Conflitos Internos

1492 Palavras
*Ponto de Vista de Lian* Me recostei na cadeira depois de falar com o tal Giovanni e então fiquei pensativo, me lembrando do que a minha madrinha Clara havia dito... Ela sabia de tudo! Ela estava lá! Essas palavras não paravam de ecoar na minha mente e nem a grande pergunta : "Por que mesmo sabendo de tudo ela pediu que justamente EU cuidasse da Helena?" A parte de que ela entendia que eu só tinha defendido a honra da Helena naquela noite está ok, eu entendo... mas de ela ter ouvido tudo o que aquele escrOto falou e não ter se importado, isso eu não compreendia...será que ela realmente não se importava com isso? Lembrei-me do cara gritando enquanto eu desfigurava seu rosto com socos. Ele gritava com todas as forças, seu olhar cheio de ódio, parte por estar apanhando e parte por me achar uma pessoa podre. —-Confessa Lian, você é apaixonado pela sua própria irmã...quem é mais sujo aqui? Essa cena nunca saiu da minha cabeça: o sangue escorrendo do nariz dele, minha mão moendo seus dentes, e o olhar de escárnio que ele me dirigia quando cuspiu aquelas palavras. Aquela cena me assombra até hoje, é a razão de eu ter simplesmente me fechado e me tornado uma pessoa que inspira medo nos funcionários do hotel, mesmo eu sendo apenas assistente do meu pai. Mas preciso voltar um pouco mais no tempo para que você entenda como chegamos até aqui. Quando chegou a época de eu e meus irmãos irmos para a escola, nunca fizemos questão de explicar que Helena era nossa irmã adotiva, na verdade, pensando bem, foi o contrário... nossos pais, por algum motivo, nos fizeram afirmar sempre que ela era nossa irmã e pronto...agora faz sentido...se Clara e André tem uma vida dupla, era mais seguro Helena ser conhecida como filha legítima da família Montez. Enfim, quando eu entrei no ensino médio e fui para o mesmo colégio onde Helena estudava, notei que ela se destacava por sua beleza única...seus olhos verdes, cabelo castanho e jeito delicado chamavam a atenção dos meus colegas que ficavam babando pela garota do terceiro ano. Tentei lidar com isso no começo, mas aquilo foi me consumindo de um jeito que eu não sabia explicar, não era apenas por eles estarem de olho na minha irmã... era como se eles estivessem mexendo com algo que me pertencia... e eu não conseguia entender aquela frustração. Observei que para Lewis, aquilo não era um problema tão grande, ele apenas ria e dizia que eles não tinham chance com ela, o que era verdade...já eu, me ofendia e cheguei a sair no braço com alguns deles, todo mundo dizia que eu era apenas mais protetor mas eu sabia que havia algo a mais mesmo que não soubesse explicar. Helena era minha confidente. Nós líamos os mesmos livros, conversávamos sobre tudo e passávamos horas juntos maratonando séries, algumas vezes até madrugadas inteiras. Lewis até tentava nos acompanhar, mas ele odiava ler. Seus interesses eram mais voltados para as artes, e ele normalmente dormia nos primeiros episódios das séries. Ele também tinha longas conversas com Helena, mas geralmente sobre seus interesses em comum, como obras de arte antigas. Eles inclusive frequentavam muitos museus e galerias, o que não era muito a minha praia. Das artes, eu gostava mais de música. Comecei a me incomodar cada vez mais com as investidas dos rapazes apesar de Helena ter dito várias vezes para eu não ligar pois ela tinha outros planos para o futuro, que não incluíam um namorado. Helena só não me contava, mas já havia planejado estudar fora assim que fizesse 20 anos. Ao mesmo tempo, eu não contava a ela o que dizia para os caras da escola, eu havia proibido meus amigos de se aproximarem dela e usei minha influência e popularidade na escola para impedir que os demais, que não eram meus amigos se aproximassem também. Foi um alívio quando Helena se formou, achei que estava tudo melhor, ela focou em uma graduação à distância de apenas três anos, justamente para terminar quando completasse seus 20 e pudesse ir pra tal escola internacional naquele intercambio que tanto sonhou, também fazia Moai Thai e até curso de culinária. Mas nem tudo é perfeito, um belo dia, há pouco mais de dois anos... ela voltava da sua aula de culinária e um cara da escola a abordou, eles