03

2347 Palavras
Dulce Aquele foi o meu primeiro contato com a nobreza sem fins comerciais. Daniel era o primeiro guarda real que falava comigo sem ser em tom de superioridade. E se eu não me colocasse em meu devido lugar, poderia jurar que ele me cortejou.  Comecei a ajudar a minha mãe a preparar as tortas de maçã e enquanto mexia na massa, não parava de pensar em Daniel e na forma gentil com a qual me tratou. Não sei ao certo o que era, mas ele tinha algo diferente em si, algo especial. Me transmitiu uma boa energia.  — Querida? — minha mãe me chamou.  — Sim?  — No que está pensando? Parece que o seu pensamento está longe.  — Nada demais... apenas tentando imaginar o que está acontecendo no baile agora.  — Por que não para de sonhar com o castelo? — pousou a mão em meu rosto. — Aquelas pessoas estão muito longe da nossa realidade. — eu assenti e voltei ao que estava fazendo.  Nós assamos as tortas e a lenha faltou. Tive que ir comprar mais e sabia que mesmo já estando de noite, Ronald não se recusaria a me atender.  Vesti uma capa de frio, peguei o lampião e saí pela aldeia até chegar à cada dele. Bati duas vezes na porta, que foi aberta bem depressa.  — Dulce! Que maravilhoso é te ver! — ele disse, com um grande sorriso.  — Eu preciso de um pouco de lenha, se não for te incomodar.  — Você nunca incomoda. Vamos, queira entrar. — ele deu espaço e eu entrei em sua casa. — Está com sorte, eu fui hoje cedo até o bosque coletar madeira fresca. Essas vão queimar bem rápido! — ele pegou seu carrinho de mão e me olhou. — De quanto precisa?  — Seis toras.  — Ok! — as empilhou no carrinho. — Eu a acompanho até em casa. — eu assenti e nós saímos para a rua. — A capa que está usando é nova?  — Sim, minha mãe a terminou a poucos dias. É a primeira vez que estou usando.  — Com todo o respeito, está mais linda do que nunca.  — Obrigada. — eu sorri de lado. Seria um longo caminho de cortejos por parte de Ronald.  — Amanhã tomarei conta da livraria, deixo você pegar quantos livros quiser.  — Isso seria muito gentil. — os livros não tinham preços muito acessíveis, então quando Ronald cuidava de lá, sempre me deixava pegar livros para devolver depois.  — Você sabe que eu faço qualquer coisa pra que seja sempre feliz. — dei graças a Deus quando chegamos até minha casa.  — Obrigada, Ronald! — abri o saquinho de moedas preso em minha cintura e peguei algumas.  — Não, é por minha conta. — ele disse.  — Tem que parar de me dar madeira de graça, desse jeito irá falir!  — Besteira. Eu abasteço a aldeia inteira, sustento apenas a mim e ainda ganho bem cuidando da livraria. O seu dinheiro não vai me fazer falta.  — Não pode me tratar de forma especial só porque gosta de mim.  — Eu não gosto de você, eu sou apaixonado por você.  — Ronald... — cocei a nuca.  — Eu sei, não precisa repetir a história do "somos amigos desde a infância", isso não vai mudar nada. — eu fiquei em silêncio. Ele deixou as toras perto da porta de entrada. — Tenha uma boa noite, Dulce. — sorriu.  — Boa noite, Ronald. — eu sorri também.  Depois de uma longa noite de sono, eu acordei bem cedo pela manhã para ir até o rio lavar algumas roupas. Angelique me garantiu que cuidaria bem da venda sem mim e mesmo sabendo que ela se distraía com facilidade, eu confiava nela.  Fui andando por entre as árvores até chegar ao rio. O barulho da cachoeira era um dos sons que eu mais gostava de ouvir e que mais me acalmavam.  Quando me aproximei da margem, notei que haviam algumas vestes masculinas postas sobre uma rocha, além de botas de couro preta e uma bainha com uma espada dentro. A espada tinha um cabo cravado de pedras preciosas e eu fiquei muito tentada a toca-lo.  Aproximei meus dedos em direção à espada, pronta para tocar em joias reais pela primeira vez em toda a minha vida.  — Cuidado, ela é bem afiada! — uma voz gritou de dentro do rio e eu me assustei, dando um pulo para trás. — Acho que eu já te assustei vezes demais! — deu risada.  Daniel estava dentro do rio e pelo que eu podia perceber, não tinha nada cobrindo o seu corpo agora. Ele começou a se aproximar da margem e a medida que caminhava, a água ia baixando, deixando tudo à amostra. Parecia que ele nem se importava que eu estivesse vendo ele despido.  