02

2528 Palavras
Christopher  E chegara o dia que foi planejado desde o meu nascimento. Eu conheceria a minha futura esposa, que se uniria à mim como fruto de um pacto entre os reinos de nossas famílias. E apesar de compreender e reconhecer os benefícios dessas tradições, a ideia de me casar com alguém que não conheço é totalmente desagradável.  Lembro-me quando minha mãe encorajava-me, contando sobre como apaixonou-se por meu pai depois de um ano casados. Queria poder ter essa mesma sorte com a princesa Eliza, cujo rosto apenas vi em pinturas.  Passei a manhã treinando meus golpes de espada com Edgar, meu melhor amigo e chefe da guarda real. Ele, notando o meu total silêncio durante o treinamento, perguntou-me diversas vezes se tudo estava bem. Resolvi deixar minhas incertezas apenas para mim, evitando causar qualquer crítica.  Era fim de tarde, os alfaiates acabaram de dar os últimos ajustes nas minhas vestimentas para o baile. Devidamente vestido, eu caminhei pelo castelo em direção aos aposentos de minha irmã, Anahi, que assim como eu, conheceria o seu parceiro para o resto da vida.  Como a porta estava entreaberta, entrei observando minha irmã em pé no meio do quarto, mantendo uma postura graciosa enquanto as serviçais ajeitavam os tecidos de seu longo vestido.  — Que honra receber o futuro rei em meus aposentos! — ela disse em tom de graça.  — Espero não estar atrapalhando a futura duquesa. — respondi no mesmo tom.  — Vossa alteza jamais atrapalharia. — sorriu. — Vocês, já chega. Podem se retirar. — ordenou e logo as serviçais saíram do quarto. — E então, meu irmão, o que achou? — deu uma voltinha.  — Perfeita como sempre! — sorri.  — Obrigada, eu estou tão ansiosa! — ela correu até mim e me deu um abraço apertado. — Será que ele é tão bonito pessoalmente quanto nos quadros que vimos?  — Espero que tenha sorte nesse quesito. — dei uma leve risada. — Diga-me, irmã... não está com medo?  — Medo? — franziu o cenho. — Do que eu teria medo?  — De que seu noivo não seja uma pessoa tão agradável.  — Confio nas escolhas do papai. Sei que com toda certeza ele escolheu o melhor para mim.  — Para você ou para o reino?  — O que quer dizer?  — Sabemos que há acordos econômicos por trás de nossos casamentos.  — Sim, claro. Mas também houve a escolha de duas famílias de caráter. Papai não colocará qualquer um para assumir papéis importantes em Seráfia. Não tenha medo, Christopher. — segurou minha mão. — Não pode ter medo do que ainda não conhece.  — Eu concordo com você, mas é muito difícil.  — Eu sei. Mas estou aqui, todos estamos. Com o tempo e o convívio, vocês dois vão passar a se amar. Foi assim com mamãe e papai.  Minha irmã era ingênua a ponto de não aceitar que nós não éramos iguais a mamãe e o papai. Todas as pessoas são diferentes, possuem suas particularidades. Porém, eu não iria abrir a minha grande boca e massacrar as expectativas dela. Quanto mais radiante Anahi estivesse, mais fácil seria para ela ter um apresso por seu pretendente. Saí dali enquanto ela se admirava em seu espelho e caminhei em direção aos estábulos. A única coisa capaz de acalmar o meu coração era uma cavalgada pelo bosque.  Sem que ninguém se desse conta, preparei a cela no meu melhor cavalo, montei e cavalguei o mais rápido possível até estar numa distância não-visível do castelo.  Algumas horas se passaram, continuei vagando até resolver parar perto de algumas árvores frutíferas. Desci do cavalo, acariciei sua face e soltei um longo suspiro, sentindo a melancolia começar a me invadir.  Quando estava prestes a montar novamente e ir embora, comecei a ouvir um canto muito doce que parecia vir de bem perto. Amarrei o cavalo numa árvore e andei devagar em direção ao som.  Me escondi atrás de uma das árvores a poucos passos de uma macieira, onde uma moça colhia as maçãs enquanto cantarolava uma cantiga.  Ela era de estatura pequena, com seus longos cabelos castanhos que desciam em cascata até sua cintura. Tinha os lábios e bochechas rosadas, seu rosto era redondo e seus olhos se espremiam quando ela sorria no meio da canção. E que olhos cor de mel mais marcantes ela tinha...  Fiquei completamente encantado com a beleza daquela moça. O meu instinto me dizia para me aproximar dela e dando um passo para frente, eu acabei pisando num galho que se partiu num barulho que atraiu a atenção dela para mim.  Ela parou de cantar imediatamente, sua expressão ficou séria e ela deu um passo para trás, como se quisesse sair correndo.  — Por favor, eu não queria assusta-la. — ergui minhas mãos em rendição. — Só estava passando e acabei ouvindo a senhorita cantar. Inclusive, tem uma belíssima voz. — a cortejei.  — Obrigada. — respondeu ainda parecendo na defensiva.  — A senhorita mora na aldeia? — finalmente saí de trás da árvore e dei mais dois passos à frente.  Ela me deu uma rápida analisada, parando seus olhos nas roupas que eu usava.  — Sim. E o senhor?  — Eu... — não queria dizer logo de cara que era o príncipe. Precisava evitar que ela me tratasse como uma autoridade. — Sou da vila dos nobres. — era o único jeito de explicar os meus vestes extravagantes.  — Quase achei que fosse do castelo, levando em consideração as vestes de alta costura que está usando. — agora sim ela parecia mais relaxada.  — É que... sou da guarda real e hoje haverá um baile muito importante. Precisávamos ser mais formais. — menti.  — Entendo. — sorriu com gentileza.  — Posso tomar a liberdade de lhe perguntar o seu nome?  — Dulce, e o seu?  — D... Daniel. — falei o primeiro nome que apareceu em mente.  — É um prazer conhecer o senhor.  — Digo o mesmo para a senhorita. — sorri.  — Bom, eu já peguei o que queria, agora tenho que voltar para a minha casa. — pegou a cesta de maçãs que estava no chão.  — Gostaria que eu a levasse em meu cavalo? Seria mais seguro ir para casa acompanhada por alguém da guarda. Não se sabe os perigos que uma dama pode enfrentar estando sozinha no bosque. — ela pendeu a cabeça para o lado, parecendo analisar aquela proposta.  — Bem, creio que eu possa confiar no senhor. — sorriu de lado.  — Só um instante. — peguei o meu cavalo, subi nele e depois de pegar a cesta de maçãs dela, eu a ajudei a subir. — Segure firme em minha cintura. Salazar é um pouco agitado.  — É um belo nome para um cavalo. — elogiou.  — Obrigado, eu mesmo escolhi. — começamos a ir em direção à aldeia.  — Ele é seu?  — Sim. Os pais dele pertencem ao meu pai. — Salazar deu um galope mais rápido, fazendo Dulce apertar minha cintura com o braço. — Calma, está tudo bem. — por impulso, levei minha mão até a dela, a segurando com firmeza. Dulce arfou em surpresa. — Desculpe. — afastei minha mão rapidamente.  — Tudo bem, sem problemas... — falou sem jeito.  Nós ficamos em silêncio até chegar à aldeia e assim que parei meu cavalo, eu desci primeiro e a ajudei a descer, segurando firme em sua cintura. Nossos olhares se cruzaram e nos encaramos até que os pés dela tocassem o chão.  Continuei com minhas mãos pousadas em sua cintura, olhando a profundidade daquele olhar doce e me perguntando em pensamento como alguém de natureza tão humilde poderia ser tão bela.  — Obrigada por me trazer, senhor. — ela se afastou das minhas mãos, parecendo tímida.  — Daniel. Me chame de Daniel.  — Bem, obrigada, Daniel.  — Espero vê-la novamente.  — Talvez, quem sabe. — deu de ombros. — Tenha uma boa noite e um bom baile real.  — Boa noite. — eu sorri.  Dulce saiu andando, com uma expressão um pouco corada. Talvez eu tivesse ido longe demais em tocar nela daquele jeito sem nem conhecê-la. Eu não tinha nenhum jeito com moças delicadas.  — Viu, Salazar? Esta é a forma errada de cortejar uma moça. — eu disse para o meu cavalo. ••• Retornei ao palácio, onde o baile já havia começado e estava cheio de nobres e pessoas de alto escalão. Eu já imaginava que meu pai deveria estar furioso pelo meu atraso.  — Alteza? — fui parado por Faustus, o conselheiro de meu pai. — Devo alerta-lo que vossa majestade, seu pai, não está muito contente com o estranho sumiço de vossa alteza.  — Eu precisei respirar um pouco, Faustus, meu pai irá entender. — tornei a andar por entre as pessoas até chegar ao meu pai, que conversava com outros dois reis, possivelmente os pais da princesa Eliza e do príncipe Alfonso.  Não muito longe dali, eu avistei a minha irmã dançando com seu futuro marido. Os dois pareciam muito satisfeitos um com o outro e eu fiquei feliz por pelo menos alguém estar aceitando de bom agrado seu destino.  — Com licença? — eu disse, fazendo a conversa parar.  — Christopher. — meu pai me olhou com repreensão.  — Pai. — me curvei.  — Espero que tenha um bom motivo para ter feito a sua futura esposa esperar. — ele olhou na direção da garota que estava ao lado de um dos reis.  Ela tinha cabelos escuros e olhos de mesma cor. Sua pele era pálida, com algumas sardas espalhadas por sua face. Eliza era tão bonita quanto as joias que cobriam seu pescoço, mas não o suficiente para me fazer esquecer o rosto da aldeã que conheci mais cedo.  — Vossa alteza, queira me desculpar. — me curvei diante dela. — Devo pedir desculpas também a vossa majestade, rei Augustus. — me curvei diante do pai dela. — Eu estava muito ansioso para conhecê-la e precisei cavalgar um pouco no bosque para me manter calmo o suficiente. — Eliza sorriu de lado, parecendo se encantar comigo.  — Creio que minha filha não vá se preocupar com isso. — o rei disse. — Que tal conhecerem-se melhor? — olhei para meu pai que acenou com a cabeça, me obrigando com o olhar a chamá-la para uma dança.  — A senhorita gostaria de me acompanhar em uma dança? — perguntei.  — Sim. — ela assentiu.  Estendi minha mão e ela segurou com delicadeza. Fomos até o meio do salão, onde todos abriram espaço para que dançássemos com tranquilidade, mas além disso, todos ansiavam para ver o futuro rei e a futura rainha bailarem pela primeira vez.  — Não sei a senhorita, mas eu detesto quando me encaram assim. — sussurrei só para ela.  — Já estou acostumada, eu adoro receber atenção.  — Eu nunca vou me acostumar com isso.  — Bom, vai precisar, afinal, se tornará um rei. Todos os seus súditos conhecerão o seu rosto, sua voz... será a imagem mais vista e conhecida de Seráfia.  — Isso ainda vai demorar a acontecer. Só me tornarei rei após o falecimento de meu pai e como pode ver, ele está muito bem de saúde e ainda viverá por muitos anos. — ela me olhou com estranheza.  — Não te contaram?  — Me contaram o que?  — Um profeta previu uma doença muito grave em seu pai. Algo que acontecerá em breve. — a naturalidade com a qual aquela mulher disse aquilo foi assustadora. Eu parei de dançar subitamente e dei um passo para trás. — O que está dizendo? — Um rei só procura pretendentes para seus filhos quando está perto da morte.  — Não está falando a verdade.  — Está me chamando de mentirosa? — se ofendeu. — É o primeiro príncipe que não anseia para subir ao trono após a morte de seu pai.  — Eu não sou um sádico.  — É melhor voltar a dançar comigo agora, estão todos olhando. — disse séria.  — Eu não quero dançar.  Dei as costas para ela e saí do baile, indo para os meus aposentos. Não demorou muito até que dois guardas reais abrissem as portas e o meu pai entrasse, com o semblante mais furioso possível.  — O que diabos está fazendo!? — perguntou com agressividade. — Deixou a princesa no meio do salão sozinha! Com que cara eu tenho que olhar para o rei Augustus após tamanha grosseria do meu filho?? — ele ficou em silêncio, esperando uma resposta da minha parte.  — Você vai morrer? — o rosto dele relaxou, até ficar sério.  — Quem te disse isso?  — A princesa. A propósito, ela não me parece uma moça muito sensível.  — Ela é uma moça forte, Christopher. Será uma rainha de pulso firme, assim como foi a sua mãe.  — Não respondeu a minha pergunta...  — Christopher... — ele sentou ao meu lado na cama e colocou a mão sobre o meu ombro. — Um dos profetas que vivem ao redor do reino previu que o dia da minha morte se aproxima. Eu preciso manter o reino nos eixos, preciso garantir que você não tenha nenhum problema ao assumir.  — Eu não estou pronto.  — Claro que está! Tem o meu sangue em suas veias, será um rei ótimo!  — Não estou falando de assumir o trono. Eu não estou pronto para perder o meu pai. Quando a mamãe se foi, pelo menos nós tínhamos você aqui. Tudo ficaria bem porque eu sempre teria um colo para me amparar. Mas e quando você se for? Quem vai me acolher?  — A sua esposa. Sabemos que não vai amá-la tão rápido, mas a convivência unirá vocês. — fiquei em silêncio. — Prometo ficar aqui por tempo suficiente para lhe ensinar tudo o que sei. — eu assenti. — Agora, vá lá e peça desculpas pelo seu comportamento. Voltei para o baile com outro pedido de desculpas. Tornei a dançar com Eliza que não parava de falar como tinha vontade de ser coroada. A mulher nem se incomodava em não me conhecer, ela só queria ser rainha logo.  — Não lhe incomoda que nós dois não estejamos apaixonados? — perguntei.  — Confesso que eu tinha receio que você não tivesse uma aparência agradável, mas você é muito bonito.  — Vossa alteza não deveria me tratar com tanta i********e.  — Deixe as formalidades para lá, Christopher. Nós vamos dormir na mesma cama um dia, você pode me chamar pelo meu nome.  — Ainda não somos casados.  — Mas seremos. Não vejo porquê não começarmos a nos tratar como íntimos desde já. — fiquei em silêncio. — Minha aparência não o agrada? — deveria eu agir do mesmo modo que ela?  — Você é muito bonita. — admiti.  — Melhor assim, sem formalidades. — sorriu.  A noite foi longa e regada de conversas sobre o futuro do reino. Eu e Eliza divergimos em muitas coisas e eu repensei se deveria dar tantas liberdades para a minha rainha. O fato de ela não se importar com os aldeões e pensar em melhorar a economia dos nobres me incomodava. m*l sabia ela que jamais seguiria com seus planos cruéis.
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