Christopher
Passei a noite inteira ao lado da cama do meu pai. O melhor médico do reino também estava ali, analisando seu estado a todo instante e cada vez que ele o examinava, eu torcia pra que dissesse que estava melhorando, mas bastava olhar para a expressão do médico e qualquer um saberia que meu pai se mantinha num estado deplorável.
Quando ele começava a se contorcer agressivamente enquanto gritava de dor, os dois guardas que estavam fazendo a vigilância tinham que segura-lo para que não caísse da cama.
— Seu pai está tendo espasmos tão fortes que pode até quebrar um osso. — ele disse apertando a panturrilha dele. — Os músculos estão enfrentando fortes câimbras.
— Já viu isso em alguma outra pessoa? — perguntei.
— Sim. Não sabemos exatamente a causa disso, mas os mesmos sintomas costumam originar-se após uma ferida m*l curada.
— Então, você já possui um método específico para o tratamento.
— Tratamos a febre normalmente e as dores com chás de ervas. Não há um tratamento específico para esse tipo de doença porque nós não sabemos o que ela é. Só nos resta aliviar os sintomas e deixar que o próprio corpo combata isso.
— Quantas pessoas já tratou nessas condições?
— Por volta de quarenta pessoas.
— E quantas delas sobreviveram? Por favor, seja sincero.
— Eu não estou aqui para dar falsas esperanças, alteza. Infelizmente, eu posso contar nos dedos de uma mão as vidas que salvei dessa doença. Farei o possível para que o rei seja um deles.
— Christopher? — Edgar me chamou.
— Sim?
— A princesa deseja ver o rei.
— Já disse que não.
— Ela disse que vai mandar cortar a minha cabeça se eu não deixar ela entrar.
— Sabe que ela está blefando.
— Sua irmã me assusta, deixe ela entrar.
— A distraia com alguma coisa, eu não quero que ela veja o papai assim.
— Eu vou tentar fazer o possível. — ele deu as costas e se retirou.
A cada minuto, o meu pai voltava a se contorcer e gritar. E quando parava, apagava de vez e não acordava para nada. Eu não queria que a Anahi presenciasse um ataque desses, já que não conseguíamos prever quando aconteciam. Quando meu pai estivesse bem e saudável, ela o veria.
A madrugada chegou, o médico adormeceu sentado em uma das cadeiras acolchoadas e eu me senti sozinho, mesmo com os dois guardas bem atentos na porta.
Meu pai parecia estar no seu mais profundo sono, tranquilo como todos os sonos que já teve ao longo de sua vida. Quem o visse assim, não poderia dizer que estava doente.
— Não me deixa aqui sozinho. — eu disse segurando sua mão. — Eu não estou pronto para cuidar do reino e duvido que faria isso tão bem quanto o senhor. Todos dizem que eu serei um bom rei, mas eu não acredito nisso. Estão tão esperançosos pelo meu reinado e vão acabar se decepcionando quando notarem que não é nada do que esperavam. — senti ele apertar minha mão. — Pode me ouvir?
— Sim. — ele disse abrindo os olhos devagar. — Sabe o que está fazendo, Christopher? — sua voz era baixa, mas ele falava com clareza. — Está criando desculpas para si mesmo porque não aceita que eu estou morrendo. O reino não te preocupa, você sabe que será um bom líder, já sabe exatamente como quer governar. O que te preocupa é a minha morte.
— Eu não quero ser rei.
— Quer sim.
— Não, pai, eu não quero. Eu quero que você continue reinando e quero poder me casar com quem eu quiser.
— Filho...
— Ver você nesse estado traz à tona os únicos medos que eu tenho. A perda de alguém que eu amo e um casamento infeliz, que consequentemente também irá me fazer perder alguém que eu... que eu amo. — estar diante desses medos me fez enxergar um sentimento oculto que parecia bem claro agora.
— Está apaixonado por alguém?
— Sim. — o que eu iria perder revelando aquilo para ele? Meu pai sempre foi muito compreensivo.
— Como ela se chama?
— Dulce.
— E você a ama de verdade?
— Sim. — agora eu tinha certeza. — Eu a amo. E eu sei que jamais serei capaz de amar a Eliza ou qualquer outra mulher da mesma forma que eu amo a Dulce.
— Eu quero te contar uma coisa que nunca disse para ninguém. — ele fez sinal para que eu chegasse mais perto, como se quisesse me contar um segredo. — Antes de me casar com a sua mãe, eu me envolvi com uma mulher. Ela se chamava Beatrice. Foi a primeira mulher que eu amei de verdade, achei que nunca seria capaz de sentir algo maior do que aquele sentimento. Relutei muito para aceitar o casamento arranjado com a sua mãe, mas por fim, aceitei o meu destino e respeitei o acordo que meu pai havia feito.
— E a Beatrice?
— Como eu imaginei, ela se recusou a ser minha amante e nós nunca mais nos falamos depois que me casei. E sabe o que eu descobri com o casamento? Que sim, eu podia sentir por alguém algo maior do que eu sentia pela Beatrice. Eu amei a sua mãe muito mais do que amei qualquer pessoa nessa terra. Agradeço à Beatrice por ter me apresentado o amor, mas foi a sua mãe que me ensinou a moldá-lo.
