03 - amém, Nova York!

2483 Palavras
Dulce Maria  Foi uma semana bem agitada e eu já me sentia familiarizada com Nova York. Aquela cidade parecia ter sido feita na minha medida. Uma cidade que nunca dorme era a moradia perfeita para uma mulher que se reinventava todos os dias.  No sábado à noite, eu e Maite fomos até uma boate bem frequentada, não muito longe do nosso bairro. Tinha boa música, boas bebidas e as pessoas eram muito bonitas.  — Amém, Nova York! — falei olhando bem para um homem que passou ao nosso lado.  — Que pitéu! — Maitê exclamou.  — Tá cheio de pitéus aqui. — eu ri. — Acho que eu vou aproveitar a minha nova vida e me entregar aos prazeres carnais. — eu disse.  — Cansou de dispensar os homens?  — Eles são um fardo que eu estou disposta a carregar. — brinquei. — Sem compromisso, amiga. Já tive prova o suficiente de que não se deve confiar em pessoas do gênero masculino.  — Ouvir isso me deixa um pouco desanimado. — ouvi alguém falar atrás de mim e me virei no mesmo instante.  — Oi... — eu dei o meu melhor sorriso sexy quando vi que se tratava de um homem elegante, com pinta de alguém de negócios.  — Eu estava pensando em te pagar um drink, mas talvez a moça não esteja disposta a se misturar com homens hoje. — em seu jeito de falar, eu podia identificar um flerte.  — Acho que eu posso abrir exceções. — entrei na dele.  — Amiga, eu vou dançar, tá? Não precisa me procurar se for embora. — ela deu uma piscadela e foi até a pista de dança.  — Jack. — ele me estendeu sua mão.  — Dulce. — quando coloquei minha mão na dele, ele a levou até seus lábios e beijou, sem tirar seus olhos de mim. — Você não parece ser daqui.  — Não? — arqueei a sobrancelha.  — Não parece robótica como as outras mulheres, tem uma áurea diferente em você.  — Você acredita em áureas? — confesso que me animei.  — Claro. Além disso, você está usando uma pulseira que diz "eu amo L.A."  — Ah! — dei risada.  — Acho que eu nunca saí com uma californiana antes. — sorriu de lado.  — Tecnicamente, eu não sou californiana, mas você pode fingir que eu sou. — cheguei um pouco mais perto, colocando minha mão sobre seu peito. Ele mordeu o lábio inferior, olhando para a minha boca. — Que bom que você disse "oi". — sorriu e eu sorri de volta.  Nós pedimos dois drinks e começamos a conversar para nos conhecermos melhor. Contei que morava em Los Angeles e resolvi vir até Nova York em busca de um recomeço, sem citar o meu casamento fracassado.  Ele era dono de uma agência de modelos e eu fiquei impressionada com os nomes de quem já trabalhou para ele. Era mesmo um empreendedor de sucesso.  Depois de algumas horas de conversa, nós trocamos alguns beijos e eu o convidei para a minha casa. A noite terminou da melhor forma possível e antes de sair na manhã seguinte, ele pegou o meu número para quem sabe repetirmos a dose.  [•••] Comecei a preparar o café da manhã ao som de um mantra que coloquei na caixa de som. Acendi alguns incensos purificadores e comecei a cozinhar. — Meu Deus, à essa hora? — Maite entrou na cozinha abanando o próprio rosto. — Esse cheiro horrível vai contaminar a comida e que droga de música é essa?  — Que m*l humor! Senta aqui. — ofereci o banco no balcão para ela, que se sentou. — Ouça esse mantra com atenção, sinta a energia dos incensos invadirem o seu espírito. Purifique-se. — eu dizia, fazendo uma massagem em seus ombros. — Você está muito tensa. Vou te dar alguns cristais pra que coloque em seus bolsos. Creio que quartzo rosa vai te ajudar a relaxar.  — Dulce... — me olhou com desdém.  — Deixe o ceticismo de lado, eu estou tentando cuidar de você!  — Tá bom. — ela disse após um suspiro. — Parece que o sexo ontem te fez bem.  — Com toda certeza! Jack é maravilhoso, é um ser iluminado. — parei pra analisar minha última frase. — Iluminado até demais pra ser real.  — O que? — franziu a testa.  — E se as boas energias que eu senti nele forem falsas? Era tudo muito perfeito... geralmente, quando é bom demais sempre tem algo no fundo.  — Você não vai cismar com um cara legal só por causa das suas maluquices, vai?  — Não são maluquices! — protestei.  — Dulce, você o conheceu ontem e a primeira impressão foi boa. Espera conhecer ele melhor antes de tomar conclusões baseadas nas "energias" que ele transmite. — fez aspas com os dedos.  — Hum... a energia que você me transmite agora não é legal. O que passa na sua cabeça?  — Eu fiquei tentando flertar o tempo inteiro ontem e absolutamente ninguém me deu bola! Uma mulher precisa t*****r às vezes.  — Por isso que você acordou amargurada. — neguei com a cabeça. — Nem todos os incensos do mundo vão purificar isso aí. Você tá precisando é gozar.  — Valeu por me dizer o óbvio. — ironizou.  — Sério, você precisa dos cristais.  Nós tomamos café da manhã, fizemos um pouco de ioga e à tarde, fomos para o colégio para uma reunião de mestres. Os professores se reuniriam para ouvir instruções e receber nossa carga horária.  Fizemos uma roda com as cadeiras no pátio e cada um foi se apresentando do seu jeito. Não prestei atenção em todos, na verdade passei a maior parte da reunião me perguntando o porquê de parecermos um grupo de apoio de uma igreja cristã.  Chegou a minha vez de me apresentar e Maite, que já estava brava comigo por eu tê-la obrigado a enfiar alguns cristais em seus bolsos, me olhou de forma desafiadora, implorando com os olhos para que eu agisse normalmente.  — O meu nome é Dulce Maria, sou a nova professora de artes e vim de Los Angeles. Eu trabalhava numa academia de artes para jovens, era professora de música. Eu estou muito feliz por fazer parte desse corpo estudantil e espero poder viver em harmonia com todos os meus colegas e alunos. Não quero que me achem doida ou nada do tipo, mas eu já notei uma energia muito receptiva aqui, me lembra muito o meu antigo emprego. As áureas de vocês são lindas. — alguns me olharam estranho, outros sorriram e outros seguraram o riso. — Enfim, namastê.  — Namastê. — responderam em uníssono. Eu sorri, feliz pelo gesto inclusivo de responderem a minha saudação.  Depois de sermos apresentados para todo o protocolo, fomos até as mesas onde haviam alguns comes e bebes. Eu conversei com os outros professores e conheci muita gente interessante e gentil.  — Não acredito que falou de energias, áureas e "namastê" durante a sua apresentação. — Maite sussurrou ao meu ouvido. — E se eles acharem que você é doida e excluírem você?  — Maite, pare de tentar me reprimir! Eles estão me tratando super bem.  — Talvez porque achem que você é "especial".  — Você precisa mesmo gozar. — suspirei.  — Falando nisso... — ela colocou seu cabelo atrás da orelha.  — Opa! — a olhei com atenção.  — Sabe o professor de história? O Derick? Então, ele foi bem legal... legal até demais. — riu. — Perguntou se eu gostaria de tomar um café qualquer dia desses.  — Finalmente você vai t*****r e parar de ser ranzinza. — dei um tapinha em sua cabeça.  — Talvez essas pedras brilhantes que você enfiou no meu bolso tenham servido pra algo.  — São cristais e são bem úteis. — Eu vou lá ver se ele precisa de companhia. — piscou e foi logo dando meia volta em direção ao Derick.  Depois daquela reunião, nós voltamos para casa e terminamos o resto do dia trabalhando em nossas primeiras aulas. Estava sendo um desafio para mim trabalhar com outras artes além da música, mas eu aceitaria isso. Fazia parte de se ter uma vida nova.  [•••] — O primeiro dia do meu terceiro começo. — murmurei baixo para mim mesma assim que eu e Maite pisamos no corredor principal do colégio, que estava sendo tomado pelos primeiros alunos que chegavam.  — O que? — May olhou para mim como quem não entendeu o que eu disse, já que estava distraída procurando algo em sua bolsa. — Onde c*****o eu guardei os meus horários?  — Não fala palavrão de manhã tão cedo, que coisa mais negativa! — pousei minha mão em seu braço e nós paramos no meio do corredor. — É o primeiro dia no emprego novo e você precisa atrair coisas boas.  — Dulce, eu realmente não estou com paciência hoje. — bufou.  — Toma. — lhe dei um dos cristais azuis que havia colocado em meu bolso. — É uma angelita, vai te acalmar.  — Dulce...  — Deixa eu cuidar de você, carrancuda! — dei um cascudo leve em sua testa.  — Ok. — sorriu se dando por vencida e enfiando o cristal no bolso de sua jaqueta.  — Tenho que ir. Boa sorte. — dei um beijo estalado em sua bochecha.  — Obrigada, boa sorte também.  Dei uma olhada em meus horários e fui direto para a sala treze. Parei alguns segundos de frente para a porta, olhando para aquele número e só por precaução, bati três vez na madeira antes de abrir e entrar. Eu que não iria desafiar o mau agouro no meu primeiro dia de recomeço.  Sentei em minha mesa e aguardei a chegada dos alunos. Era a turma do primeiro ano do ensino médio e eu começaria ensinando música. Eu sei, essa era a minha zona de conforto, mas eu só queria ter certeza de que mandaria bem na primeira impressão.  