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2232 Palavras
Dulce Eu me sentia consideravelmente nervosa. Era como se o sangue que corria em minhas veias estivesse esquentando, a ponto de eu me sentir queimando por dentro.  Daniel me beijava por completo, sem deixar de estar perto dos meus lábios o máximo possível.  Os beijos que compartilhamos antes eram bem diferentes dos beijos que estávamos sentindo agora. Esses eram cheios de desejo, não deixando nenhum espaço para pensamentos que não tivessem relação com tocar o corpo um do outro.  Para mim, uma sensação nova, que me deixava curiosa e com vontade de ir além, ver do que o meu corpo era capaz e até onde eu poderia me sentir assim. Já para ele, parecia algo instintivo e ele estava apenas obedecendo os comandos que o seu corpo naturalmente lhe dava.  Daniel colocou suas mãos por baixo da minha saia e a subiu, tocando minhas pernas com firmeza. Era a primeira vez que alguém tocava em meu corpo de forma tão íntima e curiosamente, tudo isso só me fez querer mais.  Ele me abraçou, enterrando seu rosto em meu pescoço, usando seus lábios para depositar carícias ofegantes sobre a minha pele. Ele abaixou uma das minhas alças, deixando meu ombro à mostra e começou a beijar aquela região com delicadeza, me dando arrepios por todo o corpo.  — DANIEL!!! — ouvimos um grito em meio à chuva que caía lá fora. No mesmo instante, Daniel saiu de cima de mim e ajudou-me a levantar também. Ele fechou os botões de sua camisa e eu ajeitei o meu vestido que estava amarrotado.  — Parece a voz do Edgar. — ele disse, caminhando em direção à saída da caverna. — Ali está ele! — Daniel acenou.  — Imaginei que estivesse aqui com a Dulce! — montado em seu cavalo, Edgar entrou na caverna, respirando fundo, parecendo muito nervoso. — Nós tivemos que vir mais cedo.  — Por que? O que houve? — Daniel perguntou. — O rei... — Edgar olhou para o teto como se estivesse procurando as palavras certas. — A dois dias, ele se feriu em um portão velho, mas nós achamos que não era nada demais. — Vá direto ao ponto. — Daniel pediu.  — A ferida começou a ficar cada vez mais feia e agora o rei está doente. Está febril, sentindo dores intensas por todo o corpo, dores que o fazem se contorcer de tão fortes.  — O que? — Daniel ficou boquiaberto. — Eu tenho que ir até o castelo! — colocou as mãos sobre a cabeça.  — Ei, calma. Tenho certeza que farão o necessário para cura-lo. — falei me aproximando e colocando a mão em seu ombro.  — Eu tenho que ir. — ele segurou minhas mãos. — Edgar a levará até em casa, tudo bem? — eu assenti. — Talvez eu não possa vê-la amanhã, vai depender do estado do rei. Eu tenho que protegê-lo agora que está vulnerável.  — Tudo bem, eu entendo.  — Dulce, aqui! — Edgar me entregou sua capa. — Proteja-se da chuva. Daniel me ajudou a montar no cavalo de Edgar e antes de partirmos, ele deu um beijo carinhoso em minha mão.  Chegamos até a aldeia e eu pedi que ele me deixasse na casa de Angelique, que era mais próxima do que a minha. Bati duas vezes na porta e ela abriu.  — Meu Deus, Dulce! — ela me puxou para dentro e fechou a porta. — Está encharcada! Senta aqui, vou te preparar um banho quente. — apontou para uma das cadeira e eu sentei. Depois de acender a lareira, Angelique encheu um balde de metal com água e o pendurou sobre o fogo. Logo depois, da água que guardava em seus barris, encheu a banheira simples que ficava ao lado de sua cama.  — Eu estou com frio. — eu disse abraçando meu próprio corpo.  — Tire as roupas molhadas e se cubra com esse lençol. — me entregou um lençol branco e eu fiz o que ela disse. — Por que o Daniel não esperou essa chuva cessar antes de trazê-la?  — Ele teve que ir às pressas até o castelo. O rei voltou mais cedo porque está muito doente.  — Então é verdade... — arqueou as sobrancelhas.  — O que?  — Eu ouvi boatos de que um profeta viu que em breve, o rei morreria de uma doença incurável.  — Que coisa horrível! — exclamei. — Agora compreendo a pressa em encontrar uma esposa para o príncipe.  