*Ponto de vista de Helena*
Abracei Clara assim que ela se aproximou e, juntas, nos acomodamos naquela acolhedora sala de estar. Hanna escolheu uma poltrona ao meu lado, enquanto meus pais se sentaram no amplo sofá à nossa frente.
— O que você lembra da sua infância, Helena? — Meu pai começou. — Antes dos Montez, quero dizer.
— Muito pouco... embora eu me recorde desta casa. Já estive aqui antes? — indaguei, curiosa.
— Sim, você esteve, quando foi resgatada. — Meu pai falou.
— Eu não consigo processar tudo agora... mas o fato da minha mãe biológica ser envolvida com a máfia e eu ter sido sequestrada tem alguma conexão?
— Sim, mas queremos te contar a história toda, Helena. Já chegou a hora, é importante você saber do passado antes de poder fazer as escolhas para seu futuro. — Clara falou sabiamente.
— Está bem... — falei, me recostando na poltrona e aguardando a longa história que viria a seguir.
— O dia que sua mãe me contou que estava grávida, eu estava na França, havia terminado um curso de gastronomia, aquele que fiz com o Leo, lembra?
— Sim, lembro de vocês tanto se gabarem desse curso. — falei sorrindo e ele sorriu de volta com carinho.
—Pois então, após o curso eu havia sido convidado a ficar na Europa para uma especialização, me deram um endereço para comparecer se eu tivesse interesse e eu fui...—Ele fez uma pausa como se estivesse recordando daquele dia.— Fui no endereço que haviam me passado para a especialização e na verdade era um prédio sem porteiro, entrei e fui em direção à sala 203 que também estava vazia, pensei que tinha caído num golpe até que um homem veio na minha direção me cumprimentando, ele explicou que o curso não era exatamente o que eu imaginava.
—Era a agência te recrutando?—Perguntei logo ligando os fatos.
—Sim, exatamente e eu estava inclinado a aceitar a proposta, mas ainda precisava avaliar todas as possibilidades. Além disso, precisava terminar o namoro com a garota francesa que conheci no Brasil antes de vir fazer o curso aqui. Nós namorávamos há alguns meses, o que foi o meu recorde com uma garota, mas ela vivia viajando, então não era nada grudenta. Mesmo ela sendo incrível, esse novo trabalho seria algo só meu, e eu não poderia me apegar a ninguém.
—Nisso somos muito parecidos, eu também não quis me apegar a ninguém quando decidi vir para a escola—Terminei a frase com um nó na garganta, falar da escola ainda me fazia sentir um sabor amargo, como se eu tivesse fracassado.
Meus pais se olharam por um instante, depois olharam para Hanna que só abaixou a cabeça visivelmente frustrada... o que será que eles estavam escondendo de mim? Eu esperava descobrir nessa conversa de alguma forma, ainda que fosse por meio das expressões corporais e faciais deles.
—Pois então... antes de me decidir, encontrei com a garota “francesa” perto da ponte dos cadeados (que na época ainda tinha os cadeados), e notei que ela havia chorado muito. Perguntei o que havia acontecido e ela me contou que estava grávida... me implorando para proteger a garotinha que ela estava esperando. Foi quando ela me contou que estava fugindo da máfia albanesa, pois havia se negado a trabalhar com tráfic0 de mulheres e desertado, mas eles cobrariam essa dívida, ela me disse que assim que a criança nascesse, iam roubá-la e cria-la como uma mulher da máfia.
—É uma história e tanto...- Ponderei.
—E esse é apenas o começo.—Clara falou pensativa e um pouco apreensiva então meu pai continuou.
—Decidi aceitar imediatamente o tal treinamento, se tinha um jeito de eu aprender a proteger minha filha era sendo um espião treinado, não é mesmo? —Ele fez outra pausa respirando fundo—Meia hora depois, um carro me buscou no hotel e minha vida de espião começou. Parecia que tudo ia dar certo e, no final de dois meses de curso, eu estava mais forte tanto fisicamente quanto psicologicamente, pronto para proteger minha pequena, a quem eu já amava.
—Foi quando nos conhecemos, eu dava aulas nesse curso intensivo do qual seu pai participou.— Hanna completou.
—Então foi onde vocês dois se conheceram também?— Perguntei para Clara.
—Na verdade não... nos conhecemos no Hotel Rubi anos depois, eu era enfermeira e ele Chef lá no hotel e nenhum sabia sobre o envolvimento do outro com a agência.
Olhei surpresa para eles que sorriram.
—Já chegamos nessa parte, mocinha—meu pai sorriu para Clara e depois para mim— Continuando...Recebi a mensagem para encontrar sua mãe Estelle em uma casa no sul da França. Na verdade era bem perto daqui. Fui até lá e você já havia nascido. Você era linda, perfeita, e seu sorriso ganhou meu coração logo no primeiro minuto. Perguntei por Estelle, mas o médico avisou que ela não havia sobrevivido. Fui até o quarto e a vi ali. Ela tinha feito uma cirurgia arriscada sem os devidos equipamentos para si, só para garantir que você tivesse todo o cuidado necessário. Havia até uma UTI neonatal naquela casa, mas não havia o básico para salvar a vida da sua mãe. Entendi que ela preferiu entregar a vida dessa forma do que perecer nas mãos da máfia. Entendi também que, com ela morrendo ali, seria mais difícil de encontrarem você.
—Meu Deus— Falei emocionada com aquela revelação.
—Sua mãe te amou muito, querida.—Clara falou.—Ela fez tudo para que você tivesse a chance de ter uma vida normal.
— segurei você nos braços pela primeira vez alguns dias depois, e a emoção foi indescritível. Precisei chamar um agente e contar toda a história. O pessoal da agência me ajudou a levá-la para o Brasil e registrá-la em um cartório como se tivesse nascido lá. Também arrumei uma pessoa que aceitou cuidar de você numa pequena cidade do interior, e assim você estava protegida, pelo menos por um tempo.
—É muita coisa, pai.—Falei.
—Só que tem muito mais...Quando fui ativado como agente e aceitei o emprego no hotel para estar em Belo Horizonte, fui procurado por uma mulher chamada Emily. Ela fingiu ser da agência e sabia tanto sobre mim e sobre você que eu acreditei que fosse realmente da agência. Mas era uma armadilha. Emily era uma agente infiltrada de uma agência inimiga, um sindicato do crime ou algo assim. O pior é que ela ameaçou entregar você para os albaneses se eu não lhe desse todas as informações possíveis sobre Kevin, a fortaleza e outras coisas que precisasse. Foi assim que me tornei um agente duplo.
—Inacreditável... você? Agente duplo?
—Pois é... e foi na mesma época que me apaixonei por uma enfermeira que eu não fazia ideia, mas também tinha uma conexão com a máfia albanesa.