— Pai, essa é uma bela história, mas a Eliza não se parece em nada com a mulher que a mamãe era. A mamãe era adorável, gentil, doce... estar na presença dela era revigorante.
— Diz isso porque a amava. Você se recusa a amar a Eliza, logo, sua cabeça sobrepõe todas as falhas que você acha que ela tem.
— Eu não acho, eu sei que ela tem.
— O amor é cego, filho. Você vai ver isso logo. — ele fechou seus olhos.
— Se conhecesse a Dulce, mudaria de opinião. — eu disse mais para mim mesmo.
Na manhã seguinte, eu desci para a entrada do castelo, para finalmente me despedir da minha irritante noiva. Em frente à sua carruagem, enquanto seus serviçais guardavam suas malas, ela tagarelava alguma coisa sobre como a viagem iria ser longa e como ela teria gostado de ficar mais.
— Já ficou tempo demais, seu pai vai querer vê-la. — eu disse. — Além disso, o castelo vai ficar um pouco mais desanimado e em correria agora que meu pai está doente.
— Ai, querido, eu sinto muito que vocês tenham que passar por isso. — apoiou suas mãos em meus ombros. — Por um momento, eu até achei que a profecia poderia não se cumprir.
— E não vai. — fui firme.
— Claro. — sorriu de lado. — Nos vemos em breve. — ela se esquivou e me beijou por alguns segundos. — Sentirei saudades disso.
— Er... tudo bem, até mais. — dei um passo para trás.
Eliza entrou em sua carruagem e eu acenei vendo-a partir. Pelo menos, seria mais tranquilo cuidar do meu pai sem ter essa sombra torcendo em segredo pela morte dele.
Morto de fome, eu fui até a cozinha onde o café da manhã já estava sendo servido aos serviçais. Todos eles ficaram de pé quando eu entrei.
— Voltem a comer. — eu disse indo direto para uma das mesas, pegar um pão.
— Chegou tarde, não comeu com as princesas. — Maitê disse parando ao meu lado.
— Não dormi bem por conta do meu pai.
— Eu sinto muito por tudo isso.
— Obrigado. — sorri. — Tecido bonito. — falei me referindo ao tecido roxo que ela usava por cima dos ombros.
— Obrigada! Eu comprei vários tecidos ontem, pretendo mudar um pouco o modo de me vestir.
— Faz bem, é sempre bom mudar.
— Pois é! E a Dulce me ajudou a fazer escolhas incríveis! Ela realmente sabe como se vestir bem.
— Dulce? — fiquei sério.
— Sim, a menina que trabalha naquela venda da aldeia. Acho que vocês compram de lá.
— Você é amiga dela?
— A pouco tempo, mas sim. Nos conhecemos quando ela bateu num homem que me assediava. Você tinha que ver o reflexo dessa mulher! — riu.
— Ela fez isso? — eu ri. Não imaginava Dulce fazendo algo assim.
— Tão doce, mas tão agressiva! Falando na Dulce, você conhece todos os guardas daqui?
— A maioria. — na verdade, eu conhecia todos, mas tinha receio do que ela me perguntaria.
— Qual deles é o Daniel? É que a Dulce gosta dele e eu queria conhecê-lo.
— Daniel? Hum... — fingi pensar. — Não me lembro bem agora, são muitos guardas.
— Talvez o Edgar saiba quem é.
— Isso.
Agora que eu sabia que Maitê era amiga de Dulce, teria que tomar muito cuidado para não correr o risco de tudo ser descoberto. Se elas eram muito amigas, eu não tinha dúvidas de que Maitê contaria toda a verdade assim que soubesse quem Daniel realmente era.
Foram dois dias sem sair do castelo em nenhum momento. Meu pai ficava lúcido às vezes, mas na maior parte do seu dia, ele estava apagado ou gritando de dor. Era uma tortura vê-lo daquela maneira.
— Christopher? — Edgar entrou nos aposentos do meu pai, onde eu estava. — Você precisa sair, tomar um pouco de sol e ar fresco. Ficar aqui o tempo inteiro não vai fazer bem para a sua saúde.
— A minha saúde não importa agora. — respondi.
— Eu estive na aldeia. Fui buscar a minha capa com a Dulce. Ela está preocupada com você, deveria ir vê-la.
— E se alguma coisa acontecer enquanto eu estiver fora?
— Todos estamos cuidando do seu pai, nada vai acontecer a ele. — Edgar veio até mim e tocou o meu ombro. — Tenho certeza que o rei não quer que você consuma a sua mente dessa forma.
— Eu vou pensar.
— E não sei se isso o preocupa, mas a Maitê andou perguntando qual dos guardas se chama Daniel.
— É só dizer que não sabe.
— Não vai ser estranho se ninguém conhecer o Daniel?
— Daniel é um nome bem comum, tenho certeza que vários dos guardas devem se chamar assim.
