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1365 Palavras
22 -- Peppa Narrando A visão daqui do alto da laje é outra, parceiro. Enquanto o sol se põe no mar da Bahia, pintando tudo de laranja, eu fico aqui, no meu canto, queimando um do bom e pensando em como o mundo gira. O povo me vê assim, cheio de marra, comandando o corre aqui em Salvador, e acha que eu nasci no dendê. Mas a realidade é que o meu umbigo foi enterrado bem longe daqui. Eu sou cria da Nova Holanda. Cresci correndo descalço nas vielas do Complexo da Maré, lá no Rio, desviando de blindado antes mesmo de saber o que era uma conta de dividir. O Vitor, o famoso 20 Anos, não é só meu sócio no crime não; o sangue que corre nas veias dele é o mesmo que corre nas minhas. Somos primos, sangue do mesmo sangue, criados na doutrina da família. No nosso DNA não tem glóbulo branco nem vermelho, tem é pólvora e visão de negócio. Há uns anos, a missão foi outra. Meu coroa, que era o dono da p***a toda aqui nesse setor de Salvador, sentiu o peso da idade e o cerco fechando. Ele precisava de alguém que tivesse o sangue frio do Rio, mas a malandragem necessária pra lidar com o tempero baiano. Ele me chamou e eu vim. No começo foi estranho, o sotaque mudou, o ritmo da música é outro, mas o crime? O crime é um idioma universal, meu mano. Quando meu pai descansou e partiu pra cidade dos pés juntos, o trono ficou vago. E herdeiro de verdade não pede licença, ele assume a responsabilidade. Peguei as rédeas da favela e fiz o que o Rio me ensinou: disciplina, organização e braço forte. Hoje, a vida aqui na Bahia é de rei, mas um rei que não dorme no ponto. O dia começa cedo, com o rádio fritando: "Tá tudo 2, patrão!", "Carga de branco encostando na beira-mar!", "Os 'alemão' tentaram dar as caras no Pelô e voltaram de ré!". O meu corre aqui é diferenciado. Eu comando a distribuição de ponta a ponta. Salvador é estratégica, é porto, é rota. Enquanto o 20 Anos segura o rojão lá na NH, eu garanto que a conexão Bahia-Rio seja um cano de aço, sem vazamento. A gente toca o crime na família como se fosse uma multinacional, só que sem terno e com o fuzil a tiracolo. Minha rotina é intensa. Passo o dia recebendo os "frentes", resolvendo treta de morador — porque aqui a gente é juiz, advogado e carrasco — e conferindo se a mercadoria tá do jeito que o cliente gosta. À noite? À noite é o momento de desfrutar. Ouro no pescoço pesando mais que a consciência, as melhores naves na garagem e as "novinhas" perdendo a linha quando o blindado do Peppa aponta na principal. Mas não se engane com o sorriso e o gingado baiano. Eu não perdi o "faro de cana" e a agressividade que a Maré me deu. Aqui na minha área, não tem vacilo. Se o cara tá de "kaô", a gente resolve no diálogo; se o cara tá de traição, a gente resolve no ferro. A disciplina é o que mantém o morro em paz e o lucro no bolso. Às vezes o Vitor me liga lá do Rio, a gente troca uma ideia sobre os negócios, ele fala da tal da "Herdeira" dele que tá crescendo e ficando braba... eu dou risada. Eu gosto de ver a família evoluindo. Mas aqui na Bahia, o jogo é outro. O calor é mais forte, o sangue ferve mais rápido e o mar... ah, o mar é o lugar perfeito pra sumir com quem cruza o meu caminho. Eu sou o Peppa. Respeitado na Bahia, temido no Rio. Eu sou a prova viva de que a família 20 Anos não tem fronteiras. Se o destino me trouxe pro Nordeste, foi pra eu mostrar que o tempero do Rio, quando mistura com o axé de Salvador, vira uma mistura explosiva. O sol sumiu, a lua tá vindo e o baile lá embaixo já começou a estalar. É hora de descer, dar aquele "check" na tropa e lembrar pra todo mundo quem é que manda nessa p***a. A Bahia é minha, mas a alma... a alma ainda é da Nova Holanda. No meu mundo, o poder atrai tudo que não presta e tudo que é bom demais. Mulher, então... é mato. Aqui em Salvador, quando eu passo com a caminhonete blindada, as "negrona" e as "galegas" perdem o rumo. É foto, é mensagem no direct, é gente querendo ser a primeira-dama do tráfico nem que seja por uma noite. E eu, que não sou de ferro e tenho o sangue quente, já aproveitei muito essa pista. Mas a vida de solteiro de luxo ficou pra trás tem um tempo. Eu sou casado, parceiro. Minha mulher, a Shirley, é o tipo de mulher que não se acha em qualquer esquina. Ela não é dessas novinhas que só querem ostentar meu ouro no baile; ela é a base. Conhece o meu olhar, sabe quando o clima tá ficando azedo antes mesmo do rádio chiar e, o mais importante: ela segura o meu lado. No crime, se tu não tem uma mulher de fechamento em casa, tu já entra no jogo perdendo. Só que, né... homem é um bicho complicado. Eu amo a Shirley, dou do bom e do melhor, trato como rainha, mas o instinto de "vagabundo" vira e mexe dá as caras. Eu tenho minhas fugidas, minhas "contatinhos" de luxo que eu mantenho no sigilo pra não manchar a imagem do patrão e nem desrespeitar o teto da minha casa. Pra mim, o respeito à minha esposa é sagrado na frente dos outros, mas o que os olhos não veem, o coração não sente — e o fuzil não dispara. Minha rotina com as mulheres é um xadrez. Eu tenho que saber quem é quem. Tem as que querem meu dinheiro, tem as que querem o meu poder, e tem as que são "olho grande" mandadas pelos alemão pra tentar me pegar na cama. Por isso, eu não durmo com qualquer uma, não boto qualquer p*****a dentro do meu carro e nunca, em hipótese alguma, revelo onde eu guardo o que é meu. A verdade é que a vida de dono de morro é solitária pra c*****o. Todo mundo quer um pedaço do teu bolo, mas ninguém quer segurar o teu fuzil na hora da troca de tiro. As mulheres entram nesse vazio. Elas trazem uma diversão, uma massagem no ego, um momento onde eu não sou o "Peppa que mata", mas o "Peppa que faz". Só que o 20 Anos sempre me deu o papo lá do Rio: "Cuidado com o r**o de saia, primo. Mais homem caiu por causa de mulher do que por causa de cana". Eu levo isso a sério. Eu curto a vida, aproveito o melhor que a Bahia tem pra oferecer, mas meu foco é o progresso. Agora mesmo, enquanto eu olho aqui pro movimento da favela, recebi um vídeo de uma novinha que tá me dando mole tem uma semana. O vídeo é de tirar o juízo. Mas aí eu olho pro lado e vejo o porta-retrato com a foto da Shirley no dia que a gente oficializou... a consciência dá aquela pesada, mas o sangue ferve. É o equilíbrio do caos, meu mano. Ser o dono da p***a toda exige que tu seja frio no negócio e quente na cama. Só não pode é misturar as estações. Se a mulher começar a querer mandar no morro, a gente corta as asas. Se começar a dar mole pra soldado, a gente corta o m*l pela raiz. Vida de patrão na Bahia é assim: dendê no prato, fuzil no colo e o coração dividido entre a lealdade da esposa e a tentação da pista. O dia tá acabando, a Shirley tá me esperando com o jantar pronto, mas tem um baile começando ali no Lobato que tá me chamando... e o Peppa, como vocês sabem, não é homem de negar um convite do perigo.
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