Christopher
Passar o dia com Dulce me ajudou a aliviar as tensões que a presença de Eliza me causou. No fim da tarde, eu a acompanhei até em casa e prometi que no dia seguinte, teríamos o nosso encontro rotineiro no bosque.
Cheguei ao castelo antes do jantar e tive que avaliar a comida de novos candidatos que assumiram a chefia na cozinha real. E entre quinze homens havia uma mulher de cabelos escuros e um olhar firme, sem demonstrar nenhum resquício de fraqueza, apesar de todos aqueles homens estarem desdenhando dela com os olhos.
Antes de mim, um provador experimentou cada prato, certificando-se de que nenhum estava envenenado. Depois, eu dei uma garfada em cada um, sem saber qual prato pertencia a quem.
Todos eram bons, mas não consegui identificar nenhum sabor novo, nada que fizesse a minha língua dançar de prazer. Mas então, no último, eu senti uma explosão de sabores e não tive a menor dúvida.
— De quem é este? — perguntei.
— Meu, alteza. — a moça deu um passo à frente.
— Muito bom, eu amei! — elogiei e ela sorriu com orgulho. — Não preciso nem pensar em quem escolher. Seja bem vinda.
— Muito obrigada, alteza, de verdade! — se curvou. — Não imagina o quanto está fazendo por minha vida ao me escolher.
— Bem, eu gostaria de saber. — sorri de lado. — Que tal você me preparar uma torta agora e enquanto isso, conversa comigo sobre você?
— Mesmo? — arqueou as sobrancelhas em surpresa.
— Sim. O resto de vocês, podem se retirar. Irão receber uma boa quantia em dinheiro por se candidatarem. — todos eles se curvaram e saíram.
— Qual o seu nome? — perguntei.
— Maitê.
— É um prazer. Vamos até a cozinha.
Nós fomos juntos até a cozinha e depois de apresentar Maitê aos outros serviçais, ela começou a me preparar uma torta, em meio ao barulho dos outros que preparavam o jantar daquela noite.
— Aqui parece ser bem corrido. — ela disse olhando em volta.
— Sim, o jantar não é só para a família real, mas também para todos que nos servem no castelo, por isso a grande quantidade. Acha que pode liderar uma cozinha assim?
— Eu trabalhava num lugar bem cheio e barulhento antes, então, acredito que posso dar conta.
— Onde trabalhava? — ela parou olhando para mim e seu rosto ficou sério. — Algum problema?
— O problema é que talvez o senhor não me queira mais aqui depois que eu disser onde trabalhava... — desviou o olhar.
— Contanto que fosse um trabalho honesto, eu realmente não me importo.
— Bem... eu trabalhava em um prostíbulo...
— Ah. — arfei em surpresa. — Curioso... — apoiei meu queixo em uma das mãos e a observei. Maitê parecia desconfortável. — Era uma meretriz?
— Não. — balançou a cabeça negativamente. — Eu apenas cozinhava, limpava e servia a comida e as bebidas. Nunca vendi o meu corpo.
— Sendo assim, eu não vejo nenhum problema. — dei de ombros. — Você cozinha bem, isso é o que importa.
— Obrigada. — sorriu. — Sabe, todas as pessoas da aldeia acham que todas as mulheres que trabalham naquele lugar são meretrizes, mas isso não é verdade. Eu trabalhava lá porque precisava sobreviver. Fico muito feliz de poder sair de lá, não por me incomodar com os comentários, mas pela minha segurança. Quando aqueles homens bebem demais, nem querem saber se você vende o seu corpo ou não... tenho sorte de sempre conseguir escapar.
— Isso é horrível! — fiz uma careta. — Alguma coisa deveria ser feita.
— Sim. Eu não iria pedir isso, mas já que vossa alteza se interessou, poderia mandar guardas reais para fazerem a segurança do lugar, evitando que as mulheres sejam abusadas. Até as meretrizes precisam lutar contra homens que não têm dinheiro e as obrigam a fazer coisas mesmo assim.
— Eu posso fazer isso, mas não garanto que o meu pai irá manter essa decisão quando retornar.
— Mesmo assim, já é uma grande coisa. Vejo que vossa alteza será um ótimo rei.
— Christopher, me chame de Christopher. — ela assentiu.
Vimos todos os trabalhadores pararem de cozinhar e olharem diretamente para a porta de entrada, onde Eliza tinha acabado de surgir. Ela veio até mim assim que seus olhos pararam em meu rosto.
— Olá, meu amor! Você sumiu o dia inteiro, onde estava?
— Caçando. — menti.
— E onde está a caça?
— Eu... dei de presente.
