pedir obrigada por estar viva, por poder sentir todas essas coisas.
Eu morava no segundo andar de um prédio num condomínio próximo ao litoral. Eu e Robert compramos aquele apartamento depois de nos casarmos.
O conheci numa lanchonete que sempre frequentava depois das minhas aulas na academia de arte onde agora eu leciono. Robert sempre foi gentil e sempre me tratou como uma verdadeira deusa.
Estava feliz por ter saído mais cedo da academia, assim poderia preparar alguns biscoitos para mim e o meu marido, que com certeza voltaria cansado do seu turno extra na firma. Ultimamente ele estava trabalhando demais, merecia um pouco de mimo.
Parei na porta do meu apartamento e peguei a chave para abrir. Antes de destrancar, eu ouvi algumas risadas lá dentro. Confusa, eu abri a porta e girei a maçaneta devagar, espiando pela fresta antes. Pois é, lá vamos nós.
Robert estava com uma loira, que provavelmente fingia que ele era um cavalo, pela forma que cavalgava sobre ele. E com toda certeza ela estava fingindo, que mulher grita tanto quando transa?
Entrei e bati a porta com força, fazendo os dois se assustarem, se cobrindo com o lençol da MINHA cama.
— Sério? — arqueei a sobrancelha e coloquei as mãos na cintura.
— Dulce, meu amor...
— Amor? — dei risada. — Olha, eu não vou me sentir destruída ou sei lá... em prantos. O que eu deveria esperar dos homens? — nenhum homem com quem eu ficava me amava de verdade, não é? — Ei, garota, se veste e sai.
— Você não vai fazer nada comigo? — ela me olhou temerosa.
— Por que eu faria? Não é você que tá casada comigo. Agora sai. — como um flash, ela vestiu suas roupas e saiu correndo pela porta da frente.
— A gente tem que conversar. — ele disse.
— Você vai conversar sim, mas é com o meu advogado. Eu quero você fora daqui e quero cada centavo que você tem. Digamos que isso seja uma reparação por você ter sido um completo babaca comigo.
— Não parece que você tá com raiva. — franziu a testa.
— Só decepcionada. — dei de ombros. — Faz muito tempo que eu jurei ao universo que não iria contestar as coisas que ele me dava. Tudo tem um por quê, até isso. — apontei para ele.
— Ah, é? Esse apartamento também é meu, eu não vou sair.
— Não? Hum... ok. — fui até o quarto e depois de vestir sua cueca, ele me acompanhou, curioso sobre o que eu faria. Comecei a pegar todas as coisas dele e jogar pela janela, fazendo tudo cair na calçada do prédio.
— Ei! Ficou louca?? — ele segurou o meu braço com força e eu lhe empurrei bruscamente.
— Vai me bater? — gritei.
— Não, eu...
— Pois, encosta um dedo em mim pra você ver o inferno que eu faço com a sua vida! — ameacei.
Ele me olhou como se eu fosse louca e se afastou, se encostou na porta do quarto e ficou assistindo enquanto eu atirava suas roupas na rua.
— Eu sei que está fazendo isso para eu sair, mas eu não vou.
— Ótimo! Assim o vento leva as suas roupas mais rápido. — sorri.
— O que? — caí na gargalhada quando ele correu para o lado de fora apenas de cueca, tendo em vista que não havia sobrado nenhuma calça. — VOCÊ É MALUCA!! — gritou furioso enquanto catava as suas roupas.
— E VOCÊ É UM SAFADO!! — gritei de volta. — Agora, me faz um favor e some!
— Sabe por que eu te traí? Porque não dá pra aguentar viver com uma maluca por tanto tempo sem dar uma fugidinha pra relaxar! Eu tenho mais é que ir embora mesmo! "Namastê"! — me imitou, juntando as duas mãos.
— Sem namastê pra você, porque eu não te respeito! — dei uma piscadela. — Até nunca mais! — fechei as janelas.
Comecei a cantarolar enquanto arrumava o meu quarto. Era assim que eu fazia pra me manter no controle, eu cantava e fingia que estava tudo bem, mesmo que na verdade não estivesse. Uma hora o meu cérebro seria induzido a acreditar que tudo estava sob controle.