E quando ele saiu, mostrando bem mais do que eu esperava ver, arregalei os olhos e dei as costas muito rápido, sentindo meu rosto inteiro corar de vergonha.  — Não precisa ter vergonha, eu não me incomodo que me veja assim. — falou.  — Mas eu me incomodo! — cruzei os braços.  — Tudo bem, já estou me vestindo. — pude ouvir ele mexer em suas roupas, ficando em silêncio por alguns segundos. — Pronto, já pode se virar.  Eu me virei devagar e fiquei aliviada ao vê-lo vestido, terminando de fechar os botões de sua camisa, que não era tão fina quanto a que usava na noite anterior, mas ainda parecia luxuosa demais, com as ombreiras douradas e todos os detalhes brilhantes.  — Por que sua espada tem joias no cabo? — considerando que era somente um guarda, era um pouco improvável ter esse tipo de riqueza.  — Foi um presente do príncipe. Nós somos muito amigos. — foi rápido na resposta. — E antes que pergunte sobre as minhas roupas, eu gosto de me vestir bem, não economizo.  — Entendi. — eu desviei o olhar e cocei o meu braço. A forma como ele me olhava estava me deixando um pouco constrangida. — Hum... como foi o baile? — eu precisava quebrar aquele silêncio.  — Cansativo como todos os outros.  — Não gosta dos bailes reais?  — Eu detesto. As pessoas ficam andando pra lá e pra cá como se seus pés não tocassem o chão, falando como se seus lábios fossem quase petrificados, além de que quase ninguém come. Toda a comida é só enfeite e acaba sendo desperdiçada.  — Nossa... eu sempre imaginei que um baile fosse a coisa mais emocionante do mundo. — a realidade era um pouco decepcionante.  — Eu gostaria que fosse um pouco mais verdadeiro e animado. É uma pena que eu seja obrigado a frequentar... porque eu sou da guarda. — sorriu sem mostrar os dentes.  — E o príncipe? — eu queria muito poder saber como ele era. — Ele é legal?  — Não se preocupe, ele será um excelente rei, eu te garanto. É tão bondoso quanto o rei Victor.  — Isso é aliviador, mas não era bem essa a minha curiosidade... — coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha.  — Pode perguntar qualquer coisa sobre ele.  — Tudo bem... ele é... cavalheiro? — Daniel abriu um sorriso divertido, mostrando já saber as minhas intenções.  — Já me disseram que todas as moças do reino sonham com o príncipe, desde as aldeãs até as mais nobres. Acredite, Dulce, se ele aparecesse em sua frente e lhe dissesse que não é príncipe e que tem outro nome, você acreditaria. Ele não tem nada de especial.  — Decepcionante... — eu ri.  — Todas as pessoas são um pouco. — usando uma pequena faca tirada de seu bolso, ele cortou uma das rosas que desabrochavam por entre as rochas. — Tão bonita quanto você. — me ofereceu e eu a peguei com cuidado. — Não sonhe com príncipes e castelos, Dulce. Toda essa imagem não significa nada. Todos somos iguais, temos defeitos, qualidades, medos, sonhos... as posses e as nomeações são meros detalhes. — eu conseguia identificar sinceridade em suas palavras. A humildade de Daniel era admirável, diferente de todos os outros nobres que conheci ao longo da minha vida. Ele tinha uma visão de humanidade tão bela e confesso que um tanto quanto atraente.  Nós nos encaramos em silêncio e eu analisava todo o seu rosto, desde seus olhos até seus belos lábios rosados que formavam uma curva pequena, num sorriso fraco e gentil. Estaria eu encantada por ele? Mas eu m*l o conhecia!  — Vejo que está ocupada, eu vou lhe deixar em paz agora. — ele chegou mais perto e aproximou seus lábios do meu rosto. Fiquei completamente estática ao sentir o beijo que foi depositado em minha bochecha. — Talvez os meus cortejos sejam um pouco atrevidos. — riu.  — Está me cortejando? — fiquei boquiaberta. — Você achou que não? — franziu a testa.  — Olha pra você, suas roupas, suas botas e até a espada que usa. Acha mesmo que eu pensaria que alguém como você iria me cortejar?  — Por que se subestima tanto? Qualquer um não pararia de pensar em você se te visse de perto.  — Não parou de pensar em mim? — arqueei as sobrancelhas. Daniel se aproximou do meu ouvido e eu me arrepiei ao sentir sua respiração.  — Nenhum segundo. — sussurrou. — Tenha um bom dia, Dulce. — ele sorriu, afastando-se. — Deveria vir buscar mais maçãs à tarde. Elas estão belíssimas.  — Isso é um convite para me ver de novo? — falei um pouco mais alto, já que ele estava longe.  — Talvez... — deu uma piscadela.  Daniel montou em seu cavalo e se foi bosque a dentro. Eu continuei segurando a rosa entre minhas mãos e sorrindo, sem acreditar que aquilo estava acontecendo.  Eu sempre sonhei em viver uma história de amor como essas dos livros que eu lia. Daniel não era um príncipe de verdade, mas estava mais próximo da realeza do que qualquer um que eu conheça. E não apenas isso, ele era diferente. A humildade dele seria uma coisa que faria eu me encantar muito rápido.  Lavei todas as minhas roupas e as estendi nos fundos de casa quando retornei para a aldeia. O sol estava no alto, anunciando que já era meio dia.  Preparei algo para levar até a venda, para que minha mãe e Angelique comessem e antes de ir até lá, eu passei na livraria.  — Dulce! Que bela flor! — apontou para a rosa que eu havia colocando atrás da orelha.  — Obrigada! As margens do rio estão cheias de rosas. — sorri. — Você parece radiante!  — Talvez eu esteja um pouquinho feliz demais. — eu ri. — Meu dia começou bem, só isso.  — Isso me deixa muito contente!  — Já posso escolher os livros?  — Quantos quiser!  Peguei três livros, os coloquei na minha bolsa, me despedi de Ronald e segui até a venda. Fui cumprimentando todas as pessoas que passavam por mim, até ganhei uma bela maçã vermelha de uma senhorinha que estava vendendo frutas.  — Bom dia! Bom dia! Eu trouxe comida para vocês! — eu disse entrando.  — Que bom! Estou morta de fome! — Angelique se esquivou sobre o balcão onde eu deixei a parte dela.  — Aqui está mamãe! — coloquei o de minha mãe sobre a máquina de costura onde ela trabalhava.  — E as roupas?  — Já estão secando no varal.  — Dulce... — Angelique me chamou. — Olha! — um cavaleiro se aproximava, montado em um cavalo preto. Ele parou em frente à venda, desceu e entrou. — Bom dia! — Angelique disse. — Bom dia! Eu vou ser rápido. Acompanharei o rei Victor em um baile em outro reino. Preciso estar devidamente vestido. O que me sugerem?  — Eu tenho tecidos excelentes para esse tipo de ocasião. — eu disse, saindo de trás do balcão e indo direto para os tecidos que ficavam expostos. — Esse é feito com cem mil fios de seda do reino de Scarfim, sua cor azul escura é tinginda com... — ele me interrompeu.  — Eu vou levar.  — Ok, são seis moedas de ouro e duas de prata.  — Vinte moedas de ouro se a senhorita me disser o seu nome. — sorriu de lado. Outro nobre me cortejando? Que diabos estava acontecendo?  — Deus, responda! — Angelique gritou para mim.  — Dulce. — eu disse.  — Edgar. — ele pegou o saquinho com as moedas e me entregou. — Alguém já lhe disse que é a aldeã mais bela do reino?  — Obrigada. — eu sorri sem olhar para ele, já fazendo o corte do tecido.  — Vocês também costuram? Eu gostaria de provar o corte que fazem aqui. Os alfaiates são muito repetitivos.  — A minha mãe costura, só dizer para quando precisa.  — Daqui a cinco dias, uma camisa e uma calça para baile.  — Ótimo, eu vou te levar até a minha mãe para que explique os detalhes. — o levei até os fundos, onde ele passou alguns minutos conversando com a minha mãe, prometendo voltar no dia seguinte para avaliar os desenhos que ela iria fazer.  — Ótimo atendimento, Dulce! — elogiou quando o acompanhei até a porta.  — Obrigada. — sorri.  — Creio que o príncipe já esteja me esperando para treinarmos, tenho que me apressar.  — E o Daniel? O conhece? — eu tinha que perguntar. — Daniel? — franziu a testa.  — Ele é da guarda também. O conheci ontem no bosque e conversamos hoje de manhã no rio.  — No rio? Ele estava nadando? — me olhou de relance.  — Sim. Ele tem uma espada com joias no cabo e um cavalo chamado Salazar.  — Sim... sim... — desviou o olhar. — O Daniel! Ele é um excelente homem. — eu assenti. — Direi a ele que você disse "oi". Até breve, Dulce. — Até. — acenei. Voltei aos meus afazeres e no fim de tarde, eu fui até o bosque, carregando meus livros em minha bolsa para o caso de Daniel demorar.
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