— Ah, é? Para quem? — me olhou com desconfiança.
— Uma família de nobres, amigos da realeza. — eu ficava cada vez mais afiado nas minhas mentiras. — Essa é a Maitê, ela irá chefiar a cozinha. E Maitê, essa a minha noiva, princesa Eliza.
— É um prazer conhecê-la, vossa alteza. — Maitê se curvou.
— Uma mulher liderando a cozinha real? — Eliza me olhou com a testa franzida. — Qual o propósito? Matar o seu pai do coração?
— Não me interessa quem vai liderar o quê nesse castelo, contanto que faça isso direito. — fui firme.
— É, parece que o meu noivo será um rei eficiente. — sorriu de lado. — Adoro essa firmeza. — ela chegou mais perto e tocou seus lábios nos meus, num beijo rápido. — Espero que esta noite não tranque as portas dos seus aposentos. — riu. — Bem vinda, querida. — sorriu para Maitê.
— Obrigada, alteza. — Maitê sorriu também e logo depois, Eliza retirou-se. — Eu adorei ela!
— Sério? —franzi a testa.
— Sim, parece bem gentil e divertida.
— Não conte a ninguém que eu disse isso, mas para mim ela é uma chata. E enquanto ela estiver aqui, as minhas portas ficarão bem trancadas. — Maitê riu. — É sério, a mulher é insuportável, não se deixe enganar.
— Talvez os meus doces tornem o seu casamento mais suportável.
— Por favor, seja a minha salvadora! — brinquei.
Fiquei conversando com Maitê por um bom tempo e depois de provar e aprovar a maravilhosa torta que ela preparou, eu mandei que lhe dessem uma boa quantia em dinheiro e a dispensei, para começar oficialmente no dia seguinte.
Eu tinha o costume de tratar meus funcionários como amigos e até hoje, apenas Edgar havia se tornado meu amigo de fato. Mas só por aquele breve momento com Maitê, eu pude ver que ela também estava disposta a criar um vínculo amistoso comigo.
E o jantar foi marcado por Eliza falando sobre a própria vida enquanto eu e minha irmã nos olhávamos constantemente com expressões tediosas. Eu não via a hora de meu pai retornar e aquela mulher ir embora.
— Bom, eu já estou bem cansada. — Eliza levantou-se. — Vejo vocês amanhã... ou não. — deu uma piscadela para mim e depois, foi em direção aos aposentos.
— Quando você se tornar rei, se eu matar ela na primeira semana de convivência, você me concede o perdão real? — minha irmã perguntou.
— Anahí, eu vou até te condecorar se fizer isso. — esfreguei meu rosto com as mãos. — Que mulher chata, meu Deus...
— A pior! — revirou os olhos. — Eu só conversei com a Dulce duas vezes na vida e tenho certeza que ela é bem mais interessante. Eu entendo a sua obsessão pela plebeia.
— Não é obsessão.
— Christopher, francamente, qualquer pessoa em sã consciência teria parado de insistir em um romance sem futuro. Você está obcecado.
— Não foi você quem disse que não iria mais envolver-se? — Anahí soltou um longo suspiro.
— Você é doido. — ficou de pé. — Sabe, graças a Deus que eu vou ter o Alfonso para conversar comigo nos próximos anos. Se eu tivesse que conversar apenas com você, senhor obsessivo e a sua esposa chata, eu cortaria os meus pulsos.
— Vai dormir, vai. — ironizei.
— Boa noite. — ela beijou minha bochecha.
— Boa noite.
Só mais um dia e eu iria me livrar da presença incômoda de Eliza. Deixei a mesa e fui até os meus aposentos. Assim que entrei, tratei de trancar as minhas portas.
Comecei a tirar minhas roupas e fui para a cama. Quando me enfiei debaixo dos lençóis e fechei os meus olhos, senti mãos gélidas tocarem as minhas costas e por instinto, peguei a espada que ficava ao lado de minha cama e apontei direto para o pescoço de quem me tocava.
— CHRISTOPHER!!! — Eliza gritou, com olhar de pânico.
— Meu Deus, Eliza! — fiquei de pé e coloquei a espada onde estava antes. — Eu poderia ter cortado o seu pescoço agora!
— Que reflexo mais violento você tem! — reclamou.
— Ora essa, eu fui treinado para estar sempre atento! O que diabos está fazendo em minha cama?
— Foi o único jeito que encontrei de ficar aqui com você. — ela engatinhou para perto de mim. — Eu adoro o jeito como você não usa quase nada para dormir... — correu suas mãos pelo meu tórax, em direção às minhas roupas de baixo.
