Capítulo 2

2926 Palavras
Henrietta odiava seu nome. Não gostava nada do nome que seu pai lhe dera. Sua mãe, que falecera há muitos anos, queria que seu nome fosse Daisy, ou Sofia, mas seu pai, que tinha em mente que seria seu herdeiro a nascer, um menino e não uma menina de cabelos ruivos e rebeldes, queria que o nome fosse Henry. O que era irônico, pois ela nascera, destruindo os sonhos do seu pai e sua querida mãe não pudera mudar a mente do seu pai, quanto ao nome. Ele ficara tão desgostoso, que deixara aquele nome estranho e nada feminino. Mas, era isso que trazia a força para ela. Não precisava ser feminina, somente forte e capaz. Inteligente e desinibida. E nunca, nunca, deixar um homem a controlar. Sua mãe morrera quando ela tinha dez anos, quando estava dando luz a seu irmão, deixando-a órfã. Seu pai não teve tempo de cuidar dela, de verdade, como era esperado. Ele a ensinou tudo que sabia, muito mais do que poderia ensinar a uma jovem. Ele a tratava como um garoto, de fato. Mas, depois que sua tia Penelope, mais conhecida por tia Pope, irmã de sua mãe, interferiu, ele percebeu que estava agindo de forma errada. Isso fora quando ela tinha treze anos. Seus s***s começavam a aparecer e ela precisava usar vestidos melhores e ter um comportamento de uma dama. Tia Pope começou então a cuidar dela e ensinar o que uma dama deveria saber. Como deveria agir. Mas, era difícil, pois Henrietta era uma jovem intempestiva, que não queria ordens. De maneira alguma. Ela queria ser livre e andar sobre um cavalo, galopando veloz. Ela já fizera isso, várias vezes, fantasiada de garoto, sem que seu pai soubesse. E fez isso na propriedade de sua tia, pegando um dos cavalos do seu tio, lorde Melton, esposo de sua tia. Quando tia Pope soube, a situação ficara muito pior do que ela imaginava. Seu pai a proibiu de sair de casa e logo ela teve que acostumar a vida de uma dama recatada. Ela precisou ficar no campo, com outros dois primos e uma prima que não gostava. Com um tio esnobe, que julgava as origens do seu pai. Que era apenas um senhor, sem títulos ou terras, apenas um editor de livros, muito conhecido, é claro. Mas, lorde Melton era um nobre e essa questão do trabalho era muito malvista. Apesar de Henrietta acreditar ser dignificante trabalhar para conseguir o próprio sustento, não herdar uma herança. E achava algo injusto uma pessoa herdar bens, sem ter feito nada para merecer isso. O que era o caso do seu tio, que era um barão. Sua fase no campo terminara, quando ela precisou debutar e fora o pior pesadelo de sua vida. E continuava, até o momento atual, com seus vinte e dois anos de idade. Seria uma solteirona em breve. Isso não a deixava triste ou desesperada, pois seu pai havia prometido que ela viveria confortavelmente sua velhice, caso ninguém a quisesse. Ele havia dito que provavelmente ninguém iria querer uma jovem impetuosa e malcriada. Ela fingiu que isso não a magoara, mas a magoara muito. E a ameaçou dizendo que se ela pisasse mais uma vez, fora da linha, iria casá-la com o conde Chester. Por Deus, aquilo seria seu castigo. O homem tinha quarenta anos. E viúvo, acusado de ter matado a própria esposa. O que era mais interessante, para ela, no entanto, foi a conversa que tivera com ele, antes que sua amiga, Anne Williams, se casasse com Henry Collins. Ela havia pedido ajuda para o conde Chester, descaradamente. Pediu dinheiro, para ajudar a resgatar Erik, um menino que era tutelado do senhor Collins. Ele havia sido sequestrado por Jenkins, dono de uma casa de apostas, para pedir resgate pelo garoto. Tudo deu errado no final para ele. Jenkins fora extraditado para Irlanda, por ser estrangeiro na Inglaterra e estar ilegalmente no país. E Anne havia dito que estava com medo. Temia que ele voltasse e quisesse vingança. Conde Chester se tornou amigo dela, depois do empréstimo que pedira. O dinheiro que havia emprestado, é claro, voltou para ele. Mas, eles continuaram a conversar a se corresponder. Ele era um homem agradável e não parecia tão velho, como ela pensara a princípio. Ele tinha apenas quarenta anos e nenhum cabelo branco. Apenas