Dona Iraci estava apavorada. O sol já começava a nascer, mas a ausência de Lara continuava a martelar em sua cabeça, uma angústia insuportável. A voz da filha no celular já não se fazia ouvir, e o número de Luana estava igualmente inacessível. O coração apertado de uma mãe incapaz de saber onde a filha estava a impelia a agir, e não pensou duas vezes: saiu de casa e foi à procura de respostas.
A rua ainda estava coberta pela névoa da noite, com poucas pessoas fora de suas casas. Dona Iraci seguiu pela favela, com um peso imenso no peito e a mente turvada pelos piores pensamentos. Ela sabia que o morro estava cheio de segredos e ali, naquelas esquinas e vielas, havia muita coisa acontecendo por trás do que se via, mas ela não ligava para nada disso. Precisava encontrar Lara.
Passou por algumas casas, olhou para o lado vendo garotos do movimento já circulando pelo morro, sempre com olhares desconfiados, talvez com medo de serem vistos conversando com ela. Ela conhecia todos eles, sabia que eram conhecidos de Lara. Aquele foi o ponto de esperança que a fez se aproximar de um grupo de meninos na esquina.
— Me ajuda, meu filho — pediu ela, a voz trêmula e o coração acelerado. — A Lara não voltou pra casa, o celular dela está desligado. Eu não sei mais o que fazer.
Os meninos se olharam, uns sem graça, outros desconfortáveis. O silêncio entre eles era tão pesado quanto a chuva fina que ainda caía, mas ninguém dizia uma palavra. Dona Iraci tentava esconder a agonia e falava mais uma vez:
— Algum de vocês viu ela? Ela estava indo para a casa da Luana... Por favor, alguém, me fala algo.
O mais velho, o líder do grupo, parecia relutante, mas logo olhou para ela com um semblante sério e disse:
— A senhora tem que ficar calma. Ninguém aqui viu a sua filha, mas eu vou passar um rádio, ver se alguém tem notícia.
O tom da sua voz fez o nervosismo de Dona Iraci aumentar, mas ela já não sabia o que mais fazer. Sentiu como se a única saída fosse confiar naquele jovem que falava tão firme.
— Pelo menos me dê algo, me diga que estão procurando ela — disse, com a voz quebrando. — Eu preciso dela de volta.
O garoto assentiu, deu um leve aperto no ombro dela como um gesto de consolo, e virou-se rapidamente para falar com os outros. Alguns meninos já começaram a fazer o sinal, enquanto o líder pegava um rádio para passar a mensagem. Dona Iraci observava com um fio de esperança, mas também temia que a situação fosse mais grave do que ela conseguia perceber.
O barulho do rádio que logo se ativou, e a breve troca de palavras entre os garotos com outros membros da comunidade, fizeram Dona Iraci respirar com um pouco mais de alívio — mas um alívio que se dissipava rapidamente quando o medo voltava a pesar. Ela queria confiar que eles iriam atrás de Lara, mas sentia que ainda estava longe de encontrar respostas.
Os meninos a olharam com empatia, mas foi a mensagem do rádio que parecia fazer tudo mudar, e o líder do grupo então se voltou para ela, dizendo:
— A gente tá procurando. Pode esperar, dona Iraci. Estamos atrás dela.
Ela agradeceu de coração, mas ainda assim não podia ficar parada. Seus instintos, aquele medo gelado na espinha, diziam-lhe que havia algo muito errado. Ela caminharia o quanto fosse preciso até ter a certeza de que sua filha estava a salvo.
O desespero de Dona Iraci logo se espalhou pelos cantos do morro. O rumor do desaparecimento de Lara chegou rápido aos ouvidos de Matheus. No momento em que soubera que ela estava fora de casa e não dava sinais de vida, uma sensação de frio percorreu sua espinha. Para Matheus, era inaceitável que algo acontecesse a uma moradora do seu morro, e especialmente a Lara, que nunca se envolvera com a violência ou o tráfico.
— Isso não pode ficar assim — disse Matheus para seus homens. — Acharam ela. Agora.
A ordem foi dada sem hesitação. Matheus tinha muita coisa em jogo, mas Lara não era apenas mais uma. Ele respeitava a sua história e, ao saber do seu sumiço, algo dentro dele se aquietava, até que a urgência da situação o tomava novamente.
Ele reuniu alguns de seus homens, meninos que estavam sempre por perto, e comandou a busca. Caminharam em direção à mata próxima, onde o silêncio pesado parecia esconder segredos escuros. Cada passo era dado com cuidado. Matheus tentava manter a calma, embora por dentro o pânico estivesse se intensificando.
O cheiro da terra úmida invadia as narinas, e o barulho suave da chuva que ainda caía dificultava um pouco a localização da jovem, mas a pressão de encontrar Lara o fazia agir com rapidez.
Foi então que, ao escutarem um estalido entre os bambus, Matheus fez um gesto para os homens se afastarem e ouviu com mais atenção. A tensão aumentava. O som vinha de dentro da vegetação fechada, de algum lugar entre os bambus, quase como um sussurro de movimento.
Matheus se adiantou. Lentamente, ele deu alguns passos em direção ao local de onde vinha o som. Ele estava pronto para qualquer coisa, e logo seus olhos pegaram o que mais temia. Uma figura estava caída no chão. Ele m*l conseguiu processar o que via, mas ao chegar mais perto, não teve dúvida: eram os pés de Lara.
Ela estava ali, nua, seu corpo coberto de marcas e feridas visíveis. Seu rosto, sujo e abatido, trazia uma expressão de dor e medo profundo. Ela parecia inerte, não havia movimentos, seus olhos ainda fechados. O que Matheus encontrou naquele momento, ao olhar para ela, era um pesadelo que ele não esperava que fosse ocorrer dentro dos limites do seu morro.
Ele se ajoelhou ao lado de Lara e verificou seu pulso. Foi um alívio sentir uma pulsação fraca, mas ainda presente. Ele gritou para os meninos que estavam mais afastados.
— Rápido, peguem ela! Levem ela até a casa! Ela precisa de cuidados!
O agitação foi imediata. Alguns dos meninos mais próximos correram até ele, trazendo mantas e cobertores para cobrir o corpo machucado de Lara. Um dos rapazes se adiantou para fazer o primeiro atendimento, tentando estancar alguns ferimentos visíveis enquanto Matheus ficava ali, vigiando o que ainda era invisível para ele.
Lara estava com a mente completamente perdida entre os limites do sofrimento. Ela não conseguia processar nada além da dor e da confusão. O contato com Matheus era familiar e ao mesmo tempo confuso; ele era alguém conhecido, mas tudo estava se passando como um pesadelo.
Matheus, por sua vez, sentia uma raiva visceral crescer dentro de si, uma vontade de encontrar quem tinha feito aquilo com ela, mas sabia que agora, mais do que nunca, a prioridade era salvá-la, fazê-la voltar para si mesma.
Ele não sabia como ou por quê, mas não podia deixar o que tinha acabado de ver ir embora sem que houvesse uma resposta, e ele sabia que nada mais no morro seria o mesmo a partir daquele momento.