Os minutos foram passando, os alunos foram entrando e todos me cumprimentaram gentilmente. Assim que o sinal bateu anunciando o início da aula, eu me apresentei e de um por um, eles foram dizendo os seus nomes e o que mais gostavam de fazer artisticamente falando. Eram gostos bem diversos e eu já imaginava que trabalharia muito com essa turma.  — Eu gosto do teatro. — uma garota sentada na fileira da frente respondeu. — Poder ser outras pessoas e se imaginar com outras faces e personalidades é muito divertido. — sorriu.  — Excelente! — aprovei. — E como você se chama?  — Isabela, mas pode me chamar de Bela.  — Muito bem, Bela. Você vai poder ser várias pessoas durante nossas aulas de teatro.  Comecei a aula de forma despojada, deixando os alunos bem relaxados e participativos. Estava sendo divertido e leve, como eu gostaria que fosse desde o meu planejamento. Enquanto eu os ensinava a ler uma partitura, ouvimos batidas na porta, que foi aberta devagar e logo depois alguém colocou apenas a cabeça para dentro timidamente.  — Eu posso entrar? — reconheci a Amber. Antes que eu respondesse, ela abriu mais a porta e eu vi o seu pai logo atrás dela.  — Desculpe por ela ter se atrasado, professora. Tivemos uma emergência médica e eu não tive tempo de avisar. — ele explicou.  — Tudo bem, pode entrar, Amber. — sorri gentilmente.  Ela entrou e sentou ao lado de Bela, que a recebeu animada. Deduzi que fossem melhores amigas. O pai dela continuou na porta olhando para mim e confesso que só aqueles olhos cor de mel já estavam me fazendo sentir faíscas pelo corpo. Bastava ele estalar os dedos e eu abriria minhas pernas sem pensar duas vezes.  — Eu posso conversar com a senhorita? — ele perguntou.  — Claro. — respondi calmamente. Era normal que os pais quisessem conversar com os professores novos, especialmente para pedir favores ou nos avisar algo importante sobre seus filhos. — Turma, atualizem a Amber sobre o que já conversamos e por favor, não façam muito barulho, eu vou estar do outro lado da porta. Com licença.  Eu e Christopher fomos até o corredor e a primeira coisa que fiz foi olhar sutilmente para a sua mão esquerda, só para ter certeza de que ele era casado. E sim, havia uma aliança ali. Não sei se isso me desapontou ou me deixou aliviada. Afinal, eu não poderia tocar naquele pedaço de céu, mas pelo menos não quebraria o decoro entre professor e pai.  — No que posso ajudar? — me mantive na minha posição mais confiante, como se eu fosse realmente uma adulta séria.  — Como sei que a senhorita é professora de artes, preciso pedir algumas coisas em relação à Amber.  — Você. Pode me chamar só de "você". E de Dulce, claro, porque esse é o meu nome. — eu ri. Ele franziu a testa um pouco confuso. Que merda! Eu estava bancando a doida, não estava?  — Ok, Dulce... — tossiu duas vezes. — Não sei quais são os seus métodos para dar aula, mas se tiver algo prático e que envolva muitos movimentos, eu peço que pegue leve com a minha filha. Ela tem algumas limitações físicas.  — Que tipo de limitações físicas?  — Uma perna mecânica que começa do joelho direito.  — Tudo bem, não se preocupe, eu não vou exigir nenhum esforço fora dos limites dela. — a minha tranquilidade com o assunto pareceu o surpreender. Eu podia imaginar que ele já deve ter ouvido vários comentários desconfortáveis sobre a deficiência da sua filha, mas para mim isso não era algo para ser tratado como fora do comum, porque na real, era sim comum.  — Eu fico muito agradecido. — apesar do seu rosto demonstrar gentileza, ele não sorriu. Acho que ele não sorriu para mim nenhuma vez. Ele tinha algum problema no rosto? — E por favor, não conte para ela que eu te disse sobre a perna, ela tem um pouco de vergonha, nenhum dos colegas sabe, apenas a Bela porque elas são muito amigas.  — Não direi nada. — fiz um sinal de zíper na boca.  — Obrigado.  — Imagina. — sorri largamente, esperando que o homem me retribuísse, mas ele continuou sério, apenas acenou positivamente com a cabeça uma única vez.  — Vou deixá-la trabalhar agora, tenha um bom dia.  — Bom dia.  Retornei para dentro da sala e continuei a minha aula sem conseguir parar de passar em minha mente o rosto sério do homem com quem conversei há alguns minutos. Sorrir fazia muito bem para a alma e se ele já era de tirar o fôlego sério daquele jeito, devo imaginar que seu sorriso molharia muitas calcinhas por aí.  Pare com isso, Dulce, ele é casado! — minha deusa interior grita comigo.  Ele é casado.  E é pai de uma aluna.  Um pai bem gostoso...  Dulce!
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