Depois que ela jogou o balde de água quente na água da banheira e a manteve devidamente morna, eu entrei, usando uma esponja para esfregar meu corpo enquanto Angelique escovava meus cabelos.  — Seus cabelos estão sujos de areia. Deitou-se no chão? — perguntou.  — É, sim. — respondi rápida.  Fiquei em silêncio pensando no que quase aconteceu entre mim e Daniel. Aquela seria a coisa certa? Será mesmo que eu estava preparada ou apenas me deixei levar por minhas emoções momentâneas? Agora que tudo havia passado, eu me sentia em dúvida e até um pouco aliviada por não ter feito nada.  — O que foi? Parece pensativa.  — Se eu te contar uma coisa, promete não dizer a ninguém?  — Prometo.  — Eu e o Daniel quase... bem...  — Quase o que?  — Ele quase... — eu estava tímida demais para dizer. — Ele ia...  — Meu Deus, mulher! — cruzou os braços com impaciência. — Parece até que ele tentou te desvirginar! — Então... — cocei a cabeça.  — Não! Está falando sério? — arregalou os olhos.  — Nós estávamos sozinhos numa caverna, estava chovendo muito e ele me abraçou...  — Dulce, ficou louca? Não pode dormir com um homem antes de casar-se com ele!  — Eu sei, eu leio a bíblia! Mas a sensação era tão boa e eu estava tão certa daquilo! — Apenas meretrizes agem dessa forma!  — Angelique, eu não pretendo deitar-me com ninguém além do Daniel.  — Você o ama?  — Acho que sim...  — Acha? Não pode deitar-se com alguém que "acha que ama". E ele? Ama você?  — Eu não sei, ele nunca me disse. — Graças aos céus você não fez nada! — suspirou. — Só pense em fazer isso depois que tiver certeza que vocês se amam e que irão assumir um compromisso sério mais adiante. Não quer ficar com uma fama r**m, certo? E se você entregar-se a ele e for deixada? Que homem irá casar-se com uma impura?  — Acho que você tem razão. Foi loucura pensar que não haveria m*l nenhum nisso. — Vocês m*l se conhecem, não deixe que ele a use.  — Acha que ele faria isso?  — Querida, a maioria dos homens trata as mulheres como objetos. É difícil achar algum que não tente se beneficiar da nossa inocência.  — Eu sinto que posso confiar nele.  — Está pensando com o coração, não com a cabeça. Eu não estou dizendo pra que o deixe, eu realmente gosto de tudo o que conheci no Daniel até agora. Só estou te dando um conselho para que não confie sem antes ter provas de que pode confiar.  — Eu entendo. — sorri fraco.  Eu não costumava ser tão racional assim, tinha que confessar. Sempre acreditei que o que o meu coração sentia era a verdade e que eu deveria confiar nessas minhas emoções. Eu só seguia direto para o caminho onde meu coração me mandava ir.  No dia seguinte, eu e Angelique abrimos a venda e eu comecei a varrer o chão. As pessoas na aldeia já estavam sabendo da condição de saúde do rei e não paravam de palpitar sobre as causas de sua enfermidade.  Angelique, curiosa e faladeira como era, foi direto para a padaria ouvir os cochichos dos clientes que entravam e saíam do lugar.  — Bom dia! — ouvi uma moça dizer ao entrar.  — Bom dia! — respondi com o sorriso. — Espera, eu conheço você... Maitê?  — Isso! E você é a Dulce! Como vai?  — Vou bem e você, como está?  — Muito bem! Eu estou trabalhando na cozinha do castelo agora e vim aqui para melhorar as minhas roupas. — ela deu dois tapinhas no saquinho de moedas que carregava na cintura.  — Que coisa maravilhosa! Fico muito feliz que tenha conseguido um trabalho melhor.  — Foi a minha terceira tentativa e por sorte, era o príncipe Christopher quem estava avaliando. Ele é muito bondoso e nem se importou por eu ter trabalhado num prostíbulo.  — Pelo que ouço, parece que ele será um bom rei.  — Arrisco dizer que será um rei bem melhor que o atual.  — Por falar nisso, como vai o rei Victor? Todos estão comentando que ele está m*l de saúde.  — Eu não o vi. Geralmente, levo a comida até a sua porta e um conselheiro leva para ele. Mas só pelos gritos que ouço... Deus, eu espero que esse homem ganhe o seu descanso.  — O que os médicos dizem?  — Nada sobre sua doença, apenas dizem para alimentá-lo com líquidos frios, por causa da febre alta. Deve ser horrível ter que comer sopa fria todos os dias. Logo eu, que tenho excelentes dotes culinários, tendo que servir sopa fria... — suspirou.  — Se aquela profecia estiver certa, talvez esta seja a doença que irá matar o rei.  — Acredita nessas coisas? — me olhou com um meio sorriso. — Eu tenho certeza que esse "profeta" só deu um chute certeiro. — fez sinal de aspas com os dedos.  — Você é mesmo bem cética. — sorri de lado.  — Deve ser por isso que ninguém gosta de mim por muito tempo. — riu.  — E isso é engraçado? — franzi a testa.  — É engraçado que as pessoas não aceitem opiniões diferentes das delas. — deu de ombros. — Você aceita, Dulce? — Eu gosto de aprender coisas novas e tentar ver o mundo pela perspectiva dos outros. É incrível como cada ser humano tem uma visão distinta sobre cada coisa.  — Que bom que você não é alienada como eu pensei. Uma aldeã com opiniões próprias, raro de se ver! — E onde você conseguiu uma visão tão crítica sobre o mundo? — eu estava mesmo curiosa sobre ela.  — Passei por muita coisa, Dulce. Comecei a questionar tudo e todos que passavam pela minha vida. Para mim, tudo tem uma explicação clara e realista. Eu tento manter os meus pés firmes no chão sendo o mais real que eu posso.  — Fascinante! — sorri.  — Agora, me mostre seus melhores tecidos e me faça sentir linda! — segurou minhas mãos.  — Linda você já é, farei você se sentir divina! Vem, os melhores estão aqui.  A levei até os fundos onde os tecidos recém criados estavam devidamente guardados. Eram peças únicas, com fios caros e de ótimo gosto. Maitê não queria economizar e separou os mais caros para fazer as suas roupas.  — Pareço uma rainha? — ela se enrolou em um tecido dourado e deu uma voltinha. — Com toda certeza! — elogiei.  — E você pode ser uma princesa. — ela pegou um tecido rosa e entornou meus ombros com ele. — Aquele dia, eu nem pude perceber porque já era noite, mas você é mesmo muito bonita! Parece que nunca teve nenhuma preocupação na vida. — Consigo contar nos dedos todas as vezes em que tive alguma dor de cabeça por algum problema sério. — dei risada.  — É quase uma princesa. — ela riu junto comigo. — Ei, eu conheço aquela capa! Parece a mesma que os guardas usam no castelo. — falou apontando para a capa de Edgar que estava secando no varal dos fundos.  — É do Edgar, o conhece?  — Sim! Ele chegou ontem junto com o rei. Vocês são amigos?  — Somos. Ontem ele emprestou a capa dele por causa da chuva. — Maitê assentiu. — Conhece o Daniel?  — Daniel? — pareceu pensativa. — Eu ainda não sei o nome de todos os guardas. Como ele é?  — Ele tem olhos castanhos, uma barba tão clarinha que é quase loira, cabelos enrolados... — suspirei olhando para o teto. — Ele é tão lindo!  — Um romance, Dulce? — falou animada. — Pelas descrições, eu não faço ideia de quem é, mas irei averiguar e manterei você informada sobre qualquer deslize do seu pretendente.  — Mesmo? — eu ri. — Não tem que se incomodar.  — Incomodar? Eu só vou estar cumprindo o meu papel de amiga. — eu sorri fraco para ela.  — Sou sua amiga?  — Se você quiser ser...  — Isso significa que não guarda nenhuma mágoa de mim por eu ter sido rude na primeira vez em que nos vimos?  — É uma das poucas pessoas que parece estar disposta a ter uma mente mais aberta, então eu não irei guardar nenhuma mágoa de alguém tão raro como você.  — Sendo assim, somos amigas! — estendi minha mão para ela.  — Ah, vem cá! — Maitê me puxou para um abraço bem apertado.  Continuamos a escolher seus tecidos e depois de decidir-se, ela os levou e prometeu me trazer bolinhos no dia seguinte.  Apesar de ser cética e duvidar de coisas das quais eu não achei que poderiam ter dúvidas, Maitê era legal e sua personalidade a deixava muito interessante, a destacando de uma forma única. Eu iria gostar de tê-la em minha vida.
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