Abuso

1279 Palavras
Lara foi levada rapidamente para o hospital. A chuva, que agora começava a perder força, ainda caía de forma suave sobre o morro, mas naquele momento não havia espaço para a preocupação com o clima. A única coisa importante era garantir que ela tivesse os cuidados necessários, que fosse tratada da maneira correta. Os meninos a haviam levado até a emergência, o mais rápido que podiam, sem perder tempo com explicações. Matheus, em silêncio, acompanhava tudo, as mãos firmemente pressionadas sobre os bolsos da jaqueta. O nó na garganta era inevitável, mas ele se mantinha firme. Em sua mente, a ideia de que algo terrível tinha acontecido com Lara o consumia cada vez mais. Chegando ao hospital, a equipe médica não perdeu tempo. Foi necessário fazer uma série de exames. Lara estava fragilizada, e o que Matheus sabia sobre o que acontecera com ela era o suficiente para fazer seu estômago embrulhar. A angústia e o medo cresciam a cada segundo em que os minutos passavam. A médica encarregada do atendimento não demorou para informar a gravidade da situação. Ela foi clara, mas com a delicadeza necessária diante daquela situação. — Lara está muito machucada — disse a médica, enquanto tirava os óculos e olhava com seriedade. — Ela sofreu um abuso s****l. Estamos tratando os ferimentos físicos, mas precisamos chamar a polícia para o caso. A situação é grave. O coração dele parecia ter parado por um momento, mas se manteve firme. Ele sabia o que tinha de ser feito. — Pode chamar. Não vou deixar que ele fique impune — disse Matheus, a voz firme e com um tom de promessa. A médica parecia compreender a gravidade e não contestou. Ela sabia que, independentemente de qualquer coisa, Lara precisava de alguém ao lado dela. E Matheus, mesmo sendo quem era, talvez fosse a pessoa certa para dar algum conforto à jovem, após o que ela tinha sofrido. Naquele momento, algo dentro de Matheus começou a mudar. Ele já tinha perdido boa parte da inocência ao assumir o comando do morro, mas agora, ao ver Lara daquele jeito, havia algo mais. Algo mais pessoal. Ele pensou que isso poderia mudar para sempre a percepção que ele tinha do morro, da violência que ainda o cercava e do preço que ele estava pagando. Ele se afastou por um momento para fazer a ligação. A polícia precisaria ser envolvida. Quando soube disso, sentiu um aperto no peito. Não era simples assim, mas ele sabia que o que havia acontecido com Lara não ficaria impune, não enquanto ele fosse Matheus, o líder do morro. Enquanto Matheus voltava para a sala, ainda com os ecos das palavras da médica em sua cabeça, ele sentiu a responsabilidade recair sobre ele mais uma vez. Lara estava ali, em estado de dor e confusão, e a necessidade de fazer justiça, de garantir que o responsável pagasse, o tornou mais impiedoso, mais focado em se manter à frente dos acontecimentos que só pareciam piorar. Quando ele entrou no quarto novamente, a situação parecia um pesadelo ainda muito distante de se resolver. Mas não seria fácil para quem tivesse causado aquilo a Lara. Naquele momento, Matheus tomou uma decisão: iria até o fim com aquilo. A prisão do culpado ou algo pior ele faria o que fosse necessário para que não se repetisse. Na mente dele, algo se formou, uma linha tênue entre justiça e vingança. E não importava qual fosse o caminho que o aguardava, ele sabia que a partir de agora, cada passo dado seria calculado, com um objetivo claro: ninguém saíria impune. Matheus permaneceu no hospital, sentado à beira da cama de Lara. O rosto dela, marcado pela dor e pelo terror, o preenchia com um peso ainda maior, que ele não esperava carregar. O silêncio no quarto era quase absoluto, interrompido apenas pelo som suave do monitor à beira da cama e pelo murmúrio distante da enfermaria. Ele olhou para o relógio. Já era tarde, mas ele sabia que nada poderia ser mais importante do que isso agora. Elias estava tentando manipular os movimentos do morro, o controle crescente estava em jogo, mas naquele instante, Lara era tudo o que importava. Ele se encarou, pela primeira vez, sem disfarçar o vazio de suas escolhas. A culpa, o remorso, começaram a tomar forma. A enfermeira entrou de mansinho para conferir os sinais vitais, interagindo de forma calma para que Lara pudesse descansar. Matheus a observou com um olhar absorto enquanto ela mexia nos aparelhos. "Ela não merecia isso", pensou. Uma onda de revolta passou por seu corpo, quente, cortante. Mas havia algo mais. Ele ainda se mantinha, até o momento, firme, imerso no cargo que sempre carregara com uma garra quase impiedosa. Ele tinha o poder de mudar o rumo das coisas, mas nem isso parecia fazer sentido agora. — Ela vai ficar bem? — Matheus se aproximou da enfermeira, a preocupação estampada no rosto. A mulher olhou para ele e deu um suspiro leve. — Físicamente, sim. Mas o psicológico vai levar mais tempo. E se não houver apoio... ela pode ficar marcada. Essas palavras deixaram Matheus atônito, mas também clarificaram seu compromisso com Lara. O que quer que acontecesse, ele não permitiria que isso se arrastasse para mais violência. Ao menos, não com ela. Assim que a enfermeira saiu, ele aproveitou o momento para ligar novamente para seus aliados e, mais importante, para as pessoas que poderiam fazer a diferença no caso. A polícia não poderia hesitar. Aquilo era uma declaração de guerra pessoal para Matheus, não apenas um ato violento que merecesse só um enfrentamento no morro. Na mesma noite, o clima dentro do morro estava denso, carregado de expectativas. Uma pressão crescente parecia envolver as ruas da comunidade. Elias, por sua vez, estava se distanciando cada vez mais, seus movimentos se tornando mais erráticos à medida que sentia o solo escorregar sob seus pés. Os moradores estavam começando a se distanciar. E Lara, de algum modo, havia se tornado o centro do furor. Ele não imaginava que os moradores começariam a agir contra o que parecia ser sua própria lealdade inquestionável a ele. Não podia falhar — isso ele sabia. Ao virar a esquina da praça central, os garotos da favela olhavam-no, meio indiferentes, meio desconfiados. Ele nunca gostara dessa falta de respeito que emanava das ruas e das bocas de fumo. Ao mesmo tempo, ele ainda se iludia com a ideia de controle, achando que poderia vencer o jogo com mais uma amostra de brutalidade. Porém, ele ainda sentia algo de insustentável borbulhando em seu peito. O líder não era mais ele. Matheus o superara. Na madrugada seguinte, com o caso de Lara tomando proporções maiores do que Matheus poderia ter calculado, ele partiu para a execução de sua própria missão. O mais difícil, no entanto, seria traçar quem havia sido o responsável, e por quanto tempo se permitira que isso acontecesse dentro dos próprios muros da comunidade. Matheus comandava com frieza, seu foco total voltado para a resposta que ele tinha que dar aos homens que haviam abusado da confiança e de tudo o que se espera do que deveria ser respeitado dentro daquela vida conturbada. No entanto, lá, longe dos jogos sujos e do mundo à parte do tráfico, ele já não tinha dúvida de que havia algo além de vingança aguardando ele. Algo que transcende o morro e todas as ruínas que esse caminho causava. Ele sabia que, de alguma forma, as escolhas de todos voltariam para ele. E o rescaldo disso seria mais custoso, mais duradouro, mais turbulento do que qualquer acerto de contas na favela. Mas essa era a consequência dos passos já tomados.
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