capítulo 3

687 Palavras
Capítulo 3 Aurora Costa O ronco da minha moto chamou mais atenção do que eu gostaria. Ou talvez exatamente a atenção que eu queria. Reduzi a velocidade em frente ao enorme portão de ferro da Academia Imperial, ignorando os olhares curiosos dos seguranças. Um deles levantou a mão. Segurança: — Senhorita Aurora! Desliguei o motor. — Bom dia. Ele respirou fundo. Segurança: — Seu pai ligou três vezes perguntando se a senhorita realmente viria de moto. Sorri. — Então pode ligar uma quarta e dizer que cheguei inteira. O homem segurou o riso. Ele já me conhecia. Meu pai também. Senador Augusto Costa. Um dos políticos mais influentes do país. O homem que jamais pisaria em público com a gravata torta. E que surtava cada vez que eu fazia qualquer coisa fora do roteiro. Olhei para o celular. Cinco chamadas perdidas. Sete mensagens. Nem precisei abrir. Já sabia o conteúdo. "Você deveria ter vindo com a equipe de segurança." "A imprensa pode fotografar você." "Não estrague a imagem da família." Revirei os olhos. Imagem. Era sempre sobre imagem. Enfiei o celular no bolso da jaqueta de couro e tirei o capacete. Meus cabelos castanhos tinham algumas mechas em tom vinho que apareciam quando o sol batia. Meu pai odiava. Eu adorava. Peguei minha mochila e caminhei pelo campus. A Academia Imperial continuava exatamente como eu lembrava. Bonita. Luxuosa. Impecável. E cheia de gente fingindo ser perfeita. Passei pela fonte central. Um grupo de veteranos observava discretamente os calouros. Era engraçado. Alguns pareciam crianças em uma loja de brinquedos. Outros caminhavam como se fossem donos daquele lugar. Perto do mapa principal, uma garota segurava um envelope azul-marinho e olhava para todos os lados completamente perdida. Sorri sozinha. — Primeira semana... Continuei andando. --- Meu dormitório ficava no segundo andar da Ala Imperial Feminina. Assim que abri a porta... Encontrei uma garota espalhando dezenas de roupas sobre a cama. Vestidos. Sapatos. Necessaires. Perfumes. Parecia que uma loja inteira tinha explodido dentro do quarto. Ela me olhou. Depois olhou para minha jaqueta. Depois para minhas botas. Depois para meu capacete. Franziu o cenho. — Você entrou no quarto errado? Ergui uma sobrancelha. — Acho que não. Olhei para o número na porta. 214. Era o meu. Ela fez uma careta. — Nós vamos dividir o quarto? — Pelo visto. Ela soltou um suspiro dramático. — Meu pai prometeu que eu teria uma suíte individual. — Então ele mentiu. Ela cruzou os braços. — Você é sempre tão simpática? Sorri. — Só antes do café. Ela me encarou por alguns segundos. Depois começou a rir. Uma risada sincera. — Tá... você é engraçada. Estendeu a mão. — Valentina Monteiro. Apertei sua mão. — Aurora Costa. Os olhos dela se arregalaram. — Espera... Costa? — Sim. — O senador Augusto Costa? Suspirei. Lá vinha. — Infelizmente. Ela piscou duas vezes. — Achei que filha de senador fosse chegar em uma comitiva. Apontei para o capacete. — Preferi a moto. Ela caiu na gargalhada. Naquele instante alguém bateu à porta. Uma funcionária apareceu. — Senhoritas, a cerimônia de boas-vindas começa em vinte minutos. Assim que ela saiu, Valentina voltou a organizar as roupas. — Você acha que esse salto combina com o uniforme? Olhei para um sapato que parecia ter quinze centímetros de altura. — Se a sua intenção é torcer o tornozelo antes da primeira aula... combina. Ela bufou. — Você é impossível. Peguei minha mochila. — Você ainda não viu nada. Saímos juntas do dormitório. Enquanto caminhávamos pelos corredores, alunos passavam em grupos, rindo, abraçando amigos antigos e tentando encontrar suas salas. O campus inteiro estava vivo. Cheio de vozes. Cheio de expectativas. Cheio de histórias. Sem que eu soubesse... Em algum lugar daquele mesmo campus, uma bolsista sonhava em encontrar sua sala sem se perder. Um herdeiro tentava descobrir uma forma de escapar do discurso do diretor. E aquela garota exageradamente elegante que agora caminhava ao meu lado... Ainda mudaria muito antes do fim daquele ano. A Academia Imperial tinha esse efeito sobre todos nós. Ela nos recebia como éramos. E, de um jeito ou de outro... Sempre nos transformava.
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