Pré-visualização gratuita Capítulo 1 — Dívida que tem preço
Isabella
O papel que eu segurava não tremia por causa do frio, mas sim por um medo visceral que parecia ter se transformado em puro instinto. Era aquele alerta silencioso do corpo, gritando para fugir, mesmo que eu soubesse que não havia escapatória.
A ameaça vinha em uma carta com timbre oficial e um cheiro forte de tinta nova, formatada com uma elegância fria para disfarçar sua natureza brutal. No topo, as palavras imponentes: “Notificação de cobrança”. Abaixo, uma sequência de números que eram absurdos, estranhos à minha realidade. Eles não faziam sentido algum diante do meu salário, da nossa casa minúscula, da gaveta abarrotada de contas vencidas e da geladeira barulhenta, já cansada pelo tempo.
Eu reli o valor três vezes, como se, na insistência, ele fosse diminuir. Não diminuiu.
— Isso… isso é impossível — eu sussurrei, mas minha voz ficou presa no ar, sem coragem de ser ouvida.
Do outro lado do corredor, minha mãe tossiu. A tosse dela tinha virado um relógio c***l, marcando o tempo em estalos secos. Cada ataque parecia comer mais um pedaço do que ela era. Eu fechei os olhos por um segundo, engolindo a vontade de chorar, porque chorar não pagava nada. Chorar só atrasava o que precisava ser feito.
A porta da frente recebeu duas batidas, fortes, como se quem estivesse do lado de fora tivesse certeza de que eu abriria. Não era a batida de vizinho. Não era a batida de entrega. Era a batida de quem cobra.
Meu coração disparou, e eu escondi o papel no bolso do moletom como se ele pudesse queimar minha pele. Caminhei até a porta pisando leve, como se silêncio pudesse me proteger. Pela fresta da cortina, vi um homem alto, terno escuro, postura de quem não pertence à minha rua. Ele olhava o relógio como se a minha vida fosse só mais um compromisso entre reuniões.
Pensei em não abrir. Pensei em fingir que não existia.
A terceira batida veio, mais impaciente.
Abri.
— Isabella Monteiro? — Ele não perguntou com gentileza. Perguntou como um protocolo.
— Sou eu.
Ele me avaliou com os olhos de quem mede risco. Depois estendeu um envelope pardo.
— Preciso que assine o recebimento. E que esteja ciente: a próxima etapa não será por carta.
O mundo ficou estreito. Senti meu estômago afundar, como se eu estivesse em um elevador despencando.
— Próxima etapa…?
— Penhora. Apreensão. E, se houver resistência, medidas judiciais mais agressivas. — Ele falou com calma, quase educado. Isso foi o pior. A educação fazia a ameaça parecer inevitável.
Minha mão segurou a caneta que ele ofereceu e assinou sem que eu reconhecesse minha própria letra. Ao devolver o envelope, ele se inclinou um pouco, como se estivesse prestes a me dar um conselho, mas o que saiu foi outra coisa.
— Tem um prazo. Poucos dias. Resolva.
Ele se afastou sem olhar para trás.
Fechei a porta e encostei a testa nela, sentindo a madeira fria. O ar não entrava direito nos meus pulmões. Minha mãe tossiu de novo, e eu me obriguei a respirar.
“Resolva.” Como se fosse simples. Como se eu tivesse escondido uma fortuna embaixo do colchão e só precisasse lembrar onde coloquei.
Voltei para a cozinha e espalhei os papéis na mesa: boletos, extratos, notificações. No meio deles, algo se destacava como uma lâmina: o contrato de empréstimo no nome do meu irmão.
Meu irmão, que não me atendia há dois dias.
Peguei o telefone com dedos rígidos e liguei outra vez. Chamou até cair na caixa postal. Eu mordi o interior da bochecha até sentir o gosto metálico do sangue, tentando segurar a raiva e o pânico no mesmo lugar.
Quando o telefone vibrou, eu quase o deixei cair.
Número desconhecido.
Atendi.
— Alô?
Houve um segundo de silêncio, como se alguém do outro lado estivesse decidindo o peso das palavras.
