Cap 21 — Victoria Narrando
O meu celular vibrou na mão e o texto do Luan parecia um soco no estômago. "Se eu não descer... não me arrependo de nada." Aquilo não era uma mensagem de despedida, era um testamento. O medo que eu senti não foi o medo que eu tive da Bianca ou das ruas; foi um medo frio, visceral, de perder a única pessoa que me fez sentir mulher em vez de soldado.
Eu não pensei. Se eu pensasse, eu travava.
Catei a chave da minha moto, desci a escada ignorando a dor no corpo e o cansaço. Montei nela e saí rasgando as vielas. O vento batia no meu rosto, mas eu só conseguia ver a imagem do meu pai com aquela expressão de gelo. Eu conhecia o 20 Anos. Ele não faz teatro. Se ele chamou o Luan no escritório e o clima pesou, o final daquela conversa já tinha um endereço: o micro-ondas ou o tribunal do morro.
Cheguei na boca e não parei na barreira. Os moleques tentaram entrar na frente, mas quando viram que era eu, se afastaram. Entrei voando.
O cenário era o pior possível. No centro da sala principal, o Luan estava em pé, cercado por uns cinco soldados armados até os dentes. O meu pai estava em pé na frente dele, com o fuzil atravessado no peito, a cara de quem estava prestes a dar a ordem final.
— O que está acontecendo aqui?! — Entrei gritando, a voz ecoando nas paredes de concreto.
Todos os olhares se voltaram para mim. O 20 Anos franziu a testa, os olhos faiscando de uma mistura de surpresa e fúria.
— Victória, sai daqui. Agora! Esse assunto não é teu — meu pai ordenou, a voz saindo como um trovão.
Eu não recuei, mas também não dei um passo que parecesse enfrentamento. Eu sabia o limite. Parei a uma distância segura, respirando fundo, tentando manter a calma que ele mesmo me ensinou.
— É meu assunto sim, pai! Se o senhor vai cobrar o Luan por algo que aconteceu entre a gente, o senhor tem que me cobrar primeiro. — Minha voz tremeu, mas eu não baixei o olhar. — Se aconteceu... se a gente ficou, foi porque eu quis. Eu deixei acontecer. Eu sou sua filha, o senhor me criou para ter visão e tomar minhas decisões. O Luan não me forçou a nada e ele não está me usando para chegar em lugar nenhum! O senhor sabe quem ele é!
O Luan, percebendo a brecha, olhou para o meu pai com uma sinceridade que eu nunca tinha visto. Ele não estava com medo de morrer, estava com medo de perder o respeito do único homem que ele admirava.
— Pô, 20 Anos... tu me conhece há quantos anos? — Luan falou, a voz firme. — Eu trabalho contigo desde antes da Victória chegar aqui. Eu estava contigo quando a gente não tinha nada. Tu acha mesmo que depois de todo esse tempo eu ia virar as costas pra ti por interesse? Aconteceu, chefe. Foi humano. Foi erro ou foi acerto, eu não sei, mas não foi traição ao morro. Por causa disso tu vai jogar dez anos de lealdade no lixo?
Meu pai ficou em silêncio. Dava para ver o conflito no rosto dele. De um lado, o dono do morro traído na confiança; do outro, o pai que via a filha implorar pela vida de um homem.
Eu não estava enfrentando ele. Eu estava apelando para o homem que me resgatou do lixo.
— Pai, por favor... — sussurrei, abaixando a guarda, deixando as lágrimas aparecerem. — O senhor sempre disse que a gente era transparente. Eu estou sendo agora. Não faz nada com ele por causa de um sentimento que nasceu aqui dentro. O Luan é seu melhor soldado. Não tira o braço direito do morro por causa de um ciúme que não faz sentido.
O 20 Anos olhou para o Luan, depois para mim. Ele apertou a bandoleira do fuzil com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. O ar na sala estava tão carregado que parecia que ia explodir a qualquer momento. Eu não queria ser a filha que desobedece, eu queria ser a filha que o fazia entender que o mundo dele estava mudando, e que eu não era mais a boneca de porcelana que ele queria proteger dentro de uma caixa.