[•••]
Num barzinho com minha amiga Maite, eu comemorava o meu primeiro mês oficialmente divorciada. Pedimos alguns drinks e começamos a conversar com vários homens e sinceramente, eu só estava dando em cima deles porque achava engraçado o fato de eles fazerem tudo por uma mulher só para dormir com ela.
— Você deveria sair com algum desses caras. Não custa nada. Literalmente, porque você vai fazer eles pagarem por tudo. — riu.
— Não quero nada com homens agora. Eu cansei de achar que vou ter um futuro com alguém e quebrar a cara no final. — dei de ombros.
— Até que você lidou bem com o divórcio.
— O universo te dá o que você precisa, mas também te tira o que não precisa. E eu não preciso de chifres. Sabe do que eu preciso? De um recomeço. Só preciso descobrir o que fazer.
— Como assim "recomeço"?
— Já que a vida de casada deu errado, eu preciso de outra vida. Jogar tudo pro alto e começar de novo.
— Hum, fugir? — arqueou a sobrancelha.
— Não tô fugindo de ninguém. — revirei os olhos. — É só uma forma de sentir que nada dá errado na minha vida. Sua vida vai ser perfeita se você sempre arranjar uma nova.
— E quantas vezes você vai fazer isso?
— Quantas forem necessárias.
— Ok, eu tenho uma ideia.
— Diz.
— Você sabe que eu estou pensando em trabalhar em um colégio particular em Nova York, mas eu morro de medo de enfrentar aquela selva de pedras sozinha. Por que não vem? Eu faço a minha entrevista para a vaga de geografia e você, para a vaga de artes.
— Artes nos geral? — fiz uma careta. — May, eu gosto de música e só isso.
— Não era pra ser uma vida nova? Ou será que a senhorita diz isso só da boca pra fora?
— Eu sei o que está fazendo. — balancei a cabeça negativamente. — Quer me convencer a fazer isso.
— Vamos, Dulce! Você quer uma vida nova e eu um emprego novo. Unimos o útil ao agradável. Você pode vender o seu apartamento e nós compramos ou alugamos um lá.
— E você pensou em que lugar de Nova York?
— Manhattan!!! — bateu palmas. — É onde o colégio fica, além de ser o distrito mais popular da cidade.
— Ok, então vamos à Manhattan! — levantei meu copo e nós brindamos.
— Isso vai ser fantástico! — Maite parecia muito feliz com aquilo e vê-la assim me animava também.
[•••]
— Pra que tantos incensos, meu Deus??? — May reclamava enquanto nós abríamos a mudança no nosso novo apartamento em Nova York.
— É pra manter a energia do ambiente limpa, não sabemos quem morou aqui antes de nós.
— Sabe o que deixa o ambiente limpo? Sabão.
— Acho que alguém precisa de um incenso de amor perfeito, hein? — falei pegando uma das caixas.
— Ah, é? E pra que serve esse? — cruzou os braços.
— Purifica o ambiente, eleva as vibrações, ajuda no amor e nos estudos. — acendi o incenso e comecei a sacudi-lo pela casa, ao redor de Maite e dos móveis.
— Às vezes eu me pergunto o porquê de eu ter te escolhido como minha melhor amiga.
— Porque eu sou maravilhosa. — sorri.
— E convencida. — deu risada.
Terminamos de desempacotar todas as coisas já de noite e não fizemos mais nada além de ver televisão e depois se embrulhar nos lençóis para dormir. O dia seguinte seria das entrevistas e nós viemos às cegas, sem saber se teríamos aqueles empregos ou não.
Pelo menos o currículo havia sido aprovado. Maite me fez prometer que deixaria as minhas manias espirituais de lado durante a entrevista. Não é todo mundo que tem uma mente aberta sobre o universo.
[•••]
A entrevista foi breve e bem proveitosa para mim. A diretora parecia realmente animada com todo o meu histórico, tendo em vista que eu era professora de música da academia de artes mais renomada da Califórnia.