algumas linhas de expressão nos olhos, boca e testa. Mas, era muito bonito e charmoso. Cabelos escuros, olhos cinzas e um porte elegante. Um olhar jovial. Se tivesse que se casar com ele, não seria tão r**m assim. Parecia até uma boa ideia, ela pensou. Mas, havia o fato de que sua esposa se matara. O que era estranho. Será que ele havia a matado ou ela havia mesmo tirado sua vida? Isso não parecia nada bom. E ela não iria perguntar ao conde. De maneira alguma. Algo tirava seu sono, agora, uma semana depois que havia deixado a casa de lorde Bedford, depois do casamento de sua amiga Anne. Ela sentia o gosto dos lábios de lorde Klyne nos seus. O gosto do charuto e whisky. E a forma como ele a envolveu, em seus braços. Aquilo fora tão impróprio. Algo que nunca deveria ter acontecido. Foi um erro terrível. Mas, algo que ela não conseguia esquecer e isso não a deixava dormir. Ela acordou cedo e começou a escrever. Tinha um manuscrito guardado. Anne não queria mais escrever aquela história. Queria se esquecer do passado e sobre o romance que publicou, O Barão Enlouquecido e Srta. Finch. Mas, Henrietta não queria se esquecer. De maneira alguma. Aquela história era sobre lorde Klyne. Sobre suas depravações e aquilo era pessoal. Ainda mais agora, que ele havia a beijado, pela segunda vez. A primeira vez, bem, aquilo era algo que ela queria esquecer para sempre. Quando pensou que ele poderia se apaixonar por ele. Henrietta se debruçou sobre a escrivaninha e acendeu a vela. O quarto ainda não estava iluminado com a luz do sol. Faltava uma hora para o sol nascer e ela precisava de luz para continuar a escrever. Seria uma continuação do livro de Anne. Sua amiga havia começado, mas parou, pois não conseguiria levar aquilo adiante. Mas, Henrietta iria continuar. Seria forte pelas duas. Klyne tinha que ser exposta. Sem essa história de que ele teria rendição. Não mesmo. Ele seria exposto como o homem que era. Sem caráter e vil. E dessa vez, uma personagem seria adicionada. E ela iria quebrar o coração do barão. Iria deixá-lo na miséria. Henrietta riu consigo mesma e percebeu o quanto era perversa. Mas, ele merecia aquele fim, é claro. Acabado e sem um tostão. E como todos seus segredos expostos. Nunca mais seria respeitado por ninguém. Não lorde Klyne é claro, mas o barão. Contudo, ele saberia que a história era sobre ele. E ela se sentiria vingada. ♫ 05 junho de 1850, baile de verão na mansão do conde e da condessa de Derby, Mayfair Se existisse algo pior do que valsar, era ouvir a filha dos Derby cantando ao piano. Ela tinha uma voz terrível e irritante. Henrietta se sentia enjoada. O salão estava abafado, mesmo com as janelas abertas. E o som da voz dela, ecoando, era desagradável. Havia poucos convidados dentro da sala de música, enquanto um baile ocorria no salão principal. Henrietta era obrigada a estar ali, devido a sua tia Pope. Ela era próxima da família Derby e queria que Henrietta conhecesse os filhos gêmeos deles. Jonathan e Colin. Os dois eram bonitos, de cabelos escuros e olhos azuis intensos. Eram belíssimos e qualquer dama que se casassem com um deles, seria afortunada. É claro que Colin era o herdeiro, pois nascera algumas horas antes de Jonathan. Mas, a dama que se casasse com o outro irmão, seria afortunada de modo igual. Contudo, Henrietta não estava interessada em um nenhum deles. Por isso, escapuliu para fora da sala de música, quando sua tia se distraiu. Ela andou pelos corredores, procurando os jardins ou a toalete. Qualquer um dos lugares iria servir. Queria sumir, de qualquer forma. Conversara com Colin Harris, filho do conde Derby por alguns minutos e se sentiu intimidada. Ele era um libertino, com toda certeza. E não parava de lançar olhares insinuantes para seu decoto. Maldita hora que deixou sua tia vesti-la, com aquele vestido rosa e com decote baixo. Odiava aquelas saias volumosas atrás, a deixando parecendo um bolo coberto de glace. E odiava o penteado ridículo que estava usando, cheio de cachos saltitantes. As luvas brancas pinicavam e ela as tirou com rispidez. Finalmente encontrou a saída para os jardins e não havia