Pré-visualização gratuita EPISÓDIO 1- LEIA NARRANDO
Escovo os meus dentes com as memórias mais recentes da noitada passada com o meu lindíssimo namorado, Osvaldo que sempre sabe caprichar com as, as… bem você entende o que estou dizendo, né? Sério que não está entendendo? Deixa pra lá, pois eu não tenho tempo para explicar coisas simples de entender. Desculpa, eu sou uma grossa mesmo.
Olho para o meu reflexo no espelho, percebo que tenho uma borbulha no nariz e a primeira coisa que me passa pela cabeça é uma imagem de uma bruxa, bem, eu sei, sou muito infantil as vezes, mas nada disso interessa. Sou uma jovem de apenas 20 anos de idade e gosto muito de ficar em casa, bem caseira e, minha mãe diz que isso é muito bom porque não destruo nada da vizinhança coisa que dona Éssia odiaria, sim a minha mãe é uma fera como eu, ou melhor, eu sou uma fera como ela, bem acho que você entendeu.
Moro com a minha mãe e o meu irmão mais novo que passa a vida me importunando, mas sempre faço de tudo para lhe colocar no seu lugar, o nome dele é Ezildo, tem 13 anos de idade e uma irritação de um demônio. Desculpa o exagero, é que sou assim mesmo, exagero em tudo e isso é bom, pois levo para os meus textos que publico na minha página no face onde outras meninas lêem e deixam os seus comentários, é fantástico. Uma das pessoas que tem falado muito acerca do meu drama é a minha melhor amiga, Tamires, e já deixou de ser uma coisa simples, mas sim um hino “Leia você é muito dramática. Leia você é muito dramática” ninguém merece, meu Deus. Opa, esqueci de dizer qual é o meu nome. Sou Leia e gosto de escrever e ler. Quando pronuncio o meu nome muitas das vezes me lembro de um menino que quando eu disse o meu nome ele mandou uma cantada sem graça que eu vou odiar pelo resto da minha vida. A cantada foi “Leia, leia o meu olhar que…” já nem sei como ele terminou, maldição.
Ah, tenho o problema de me perder no meio de fio de pensamento durante as minhas conversas, se acostume com isso, está bem?
Hoje é um dia especial, pois vou ao cinema com meu amor, mas o problema ainda não sei o que vou vestir. Que tal.. hã… minha mãe diria para pôr aquele vestido que me comprou no natal passado, algo que odiei completamente porque parece um vestido para princesinhas, sei, ela tem razão porque me acha uma, sempre me achou.
Acho que a maioria das mães é assim. Reviro os olhos quando o meu telefone toca e de imediato me lembro que Osvaldo disse que me mandaria uma mensagem de “bom dia” como forma de saber se ainda estou viva, bem estranho isso, porém fazia sentido depois da noite anterior que me deixou arrepiada, nos primeiros momentos. Foi a minha primeira vez, você entende? Mas não foi da forma como eu sempre esperava. Ele foi gentil e teve muita paciência que eu estava ficando muito chata. Não chegamos lá porque eu não estava preparada, sabe? Estávamos quase, mas eu senti que faltava algo, não sei explicar, mas mesmo assim faltava uma... conexão.
Bem depois do cinema com o meu namorado combinei de sair com a minha melhor amiga, na verdade ela me convidou para uma festa, mas não me deu detalhes argumentando que era uma surpresa quando eu insisti em perguntar, pois a minha curiosidade é gigantesca diferente de mim que sou uma baixinha.
Cinema é para a noite, mas a minha ansiedade já está nos céus, assim fico louca em tentar achar algo para vestir, algo que deixe Osvaldo de queixo caído, mas em primeiro lugar tem que agradar a mim mesma. Na verdade eu tenho algo na minha estranha mente de querer tudo perfeito, passando horas e horas planejando tudo que farei no dia seguinte como agora que estou escrevendo no meu diário como se escrevesse para depois enviar para alguém para ler.
– MERDA – grito sozinha no meu quarto, pois era pela décima vez que eu tentava escrever algo com sentido, mas não conseguia.
O meu cabelo está bagunçado e também o quarto, nem tive o tempo de arrumar o quarto porque estava tentando escrever algo com sentido depois de ter lido aquele maldito gostoso livro que sempre escondo para mãe não saber que leio.
– LEIA – mãe me chama após ter escutado o meu horrível grito que talvez despertou todos os vizinhos pelo quarteirão.
– MÃE? – de imediato respondo antes de receber uma bronca da minha mãe irada, se receber lhe darei razão, porque exagerei, mas o problema não consigo me controlar.
Saio correndo para a sala onde ela prepara o chá. Quando chego lá, ela me olha com uma cara nada agradável e pergunta:
– Não conversamos sobre isso?