— Só cuidado para não se ver contra a parede. É um perigo ter alguém próximo da Dulce que sabe quem você é.
— Edgar, eu não quero me preocupar com isso agora. — suspirei.
— Como quiser. — ele se retirou.
Continuei ali por algumas horas e depois, decidi que precisava ver a Dulce. Talvez passar um tempo com ela me ajudasse a descarregar o peso que eu guardava em meu peito.
Fui até a venda e sua mãe me avisou que ela estava em casa, colocando as roupas para secar. E quando cheguei, eu a vi pendurando lençóis no varal, de costas para mim.
Eu fui até ela e numa tentativa de fazer uma brincadeira, eu dei um pulo e agarrei a sua cintura. Para a minha surpresa, Dulce rapidamente usou seu cotovelo para me acertar direto no nariz. Aquilo doeu muito e eu dei alguns passos para trás sentindo uma leve tontura.
— Daniel!! — ela chegou perto e segurou meu rosto. — Desculpe-me, eu não sabia que era você. — Dulce me olhava com preocupação enquanto analisava o meu rosto.
— Se você fosse um pouco mais para cima, teria quebrado o meu nariz. — dei risada. — Que reflexo incrível! — elogiei.
— Obrigada. — sorriu de lado. — E então, o rei está melhor?
— Não... — desviei o olhar. — A cada dia, parece que ele está longe de recuperar-se.
— Isso é péssimo.
— Sim. Eu não saí de perto nele em nenhum momento, presenciei toda a dor que ele vem sentindo.
— E como você se sente? — ela segurou minha mão.
— Cansado. Eu vim te ver porque quero me sentir melhor e claro, estou com saudades.
— Eu também. — ela sorriu, chegou mais perto e me beijou.
— Será que você pode fugir comigo até o bosque? Eu pensei que nós podíamos voltar até aquela caverna... — acariciei seu rosto e olhei fundo em seus olhos.
— Para que? — ficou séria.
— Para terminarmos o que começamos. O que me diz? — eu vi Dulce acelerar sua respiração, como se tivesse ficado nervosa. — Mas se não quiser, tudo bem.
— Você quer um pedaço de torta? Eu acabei de preparar. — afastou-se, pegou o balde do chão e começou a caminhar até sua casa.
Eu a segui e quando entrei, ela fez sinal para que eu sentasse à mesa. Dulce trouxe a torta, separou duas fatias para nós e sentou ao meu lado.
— Hum... você tem uma mão excelente, tanto para bater, quanto para cozinhar. — brinquei após comer o primeiro pedaço.
— Mais para bater. — rimos.
Ela apoiou o cotovelo na mesa e a alça de seu vestido deslizou sobre o seu braço, deixando seu ombro à mostra.
Com cuidado, afastei os cabelos de Dulce para o outro lado de seu pescoço e me aproximei, depositando beijos suaves em sua pele, enquanto ela se manteve estática e respirando fundo.
Pousei minha mão sobre sua nuca e quando seus olhos encontraram os meus, nós nos beijamos. Segurei firme em sua cintura, começando a trazê-la para mais perto de mim, até senta-la em meu colo.
Aquela mesma faísca que havíamos sentindo na caverna estava acendendo-se novamente, com nossos beijos vorazes e cheios de vontade.
Levei minhas mãos até seu vestido, começando a desatar os cordões de seu espartilho.
— Não. — ela parou o beijo e segurou minhas mãos. — Nós não podemos.
— Eu achei que tivesse certeza de que queria isso. — franzi a testa.
— Falei aquilo sem pensar, pelo calor do momento.
— E agora você pensou e não quer mais. — concluí.
— Daniel, que tipo de mulher eu seria se me deitasse com alguém que não assumiu nenhum compromisso sério comigo? — ela ficou de pé. — Eu não quero ser uma depravada.
— Você não vai ser uma depravada por fazer o que quer com o seu corpo.
— Eu sei, mas não é isso o que as pessoas pensam. E antes que você diga, sim, eu me importo com essas opiniões. Eu quero viver em paz, sem ter que me chatear com olhares tortos ou falatório.
— Ninguém precisa saber.
— Essa aldeia é pequena, as paredes têm ouvido. É uma questão de princípios, Daniel. Eu não vou me entregar por inteira a você sem antes ter certeza do que nós iremos nos tornar algo maior.
— Está falando de casamento? — cocei a nuca.
— Sim. Eu sei que talvez esse não seja o momento, você ainda não me ama... — a interrompi.
— Mas eu amo. — ela abriu levemente a boca, olhando para mim com surpresa. — Eu amo você.
— Eu também amo você. — sorriu de lado.
— Olha, meu amor... — fiquei de pé e segurei suas mãos. — Você não tem que dormir comigo se não quiser. Eu vou esperar por você o tempo que for.
— Obrigada. — Dulce entornou seus braços em volta do meu corpo e me abraçou.
Talvez eu não tivesse todo o tempo do mundo e essa minha vontade em ter Dulce poderia não ser concretizada. Ao menos, eu continuaria tentando até o final, tentando até ter certeza que mais nada poderia ser feito.