— Isabella Monteiro. — A voz era feminina, firme, treinada. — Meu nome é Dra. Helena Duarte. Eu represento um… cliente com capacidade de resolver o seu problema. Mas isso exige discrição e rapidez.
Eu ri sem humor.
— Se isso for golpe, eu não tenho nada pra roubar.
— Não é um golpe. É uma proposta. — Ela não pareceu ofendida. — A senhora recebeu uma notificação hoje. E, se fizer o que costuma fazer… se tentar negociar com a instituição credora… vai perder tempo. Tempo que não tem.
Meu coração apertou.
— Como você sabe o que eu recebi?
— Porque eu sei tudo o que preciso saber para que você pare de afundar. — A voz ficou mais baixa, como se as paredes pudessem ouvir. — Você pode encerrar a ligação e fingir que não ouviu. Ou pode vir até o meu escritório, apenas para ouvir. Sem compromisso. Sem assinatura. Por enquanto.
Eu devia desligar. Qualquer pessoa sensata desligaria. Mas a sensatez era um luxo. Eu tinha dívidas no bolso e uma mãe tossindo no quarto.
— Onde fica seu escritório? — Minha voz saiu mais fraca do que eu queria.
Ela ditou um endereço no centro, em um prédio que eu só conhecia de longe, daqueles que parecem tocar o céu. Um lugar onde gente como eu entrava apenas para limpar, servir, obedecer.
— Traga um documento. E venha sozinha. — Ela fez uma pausa. — Isso é importante.
Senti um arrepio.
— Sozinha por quê?
— Porque há coisas que não devem ser divididas com quem pode te vender por desespero.
A ligação terminou antes que eu conseguisse responder.
O telefone na minha mão parecia gelar, e o único som audível era a pulsação forte do meu próprio sangue nos ouvidos. Minhas mãos estavam frias, e a cozinha, antes familiar, subitamente parecia ter encolhido. A casa toda não era mais um refúgio seguro.
Ao chegar ao quarto, encontrei minha mãe desperta. Seu rosto, pálido, contrastava com o travesseiro.
— Você tá bem, minha filha? — ela perguntou, tentando sorrir, mas o sorriso era uma linha cansada.
Eu sentei na beira da cama e segurei a mão dela.
— Vou resolver, mãe.
A palavra “resolver” saiu da minha boca como mentira e promessa ao mesmo tempo.
***
O centro da cidade me recebeu com vento e pressa. As pessoas passavam por mim como se eu fosse invisível, e talvez eu fosse mesmo. Eu não tinha salto alto. Não tinha bolsa de grife. Não tinha a confiança de quem sabe que o mundo abre portas.
O prédio do endereço parecia uma sentença: vidro, aço, vigilância. Na entrada, um segurança me olhou de cima a baixo e pediu meu nome com a mesma expressão de quem escolhe quem merece respirar ali dentro.
Quando eu disse “Dra. Helena Duarte”, ele fez uma ligação rápida, e o portão liberou meu acesso.
O elevador subiu tão suave que eu m*l senti o movimento, mas minhas pernas sabiam que eu estava sendo levada para cima — e que subir também podia ser uma forma de cair.
No andar indicado, o corredor tinha carpete impecável e cheiro de perfume caro. Uma recepcionista impecável me guiou até uma sala de reunião de paredes de vidro fosco.
Dra. Helena Duarte entrou em seguida. Elegante, cabelo preso, olhar que parecia cortar o que era inútil.
— Isabella. — Ela sentou e abriu uma pasta. — Obrigada por vir.
Eu me mantive em pé por um segundo, como se sentar fosse aceitar demais. Mesmo assim, sentei. Minha garganta estava seca.
— Que proposta é essa?
Helena empurrou um documento na minha direção. Papel branco, letras negras, tudo muito limpo para algo que prometia sujar a minha vida.
— Um contrato. — Ela falou como se fosse a coisa mais normal do mundo. — Seu problema some. Sua mãe recebe tratamento. Você recebe proteção. Em troca… você se casa.
Minha respiração falhou.
— Com quem?
Helena demorou a responder. Em vez disso, virou a primeira página lentamente, como se revelasse algo com hesitação.
Na linha reservada ao nome, meus olhos leram.
E, mais uma vez, meu mundo se encolheu.
Ethan Hale.