Capítulo 11 — Gala ou Arena

1425 Palavras
Isabella A primeira coisa que eu entendi sobre o mundo de Ethan Hale é que ele não pede licença para entrar em você. Ele invade. Ele molda. Ele te força a virar uma versão “aceitável” de si mesma… e chama isso de proteção. Na manhã do quarto dia, eu estava sentada diante de uma mesa com três mulheres e um homem que parecia ter sido treinado para sorrir sem jamais se comprometer com a verdade. Na frente de cada um, um tablet. Na frente de mim, um copo de água que eu não tocava e uma pilha de cartões com frases prontas pequenas mentiras elegantes, embrulhadas para consumo social. Naomi, a diretora de comunicação, tinha olhos que sabiam calcular estragos. — Isso aqui — ela disse, batendo levemente no primeiro cartão — é o que você responde quando perguntarem sobre o casamento. Eu li. “Estamos felizes. Ethan sempre foi um homem admirável. Estamos focados no futuro.” Meu estômago revirou. Feliz. Admirável. Futuro. Três palavras que pareciam fantasias caras. — E se eu responder a verdade? — perguntei, doce demais para não ser ameaça. Naomi sorriu, sem humor. — A verdade, nesse meio, é uma moeda instável. Você não quer pagar com ela. A aula continuou como um interrogatório polido. “Como você conheceu Ethan?” “Qual a sua maior admiração nele?” “Você pretende ter filhos?” “Você largou seu trabalho?” “Seu passado é tão simples quanto parece?” “Você vai se adaptar à elite?” Eu repetia as frases, e cada repetição era como morder a própria língua. Mas, com o tempo, algo em mim começou a se ajustar. Não por submissão. Por sobrevivência. Eu aprendi a deixar o sorriso aparecer no momento exato, a inclinar a cabeça como se eu estivesse lisonjeada, a fazer pausas como se eu fosse calma. Eles queriam que eu performasse. Eu decidi que, se era para atuar, eu seria a atriz que escolhe quando a plateia ri. — Ethan e eu nos respeitamos profundamente — eu li, e levantei o olhar. — Respeito não deveria ser uma coisa automática? Tipo… básica? A consultora de etiqueta, Margot, tossiu discretamente, como quem tenta engolir uma risada. Naomi não riu. Mas os olhos dela apertaram um milímetro. — Isabella, humor é uma lâmina. Se você não souber segurar, corta você. — Eu sei segurar lâminas — respondi, com o sorriso mais educado do mundo. O homem ao lado — Sebastian, algo como “especialista em imagem” — inclinou a cabeça. — Você tem presença. Isso é bom. Só precisa… ajustar o tom. Ser mais suave. Suave. A palavra me fez lembrar da minha mãe, fraca na cama, e do jeito como eu precisei ser dura para manter as coisas em pé. — Suave eu posso parecer — eu disse. — Mas eu não vou virar algodão. Margot interferiu, pragmática: — Você não precisa virar algodão. Precisa virar seda. A seda também corta. Eu gostei dela naquele instante. Depois do treinamento, vieram as provas de vestido para a gala. A tal “primeira aparição oficial”. Um evento da fundação Hale, com empresários, políticos, socialites e a imprensa sedenta por qualquer ângulo errado do meu rosto. A sala de provas parecia um templo do luxo. Vestidos pendurados como fantasmas caros. Saltos alinhados como armas. Um espelho enorme pronto para me julgar. A estilista girou ao meu redor, ajustando tecido, medindo cintura, falando em termos como “silhueta” e “mensagem”. — Você precisa parecer… inabalável — ela comentou. — Mas delicada. — Inabalável e delicada — eu repeti, amarga. — Igual uma estátua. — Exatamente — ela respondeu, satisfeita, sem perceber o veneno. Eu respirei fundo. A cada toque no tecido, eu sentia como se estivessem me embrulhando para presente. Um presente que não escolheu ser dado. Um presente que, se abrir a boca na hora errada, vira escândalo. Quando terminei, fui conduzida de volta para a penthouse. A rotina já estava ali, pronta: horários na tela da cozinha, agenda colada em um quadro, nomes de pessoas que eu deveria cumprimentar, uma lista de “pontos de conversa” com patrocinadores. Ethan não estava em casa. Ou estava, mas no modo