ninguém ali. Respirou fundo e procurou um banco para se sentar, mas parece que já havia alguém ali. E risadinhas ecoaram pelo ar. Ela congelou, mas tratou de se esconder atrás de uma árvore. O casal de enamorados passou e ela pode ver os cabelos loiras da condessa de Derby e estava acompanhada de outro homem, que não era seu marido. Henrietta se odiava por ter testemunhado a traição dela. E faria de tudo para esquecer aquilo. Sentiu uma mão sobre sua cintura e depois, outra, cobrindo sua boca. Ela começou a se mexer, em pânico. Quem poderia ser? Que estupida fora por ter saído. Agora seria violada. Por Deus! - Fique quieta – uma voz rouca disse, em seu ouvido – Não quer que ninguém nos veja aqui, quer? Ela assentiu. Logo o casal entrou na mansão e o cavalheiro, se é que ela poderia chamar assim, a saltou. Ela se virou e pode ver quem era. Era um cavalheiro distinto. Muito bonito, de cabelos escuros. Os olhos ela não saberia dizer, pois estava escuro naquela parte do jardim. - Quem é o senhor? – ela perguntou, ríspida – E por que fez isso? - A senhorita iria esbarrar em mim e iria gritar, com certeza – ele justificou, com ironia – E ficaríamos em uma situação terrivelmente embaraçosa. A senhorita, por estar aqui, eu por estar me esgueirando e a condessa Derby por estar traindo seu marido. Vê como a situação é desagradável? Henrietta assentiu. Seria terrível estar ali, vendo isso. Sua reputação estaria em frangalhos e teria que encerar a mulher adultera. - Eu compreendo isso. Mas, o que fazia se esgueirando aqui? – perguntou. - A senhorita é muito curiosa – ele zombou – Mas, se quer saber, estava apenas precisando refrescar minha mente e fugir de algumas pessoas. E então, esses dois idiotas vieram para cá. Não poderia anunciar minha presença, é claro. Aliás, saber o que a condessa Derby faz, me dará algumas vantagens. - Que vantagens? – ela perguntou, horrorizada – Como pode querer se beneficiar com isso? É c***l, é vil... - É uma questão que só diz respeito a mim – ele cortou, com sarcasmo – E a senhorita não deveria estar aqui. Deve voltar imediatamente. Henrietta não queria voltar. Não para aquele baile horrível, com homens que diziam palavras dúbias e insinuações. Eles a devoravam com os olhos e não paravam de olhar para seu decote. Era algo que não suportava mais. Além dos comentários sobre seus cabelos serem a cor do pecado. E tão escandalosos. Ela tinha culpa por ter nascido ruiva? Isso dava o direito de ser vista de forma tão lasciva? Odiava aquela sociedade. Odiava profundamente aqueles bailes. E para seu horror, teria que se casar com algum daqueles cavalheiros que vira e dançara. - Não, senhor. Ficarei aqui mesmo – ela disse, veemente – Pode sair o senhor, para que não haja mau entendido. Ele riu, sarcástico. - Eu não vou sair, tão pouco, senhorita. E aqui não é o local ideal para se estar. Poderiam pensar m*l de ti, poderiam pensar que quer ser beijada – ele provocou e enroscou os dedos em um cacho solto do penteado dela. Ela ofegou pela proximidade – E não quer que pensem isso, quer? - Eu não dei a entender que quero ser beijada – ela disse, com a voz entrecortada. Ele deu um passo a frente, fica muito próximo dela. Ela se recostou contra a árvore, se sentindo atordoada. - Mas, se vem até o jardim, sozinha, é o que vão pensar – ele sussurrou, perto do rosto dela – É tão bonita. Tem o cabelo cor de mogno no escuro. Ninguém nunca havia a chamado de bonita daquela maneira. Aquilo a confundiu completamente. Ele estava flertando, por certo. Mas, ela não conseguia fazer sua mente funcionar. Era como se a presença daquele estranho a enfeitiçasse. - O senhor está perto de mais – ela sussurrou – Precisa se afastar. - É mesmo? – ele provocou, tocando o rosto dela, de leve. Ele não usava luvas. Que cavalheiro não usava luvas. A pele dele contra sua bochecha causa um comichão. E arrepios. Estava sendo tentada por ele, por Deus – Eu não vejo você se afastar, como uma dama inocente, aos gritos. Parece muito feliz aqui, comigo. E gosto de tê-la aqui. - O senhor é um libertino – ela acusou, com a voz fraca – Conheço tipos como o senhor. - Conhece? – ele