Capítulo 3- Nando — O Dono do Salgueiro

1139 Palavras
Nando não nasceu temido. O respeito que carregava hoje não veio de herança, sorte ou privilégios. Foi conquistado com sangue. Muito sangue. Ainda menino, aprendeu que o mundo não tinha espaço para os fracos. Sua infância terminou cedo demais. Ele tinha apenas quatorze anos quando viu a sua vida desmoronar diante dos próprios olhos. Sua mãe era tudo o que ele tinha. A única pessoa que o amava de verdade. Mas ela escolheu o homem errado para dividir a vida. Um aviãozinho do tráfico. Um covarde. Um viciado que afundava cada vez mais no próprio vício. No começo vieram os gritos. Depois as ameaças. Então as agressões. Nando assistiu tudo em silêncio. Guardando dentro de si uma revolta que crescia dia após dia. Até que chegou a noite que mudou tudo. A noite em que aquele verme tirou dele a única pessoa que importava. A noite em que sua mãe morreu. Naquele dia, algo morreu dentro de Nando também. As lágrimas secaram. A dor virou ódio. E o menino desapareceu para sempre. Poucos dias depois, o padrasto foi encontrado morto. Ninguém fez perguntas. Ninguém procurou respostas. Mas Nando sabia. Ele havia feito justiça com as próprias mãos. E não sentiu remorso. Nem por um segundo. A partir daquele momento estava sozinho no mundo. Sem família. Sem proteção. Sem ninguém. Mas enquanto muitos teriam se perdido, Nando encontrou um propósito. Chegar ao topo. Custasse o que custasse. Os anos passaram. E o garoto órfão virou homem. Um homem frio. Calculista. Perigoso. Enquanto outros buscavam atalhos, traíam aliados ou vendiam amigos para crescer, Nando escolheu outro caminho. A lealdade. Nunca entregou ninguém. Nunca mudou de lado. Nunca quebrou a sua palavra. E justamente por isso chamou atenção do comando. Homens poderosos observavam os seus passos. Sua postura. Sua inteligência. Sua capacidade de tomar decisões difíceis sem hesitar. Nando não tremia. Não recuava. Não demonstrava medo. Quando chegou a hora da escolha, o seu nome foi o único cogitado. Ele não pediu o cargo. Foi escolhido para ele. Porque alguns homens conquistam respeito. Outros nascem para comandar. E Nando era um deles. Agora, anos depois, seu nome era lei dentro do Salgueiro. Todos sabiam disso. Amigos o respeitavam. Inimigos o temiam. Quem ameaçava seu morro desaparecia. Quem colocava moradores em risco respondia por isso. Quem ousava desafiar sua autoridade descobria rapidamente por que ele era considerado um dos homens mais perigosos da região. Nando governava com punho de ferro. Sem piedade. Sem exceções. Mas também sem injustiça. O Salgueiro era sua casa. Seu reino. Seu legado. E ele protegeria cada viela daquele lugar até o último suspiro. Talvez fosse por isso que as pessoas o seguiam. Porque por trás da frieza existia um código. Uma honra que poucos conseguiam enxergar. Mas havia uma coisa que Nando nunca conseguiu recuperar. A capacidade de amar. Ele simplesmente não acreditava no amor. Para ele, sentimentos eram fraqueza. Uma distração. Um erro. Mulheres nunca faltaram em sua vida. Bastava um olhar. Um gesto. Um convite. Mas nenhuma permanecia. Porque Nando não permitia. Ele não prometia. Não sonhava. Não se entregava. As mulheres passavam por sua cama. Jamais por seu coração. E isso nunca foi um problema. Até porque ele enxergava as pessoas melhor do que elas enxergavam a si mesmas. Nando observava olhares. Gestos. Silêncios. Mentiras. Verdades. Ele conseguia perceber intenções escondidas atrás de sorrisos. Reconhecia traições antes mesmo que acontecessem. E talvez fosse exatamente isso que o tornava tão perigoso. Nada escapava da sua atenção. Nada. Havia quem o chamasse de monstro. Havia quem o chamasse de rei. Nando não se importava com nenhum dos dois. As opiniões dos outros nunca colocaram comida em sua mesa, nunca enxugaram suas lágrimas quando era apenas um garoto abandonado e muito menos o ajudaram a sobreviver. Por isso aprendeu cedo a depender apenas de si mesmo. O topo era solitário. E ele gostava assim. Enquanto muitos homens precisavam de companhia para dormir, Nando apreciava o silêncio. Enquanto outros buscavam amor, ele buscava controle. Era mais seguro. Muito mais seguro. Sentimentos confundiam as pessoas. Faziam homens fortes cometerem erros. Faziam líderes perderem guerras. Ele já tinha visto isso acontecer inúmeras vezes. Traficantes poderosos destruindo impérios por causa de mulheres. Amigos vendendo amigos por paixão. Homens que pareciam invencíveis sendo derrubados por um coração apaixonado. Nando observou tudo. Aprendeu com os erros dos outros. E jurou que nunca pisaria naquela armadilha. Por isso mantinha distância. Por isso nunca prometia nada. Por isso nenhuma mulher conseguia permanecer em sua vida. Fabi era apenas mais uma entre tantas. Bonita. Vaidosa. Ambiciosa. Mas previsível. Assim como todas as outras. Ela acreditava que um dia o faria mudar. Que seria a escolhida. A mulher capaz de conquistar seu coração. Mal sabia ela que aquele coração havia sido enterrado junto com sua mãe anos atrás. Nando não pertencia a ninguém. Nem nunca pertenceria. Pelo menos era isso que repetia para si mesmo todas as noites. De pé na varanda de sua cobertura, observou as luzes do Salgueiro brilhando na escuridão. Lá embaixo, famílias jantavam. Crianças brincavam. Casais faziam promessas de amor. A vida seguia seu curso. E ele continuava ali. Sozinho. No topo. Protegendo tudo aquilo. À sua maneira. Talvez ninguém percebesse, mas cada decisão difícil que tomava tinha um motivo. Nando jamais permitiria que outra criança passasse pelo que ele passou. Jamais permitiria que o Salgueiro fosse dominado pelo medo que um dia destruiu a sua família. Era por isso que matava quando necessário. Era por isso que não demonstrava fraqueza. Era por isso que o morro o respeitava. Porque mesmo sendo frio, todos sabiam que ele daria a própria vida pelo Salgueiro. O que Nando ainda não sabia era que o destino estava prestes a colocar alguém no seu caminho que não o enxergaria apenas como o chefe. Nem como o criminoso. Nem como o homem mais temido da comunidade. Pela primeira vez em muitos anos, alguém veria além da armadura. Além da fama. Além do poder. E isso seria muito mais perigoso do que qualquer guerra que ele já enfrentou. Porque balas e inimigos ele sabia combater. Mas um coração começando a sentir novamente... Era uma batalha que Nando jamais havia aprendido a vencer. Era assim que mantinha o controle. Era assim que continuava no topo. Era assim que se tornara o dono do Salgueiro. Um homem que não acreditava em amor. Um homem que jamais permitiria que alguém se aproximasse o suficiente para magoá-lo novamente. Pelo menos era o que ele pensava. Porque o destino costuma rir das certezas dos homens. E muito em breve, uma garota de olhos castanhos e coração teimoso cruzaria o seu caminho. Uma garota que não fazia ideia do caos que estava prestes a provocar. E que sería a única capaz de despertar algo que Nando acreditava ter enterrado anos atrás. Para sempre. 🔥❤️
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