fantasma, aquele modo em que ele ocupa o espaço sem ser tocado por ele. Dona Célia me serviu chá na sala, em silêncio. Eu observei a casa como quem observa um aquário, procurando rachaduras invisíveis. As câmeras. Os sensores. A sensação de que até meus pensamentos tinham eco. Eu me sentei no sofá e peguei o celular oficial. Uma notificação piscava: “A imprensa está especulando sobre seu passado. Não responda. Deixe conosco.” Passado. Como se eu tivesse alguma coisa a esconder. Eu só tinha vida. E vida, para eles, é sempre um problema porque não cabe em roteiro. Eu larguei o celular e puxei o meu telefone antigo, escondido na bolsa. Ele ainda não tinha sinal ali dentro não sem ser detectado mas eu não precisava de sinal para planejar. Eu precisava de coragem. Minha mãe. O hospital. A cláusula dizia visitas sob escolta. Mas a escolta era uma coleira — e eu sabia que, se eu pedisse hoje, Ethan diria “não” só para provar que manda. Então eu precisava fazer do meu jeito. Um pensamento acendeu, simples e perigoso: e se eu for sem avisar? Meu estômago apertou, não de medo, mas de excitação nervosa. A ideia de quebrar uma regra dele era como tocar fogo num fósforo dentro de um depósito de gasolina. Mas minha mãe vinha primeiro. Eu me levantei e caminhei até o closet, fingindo que ia trocar de roupa. Peguei uma calça discreta, um casaco, um boné. Nada chamativo. Nada “Sra. Hale”. Eu queria ser invisível. O problema é que invisibilidade não existe naquela casa. A chave que Dona Célia tinha me dado estava no bolso interno do meu roupão, pesada como segredo. Eu toquei nela por instinto. A promessa silenciosa: existem coisas aqui que não são para te proteger. Um calafrio subiu, mas eu ignorei. Agora, eu tinha outra missão. Voltei para a sala e observei os seguranças discretos no canto. Eles fingiam que não estavam ali, mas eu sentia a presença como sombra. Dona Célia voltou para recolher a xícara, e eu a segui até a cozinha. — Dona Célia — chamei, baixo. Ela parou, sem virar de imediato. — Senhora? Eu engoli seco. — Eu preciso ver minha mãe hoje. Ela respirou como se essa frase carregasse risco. — Eu posso avisar o senhor Ethan. — Não — eu cortei, e o tom saiu mais firme do que eu pretendia. — Não agora. Ela finalmente me encarou. Havia um cansaço no olhar dela. Um cansaço antigo, de quem já viu muitas mulheres entrarem naquela casa e aprenderem a se calar. — A senhora não entende como ele reage quando perde controle — ela disse, num sussurro. — Eu entendo — respondi. — Por isso eu preciso ir. O silêncio entre nós ficou pesado, e eu senti o coração bater no ouvido. Ela olhou para o corredor, para as câmeras, para os seguranças, e então voltou o olhar para mim. — Se a senhora fizer isso… faça direito — ela disse, baixíssimo. Não era um incentivo. Era um aviso com um fio de humanidade. — Como? — perguntei. Ela colocou a mão na bancada, fingindo arrumar algo, e deslizou um papel pequeno, como quem deixa cair por acidente. Eu peguei sem que os seguranças percebessem. Era um horário. E um nome de motorista. E uma frase escrita à mão, quase invisível: “Porta de serviço. 16h. Não use o elevador principal.” Meu sangue gelou e queimou ao mesmo tempo. — Por quê você… — eu comecei. — Eu não fiz nada — ela interrompeu, já voltando ao tom neutro. — A senhora não viu nada. Ela saiu da cozinha com passos calmos, como se nada tivesse acontecido. Eu fiquei ali, segurando o papel como se fosse um mapa para fora do aquário. Meu coração martelava, e, por baixo do medo, uma sensação estranha crescia: poder. Pequeno, recém-nascido, mas real. Eles queriam que eu fosse seda. Eles queriam que eu sorrisse e obedecesse. Eu podia fazer isso. E, com o mesmo sorriso, eu podia afiar a lâmina por dentro. À tarde, eu iria visitar minha mãe às escondidas. E, pela primeira vez desde que assinei aquela linha pontilhada, eu senti que talvez eu ainda pudesse existir… sem pedir permissão ao sobrenome Hale.
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