Depois da entrevista, ela me mostrou a sala de artes. Tinham vários instrumentos, partituras, telas para pintura, material para esculturas de barro e afins. Era um lugar completo, eu só tinha que me adaptar à ideia de ensinar outras coisas que não fossem a dominação de notas musicais.
Ela me deixou sozinha e eu aproveitei para testar cada instrumento, terminando no piano, onde toquei sonata ao luar, de Beethoven. Assim que acabei, vi que uma garota estava parada na porta da sala me olhando com a boca levemente aberta.
— Olá? — eu disse, fazendo ela despertar com um leve susto.
— Ah, oi. Desculpa ficar aqui te olhando. — coçou a nuca. — A música que tocou no piano é linda.
— Sonata ao luar, Beethoven. — sorri de lado. — Quem sabe eu mesma não possa te ensinar? Sou a nova professora de artes. Me chamo Dulce.
— Me chamo Amber, estudo aqui desde os 5 anos de idade. Seja bem vinda.
— Obrigada, Amber.
— Me diz que você vai ensinar música? A antiga professora só passava trabalhos sobre artistas plásticos e olha que a gente nem fazia arte de verdade. — choramingou.
— Tipo papelada? — fiz uma careta. — Não há nada que eu despreze mais do que um professor de arte que não explora a criatividade de seus alunos. Eu me especializei em música na universidade, então digamos que vai ser um grande foco meu.
— Ótimo! — deu um pulinho. — Isso me deixa muito feliz.
— Me deixa feliz saber que você está interessada na minha aula. Espero que os outros sejam assim também. Mas se não forem, eu os coloco na linha. — falei em tom de graça e ela riu.
— Pela minha primeira impressão, eu acho que vão gostar de você sim.
— Amber? — um homem apareceu ao lado dela. — Já renovei sua matrícula, temos que ir.
— Claro. Ah, pai? Essa é a Dulce, a nova professora de artes e Dulce, esse é o meu pai, Christopher.
— Muito prazer. — ele veio até mim e me cumprimentou com um aperto de mão bem firme.
— O prazer é meu. — sorri gentilmente. Eu gostaria mesmo que esse prazer fosse me dado de outra forma, porque que homem lindo!
— Vamos, filha. Se a gente atrasar, a sua tia nos mata.
— Tchau, Dulce! — ela acenou para mim e eu acenei de volta.
Christopher deu um meio sorriso rápido, que foi o suficiente para eu reparar na bela covinha em seu rosto. Quando ele se afastou, eu não consegui parar de olhar para aquele bumbum grande e aparentemente durinho. Será que ele malhava? Bom, eu adoraria dar uma boa apertada pra saber.
— E aí, como foi? — Maite apareceu entrando na sala. — Uau, que sala magnífica! Espero que tenha conseguido a vaga.
— Sim. — respondi ainda com o pensamento longe.
— Ótimo! Eu também consegui! — comemorou com um pulinho. — O que foi? Parece distante.
— Você viu aquele gostoso que saiu daqui com a garota? Que homem! — me abanei com uma das mãos.
— Para de ser safada, o cara deve ser casado! — me repreendeu.
— É, eu não pensei nisso. — mordi o lábio inferior. — Mas eu posso dar um jeito de descobrir. Da próxima vez, basta prestar atenção se tem alguma aliança no dedo dele.
— Dulce, mesmo se ele for solteiro, ele é pai de uma das suas alunas, então nem pense nisso!
— Ai, que chata! Eu só achei o cara bonito, eu não vou me casar com ele! — ela cerrou os olhos para mim. — Também não vou tentar t*****r. — revirei os olhos.
— Acho bom!
— Ah, mas você tem que admitir que ele é bem gostoso. — soltei um risinho.
— Sim, ele é uma delícia de homem! — caímos na risada. — Mas só pode olhar, Maria!
— Eu sei! — bufei.
As aulas começariam em uma semana e eu aproveitei aquele meio tempo para conhecer toda a Manhattan com Maite, desde os pontos turísticos até os bares mais frequentados. Aquela era uma cidade onde sempre se tinha para onde ir, com toda certeza morar aqui seria uma experiência única e eu torcia para esse novo começo dar certo.