tomaram um café e ele achou que podia forçar a barra com ela, o cretino a levou para um beco e estava pronto para abusar dela quando alguém gritou de uma janela e ela aproveitou a oportunidade para se desvencilhar dele com um chute e sair correndo. Mas ele havia machucado Helena, quando ela chegou em casa, seus braços estavam cheios de hematomas por causa da força com que ele a segurou, suas costas estavam feridas por ele ter a empurrado com força contra uma parede, sem notar que ali havia uma barra de ferro e havia um pequeno corte ao lado de seus lábios, aqueles lábios lindos dela...Ele havia machucado a minha princesa... quando a vi chegando em casa, apenas a abracei e ela desabou em prantos, antes mesmo de ela falar qualquer coisa, a raiva tomou conta de mim, eu queria acabar com a vida de quem havia machucado a minha garota. A levei para cima e ela pediu para ficar no meu quarto, fiquei abraçado com ela na minha cama, cuidando dela, acariciando seus cabelos, a mantendo em meu abraço e chorando sem ela ver. E foi então que percebi... naquele momento horrível... naquele abraço protetor... que eu amava Helena e não era um amor fraternal... ela era a MINHA HELENA e de mais ninguém... eu estava obcecado por ela, eu faria qualquer coisa por ela, eu mat@ria por ela... O sentimento veio como um soco no estômago, foi quando me afastei a deixando adormecida em minha cama e fui atrás do homem que havia feito isso com ela, eu o encontrei e o arrastei para o mesmo beco, o joguei na mesma parede, provoquei os mesmos ferimentos nele, que ele havia provocado na minha menina e então, não parei... eu talvez devesse ter parado, mas não consegui, havia sangue nos meus olhos, continuei dando socos nele até que ele gritou aquelas palavras que foram piores do que se ele tivesse me esfaqueado. ”Confessa Lian, você é apaixonado pela sua própria irmã...quem é mais sujo aqui?” Eu parei de bater por causa do susto e olhei para ele incrédulo, mas ele continuou a falar, vendo que tinha me desestabilizado. —Todo mundo sabe Lian, você é um esquisito que gosta da própria irmã... todos os caras da escola falavam disso pelas suas costas. —Cala a boca.- Esbravejei e desferi um último golpe que o fez desmaiar. Olhei para ele no chão, todo ensanguentado, com o nariz e os dentes quebrados, desacordado, desfigurado e pensei que tinha matado o infeliz. Saí correndo e fui para casa, entrando escondido pela janela do quarto de Helena, já que eu sabia que ela não estava lá. Tomei um banho antes de voltar para meu quarto, esperando que a água pudesse levar embora aquela sensação de que eu era horrível, sujo e nojento. Não importava o quanto eu batesse naquele cara, eu era pior do que ele, pois ele tinha razão. Eu queria Helena para mim. Aquela noite eu não dormi, fiquei sentado na poltrona do meu quarto apenas olhando para a garota na minha cama a quem eu nunca poderia ter. A família toda deu muito apoio à Helena, e na época não entendi como ela sabia que algo estava errado, mas até Clara apareceu "do nada" na nossa casa para visitar Helena no dia seguinte ao ocorrido. Me esforcei para dar apoio à minha irmã nos dias que se seguiram, mas ao mesmo tempo mantive distância. Não dormi mais com ela no sofá ou no quarto como fazíamos antes, pois agora seria muito esquisito. Também evitei abraçá-la ou ficar próximo demais, porque eu ficava extremamente confuso e ela estava passando por um momento tão delicado que precisava de alguém melhor por perto. Quem assumiu esse papel de estar ao lado dela foi Lewis. Ele inclusive a levou para viajar no final de semana seguinte; foram para Curitiba visitar a madrinha dele, Anne, e aproveitaram para visitar todos os museus que conseguiram, foi uma ótima distração. Quando ela voltou, já estava de viagem marcada e nem deu tempo de eu processar a informação de que ela ia embora. Quando ela partiu, a única parte boa de mim foi com ela. Helena era minha luz e, sem ela, me afundei em trevas, tornando-me uma pessoa fria e sombria. Para você ter uma ideia do tipo de aura que eu tinha, Lewis passou a me chamar de Batman. E, sinceramente, acho que isso realmente tinha muito a ver comigo e com essa minha nova versão sombria.
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