perguntou, zombeteiro. Dessa vez seu dedo deslizou pela bochecha dela e desceu até o pescoço. A mão dele inteira estava sobre a base da garganta dela. Sua pulsação acelerou – Não acredito que conheça, senhorita. Afinal, nunca me conheceu, então não posso afirmar que é familiarizada conosco, os libertinos. - Por acaso vocês têm um clube secreto? – ela perguntou, em tom debochado – Não sabia disso. - Ó, sim, nós temos – ele devolveu, com um sorriso ferino – Se tivesse cruzado com um de nós, eu saberia. Mas, a senhorita é uma flor a desabrochar, não é? Uma dama recém-saída das salas de aula. Henrietta queria mostrar que não era uma dama inocente. Não gostou do comentário acido dele. Mas, o que dizer para um homem como ele? - O senhor é desrespeitoso – ela acusou – Se afaste agora. - Então, me empurre – ele provocou – Não estou vendo a senhorita protestar. Ela bufou. Não queria encostar nele. Estava paralisada. Mas, foi o que fez. O empurrou com suas mãos enluvadas, sobre o peito dele. Ele se afastou, retirando a mão da base da garganta dela e a puxou pela cintura. Os dois estavam muito próximos. E ela sentiu o hálito dele sobre o rosto dela. O cheiro de charuto exalava dele. - O que está fazendo? – ela indagou, irritada – Solte-me. Ele beijou o rosto dela, ainda a prendendo pela cintura. Seus braços envolviam-na, deixando-a a presa contra o peito dele. - Acho que não. Eu gostei de você – ele disse, com a voz rouca – Eu a vi dançar no salão. É formosa. Não dancei com a senhorita, nem fomos apresentados. Mas, ter a oportunidade de conhecê-la é algo que não está sendo entediante. Ela tentou se soltar e conseguiu. Ficou o encarando com raiva. Como ele se atrevia a abraçá-la daquela maneira, com tanta i********e? - Não se aproxime de mim, nunca mais – ela disse, com a voz tremula. Ele se aproximou, erguendo o queixo dela, com um dedo. Os olhos deles pareciam escuros demais. Um olhar intenso que a assustava. - Eu não poderia me afastar. É a dama mais bela que já vi – ele disse, sem qualquer tom de zombaria ou escarnio – Começamos tudo errado. E peço seu perdão. Ele pegou a mão dela, que estava cerrada contra o corpo. Beijou o dorso dela e se afastou. - Sou Robert Vaine, ao seu dispor – ele disse, com um sorriso insolente, fazendo uma reverência. Ela não pode deixar de sorrir diante disso. Ele parecia um cavalheiro dessa vez, apesar da sua forma de ser tão zombeteira e selvagem. - Eu não sei se posso perdoá-lo, senhor Vaine – ela disse, testando o nome dele. Gostou do som do seu nome. - Que tal uma dança? – ele sugeriu – Posso dançar com a senhorita e lhe fazer companhia. Ela não sabia se deveria aceitar ou não. Ele não se portava como um cavalheiro. Era muito intenso e com poucos modos. - Uma dança? – ela repetiu. Ele assentiu, com os braços cruzados – Bom, uma dança então. Mas, não quero nada de proximidade, como fez agora, meu senhor. E seja cavalheiro. - Serei o mais cavalheiro de todos, senhorita...? – ele perguntou. - Senhorita Henrietta Harrison – ela respondeu. Esperou que ele zombasse do seu nome, mas não o fez. - Henrietta? – ele perguntou – Esse nome é... - Masculino, eu sei – ela disse, desanimada. Odiava esse nome. Não gostava mesmo. - Eu iria dizer exótico. Mas, bem é masculino. Mas, é combina com seu modo impetuoso - ele disse, com humor. Ela estava ficando ruborizada com os modos dele e talvez, estivesse gostando de estar em sua companhia. - Eu preciso voltar, senhor - ela disse, preocupada que alguém os visse ali no jardim. - É claro - ele disse, fazendo uma reverência para ela - Vá primeiro, depois eu a acompanharei. E farei o possível para sermos apresentados. Gostaria que reservasse a valsa para mim. Ela sentiu a arrogância em sua voz ao pedir que ela reserva uma dança. Era tão ultranjte. Mas, ao mesmo tempo, era excitante conhece-lo. Nunca esteve na companhia de um libertino. - Sim, senhor. Irei reservar a sua dança. Ela fez uma pequena reverência e saiu dos jardins, voltando para dentro do salão. E estava com o coração ansioso para saber mais sobre Robert Vaine.
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