O silêncio que se seguiu foi agoniante. Dava para ouvir apenas o som dos rádios comunicadores chiando baixo na cintura dos soldados. Meu pai não desviava o olhar do Luan, e o Luan, por incrível que pareça, não baixava a cabeça. Ele estava pronto para o que viesse.
Depois de o que pareceu uma eternidade, meu pai relaxou os ombros, mas a expressão continuava fechada, como se tivesse sido esculpida em pedra.
— Todo mundo fora. Agora! — Ele deu a ordem sem gritar, mas o tom foi tão cortante que os soldados saíram quase correndo, batendo a porta de ferro da boca logo em seguida.
Ficamos só nós três. O cheiro de pólvora e mofo daquele lugar nunca pareceu tão sufocante. Meu pai caminhou até a mesa de centro, encostou o fuzil e se virou para nós, cruzando os braços.
— Escutem bem, porque eu só vou falar uma vez — ele começou, olhando fixo primeiro para mim, depois para o Luan. — Victória, tu diz que é mulher, que toma tuas decisões. E tu, Luan, diz que é leal e que está aqui antes dela chegar. Pois bem.
Ele deu um passo na direção do Luan, ficando a centímetros do rosto dele.
— Eu não criei minha filha para ser diversão de soldado em fim de baile. E eu não pago segurança para usar o tempo de serviço para "conquistar" a herdeira. Mas eu não sou burro. Eu sei que o que aconteceu, aconteceu. E se eu matar você agora, Luan, eu perco meu melhor homem e ganho o ódio da minha filha. E eu não vou dar esse gostinho para os meus inimigos.
Ele respirou fundo, parecendo engolir o próprio orgulho.
— Se vocês querem ficar juntos, se querem namorar, que seja. Mas prestem atenção: eu não quero p*****a pelo meu morro. Eu não quero cochicho de morador, não quero soldado rindo pelas costas dizendo que o Luan tá "ganhando a vida" em cima da filha do dono. Se for pra ser, vai ser com respeito. Vai ser direito.
Eu senti um peso de uma tonelada sair das minhas costas, mas o aviso dele ainda não tinha acabado.
— Na rua, vocês são soldado e herdeira. Aqui dentro, se decidirem levar isso adiante, que se comportem. Se eu pegar gracinha pelos cantos, se eu vir falta de postura ou se o serviço do Luan cair porque ele está com a cabeça na Victória... aí não vai ter conversa, não vai ter choro de filha e não vai ter lealdade que te salve, Luan. Eu te apago e mando ela de volta para um internato na Suíça antes de você cair no chão.
— Entendido, patrão — Luan respondeu prontamente, a voz firme, mas com um brilho de alívio nos olhos. — O senhor tem a minha palavra. Nada muda no corre.
— E você, Victória? — Meu pai me olhou, e dessa vez o olhar era de pai de novo, magoado, mas protetor. — Entendeu as regras?
— Entendi, pai. Obrigada por... por entender — falei, sentindo minhas pernas finalmente pararem de tremer.
— Não me agradece ainda. Eu estou de olho. Agora sumam da minha frente. Luan, volta pro teu posto na entrada. Victória, vai pra casa e vê se descansa, que o teu rosto entrega que a tua noite foi longa demais para uma menina de dezesseis anos.
Saímos da boca um atrás do outro. Quando pisamos no asfalto quente do morro, o sol batendo na cara, eu olhei para o Luan. Ele soltou um suspiro longo, passando a mão no rosto. Ele estava vivo. Nós estávamos "autorizados".
Mas enquanto eu montava na minha moto para voltar, eu vi meu pai parado na porta da boca, nos observando. Eu sabia que a liberdade tinha vindo com um preço: agora, cada passo meu e do Luan seria vigiado não só pelas câmeras, mas pelo cano de um fuzil que não aceitava erros. A "p*****a" estava proibida, mas o perigo... ah, o perigo tinha acabado de ficar muito mais sério.