Não tenho coragem de responder, apenas olho para a superfície como se lá estivesse a resposta. Ela volta a colocar a mesma pergunta e quando é assim é melhor colocar o seu traseiro na cadeira e falar toda merda que te levou a fazer o que você fez e ela não gostou.
– Desculpa, mãe! – com um ar triste eu digo e posso ver no seu olhar uma gota de pena que está bem lá no fundo dela.
– Vem cá. – ela diz de uma forma acolhedora, eu me aproximo dela que me envolve num abraço afetivo algo que ela sempre faz matando a agonia que o meu pai nos fez passar antes de nos abandonar e sermos criados somente pela nossa mãe. – Eu sei que não está sendo fácil.
– Já tentei em muitos lugares mãe, mas a resposta é sempre a mesma. Vamos te contatar. Então estou fazendo de tudo para conseguir trabalhar na Jovens Editores Orge.
– Tenha fé minha, filha. Tudo tem o seu tempo. – ela diz me desembrulhando do abraço e me deixando sentar na cadeira perto da mesa, os seus olhos vão de encontro aos meus num silêncio que fala o que eu quero ouvir.
Ela segura as minhas mãos para me consolar e antes de dizer as seguintes palavras, olha para mim profundamente:
– Minha filha, não deixe o seu sonho morrer como eu fiz.
– Não foi sua culpa mãe. – digo e uma lágrima me escapa do meu olho direito.
Eu odeio me lembrar acerca do que o nosso pai fez com a nossa mãe, mas era inevitável porque é algo inesquecível. O álcool o matou completamente, na verdade não foi o álcool, mas sim a sua própria mente. Mãe tolerou por muitos meses e muitos anos o comportamento do senhor Joaquim, no entanto ele nunca mudava, a coisa que sabia fazer era prometer mudar, porém mudar o que era bom; nada.
Agora é ela que derrama lágrimas pelo homem que não merece as mesmas. O nosso problema, a maioria de nós as mulheres, é de sermos muito sensíveis, tolerantes e pacientes, no entanto eu depois de ter vivenciado a situação dos meus pais fiz de tudo para ser insensível e isso me rendeu separações precoces em minhas relações, amorosas e em todas elas não cheguei a me relacionar intimamente com eles. Acho que culpo a todos os homens pelos pecados do meu pai contra a minha mãe.
***
A noite chega e eu finalmente consegui achar algo para vestir e ir com o meu gato para o cinema. Me aprecio no espelho vendo a minha cor predileta no meu corpo, numas calças jeans, pretas, coladas ao corpo e uma camisola vermelha com um capuchinho. O meu cabelo num único nó, bem esticado e brilhando do jeito que eu gosto. E nos pés sapatilhas vermelhas duma marca chamada Orge’s Paradise.
De repente, sem pedir licença, Ezildo entra no meu quarto.
– É o que aprendes na escola né?
– O quê mana?
– Entrar no quarto dos outros sem pedir licença.
Ele não responde apenas continua a caminhar pelo meu quarto até encontrar um telefone que havia deixado perto do meu guarda roupa. Segurando o seu dispositivo na mão olha para mim com um tipo de desprezo.
– O que foi? – pergunto.
– Nada. – ele responde de uma forme rude.
– Já falamos sobre isso e, tu sabes que não gosto?
– Fiz o quê?
– Ainda perguntas o que fizeste. – digo já irritada em seguida aos berros lhe expulso do meu quarto. – Sai, sai, sai do meu quarto. – de imediato ele sai as pressas.
Agora mãe entra no quarto, olha para mim e pergunta:
– Vais sair, assim?
– Sim, o que foi? Não estou bonita? – pergunto tentando achar um defeito.
– Está muito simples. Não parece a minha filha.
– Como assim, mãe?
– Qual é a ocasião?
– Mãe – digo já imaginando ela preparando uma sugestão que talvez eu não goste.
– É só me responderes, filha. – ela diz com carinho na sua voz.
– Vou ao cinema com Osvaldo. – enquanto falo ela se dirige no meu guarda roupa e escolhe um vestido branco e muito bonito.
Olho para a peça com descrença, como é que eu não consegui ver o vestido quando procurava por algo ideal para vestir?
De repente o celular vibra e antes mesmo de desbloquear o ecrã consigo ver a mensagem que me deixa curiosa:
“Peço para me ligar agora, amiga...”
Quando faço o desbloqueio consigo ver a mensagem inteira e a preocupação invade o meu interior.
“Peço para me ligar agora, amiga. É urgente. Não tenho como te ligar por isso que mandei essa mensagem.
O que terá acontecido?
***