capítulo 2

688 Palavras
Capítulo 2 Lucas Almeida Meu pai tinha uma mania irritante. Ele nunca batia na porta. Entrava. Simplesmente entrava. Foi exatamente o que aconteceu às sete da manhã de uma segunda-feira. A cortina do meu quarto foi aberta de uma vez, deixando a luz do sol invadir o ambiente. Fechei os olhos imediatamente. — Pai... Pai: — Já está na hora. Puxei o travesseiro sobre a cabeça. — São sete horas. Pai: — Exatamente. — Nas férias as pessoas dormem. Pai: — Você não está de férias. Suspirei. — Então estou em negação. Ouvi um suspiro do outro lado do quarto. Meu pai já estava acostumado com minhas respostas. Levantei apenas o suficiente para enxergá-lo. Terno impecável. Gravata azul. Relógio caro. Tudo perfeitamente alinhado. Parecia que aquele homem nunca tinha um fio de cabelo fora do lugar. Já eu... Cabelo bagunçado. Camiseta velha. Cara de quem tinha dormido três horas. Pai: — Hoje começa uma nova etapa da sua vida. — Que frase motivacional. Pai: — Estou falando sério. — Eu também. Você treinou isso na frente do espelho? Ele cruzou os braços. Não ria. Nunca ria. Pai: — A Academia Imperial espera excelência. Sorri de lado. — Então ela vai se decepcionar comigo. Ele me encarou por alguns segundos. Pai: — Um dia tudo o que construí será seu. — Quem disse que eu quero? Silêncio. Esse era sempre o momento em que nossa conversa desandava. Pai: — Você não entende agora. — Não. Eu realmente não entendia. Nunca pedi para nascer dentro de uma das maiores empresas de tecnologia do país. Nunca pedi para carregar um sobrenome que fazia adultos mudarem de postura quando me conheciam. Nunca pedi para ter meu futuro decidido antes mesmo de aprender a dirigir. Pai: — Levante. Os funcionários já organizaram suas malas. Olhei para o teto. — Eu podia simplesmente não ir. Pai: — Poderia. Sorri. — Sabia. Ele respondeu imediatamente. Pai: — E eu cortaria todos os seus cartões. Meu sorriso desapareceu. — Isso é golpe baixo. Pela primeira vez naquela manhã, ele quase sorriu. Quase. Pai: — Dez minutos. A porta se fechou. Continuei olhando para o teto. Depois comecei a rir sozinho. — Ele realmente faria isso. --- Uma hora depois, eu estava sentado no banco traseiro do carro. Meu motorista dirigia em silêncio. Meu pai respondia e-mails no tablet. Eu observava a cidade passando pela janela. Pessoas indo trabalhar. Crianças caminhando para a escola. Ciclistas. Ônibus. Uma vida completamente normal. Às vezes eu invejava aquilo. Poder fazer escolhas simples. Sem que alguém perguntasse qual seria o impacto para o sobrenome da família. Meu celular vibrou. Rafael "Sobreviveu?" Sorri. "Infelizmente." A resposta veio quase instantaneamente. "Nos vemos na Academia. Não arruma confusão antes do almoço." Ri sozinho. Isso seria difícil. --- O carro atravessou um enorme portão de ferro. Mesmo conhecendo aquele lugar desde criança, era impossível ignorar sua imponência. A águia dourada no centro do brasão brilhava sob o sol da manhã. Alunos caminhavam por todos os lados. Alguns abraçavam amigos. Outros tiravam fotos. Pais choravam. Calouros olhavam tudo como se tivessem entrado em outro planeta. Meu pai fechou o tablet. Pai: — Lembre-se. Você representa a família Almeida. — Não sou um logotipo. Pai: — Às vezes, é exatamente isso que você é. A frase ficou ecoando na minha cabeça. O carro parou. Um funcionário abriu a porta. Desci. O vento carregava o perfume das flores dos jardins. O campus estava mais bonito do que eu lembrava. Mesmo assim... Aquilo nunca pareceu meu. Enquanto caminhava em direção ao prédio principal, vi uma garota parada diante do enorme mapa da Academia. Segurava um envelope azul-marinho contra o peito. Olhava para todos os lados, completamente perdida. Sorri de canto. Todo ano era a mesma coisa. Os novatos chegavam achando que aquilo era uma escola. Levavam alguns dias para descobrir que a Academia Imperial era praticamente uma cidade. Continuei andando. Nem imaginava que aquela garota faria parte da minha vida. Nem que, antes disso acontecer... A Academia ainda me mostraria que nem todo mundo ali usava um sobrenome famoso para abrir portas. Alguns precisavam derrubá-las com as próprias mãos.
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