— Que falta de decoro! — dei um passo para trás. — Não pode dormir comigo enquanto não estivermos casados.
— Que bobagem! Eu odeio essas tradições! — revirou os olhos. — Nossos pais não precisam saber. — sorriu maliciosa.
— Princesa, eu não vou desobedecer nenhuma tradição. Que tipo de rei eu seria se começasse a quebrar regras em benefício próprio? — na verdade, eu não me importava com esses costumes, mas também não queria dormir com ela.
— Não sou atraente o suficiente para você? — falou baixando a alça do vestido fino que usava. — Não pode resistir por tanto tempo. — e ela revelou seus s***s após baixar o vestido até sua cintura.
— Ah... — eu não conseguia parar de olhar, mesmo lutando contra essa tentação. — Céus...
— O que acha disto? — acariciou seus s***s, sem deixar de me encarar.
— Eu acho que você é uma depravada.
— O que? — ficou séria.
— Saia daqui. — desviei o olhar para a parede. Não olhar para ela daquele jeito me ajudaria a estar no controle das minhas emoções.
— Você não pode me tratar assim!
— Se você não se respeita, eu a respeito. Agora, por favor, saia daqui e me deixe dormir.
— Talvez seu pai tenha criado um frouxo! — tornou a se vestir e ficou de pé. Ela parecia furiosa. — Não vai dizer nada?
— Eu não ligo para o que você pensa, nenhuma das suas provocações vai ser o suficiente para me fazer ceder aos seus caprichos. Por Deus, saia daqui! — ela bufou de raiva e saiu batendo o pé.
No dia seguinte, Eliza se manteve bem indiferente comigo, tratando-me super m*l o tempo inteiro. Sinceramente, aquilo era bem melhor do que ter que suportar a sua total carência de afeto. Meu pai voltaria naquela noite e ela partiria na manhã seguinte.
No período da tarde, eu e Dulce nos encontramos no mesmo lugar e começamos a caminhar por entre as árvores do bosque.
— Parece chateado. — ela disse olhando para mim.
— É que está sendo um pouco complicado ter a princesa Eliza no castelo.
— Por que?
— Ela é muito chata, até a voz dela me irrita. — bufei. — Mas eu não quero falar dela. — segurei a mão de Dulce e a puxei para perto de mim. — Você tem cheiro de morangos. — falei, roçando meu nariz no dela.
— Talvez eu tenha gosto de morangos também. — sussurrou sobre a minha boca.
A encostei contra uma das árvores e a tomei em um beijo que me trouxe o mais puro alívio para todos os meus pensamentos preocupados. Dulce era como um chá calmante, seus beijos esvaziavam minha mente e ao mesmo tempo, enchiam o meu peito.
Começamos a sentir gotas de chuva que logo se tornaram mais fortes. Segurei em sua mão e nós corremos até uma caverna bem próxima ao rio. Depois de estarmos protegidos da chuva, ela riu espremendo seus cabelos molhados.
— Espero não pegar um resfriado. — ela disse.
— Vem cá. — sentei em uma rocha e fiz sinal para que ela sentasse ao meu lado, depois eu a abracei contra o meu peito. — Assim vai ficar mais aquecida.
— Isso é bom... — suspirou. — Estar perto de você me faz sentir bem.
— Digo o mesmo. Eu nunca achei que fosse precisar tanto de uma pessoa até conhecer você. Saiba que é preciosa, Dulce. — beijei sua testa.
— Daniel, eu posso perguntar uma coisa? — ela se afastou para olhar em meus olhos.
— Claro.
— Outro dia, quando eu falei com a sua irmã, ela me disse algo que me deixou um pouco intrigada. — disse sem jeito.
— O que?
— Ela disse que eu não deveria ficar com você porque você poderia me machucar.
— Ela disse isso? — Dulce assentiu. Anahí só podia estar louca! — Olha, Dulce, a minha irmã é um pouco protetora demais e também tem uma mente muito pequena. Ela nunca conheceu aldeões antes e eu também nunca me relacionei com nenhuma. Talvez ela tenha dito isso porque ainda não confia em você.
— Não pareceu isso. — me olhou de canto.
— Eu só preciso que você confie em mim e entenda que eu jamais, em hipótese alguma machucaria você. Confia em mim? — segurei seu rosto, olhando fixamente em seus olhos.
— Confio.
— Ótimo! — sorri. — Eu jamais cometeria o erro de perder você.
Ela me beijou, envolvendo seus braços em meus ombros e eu a beijei de volta na mesma intensidade. Nada se ouvia além do barulho da chuva que caía lá fora e aquela parecia ser a música perfeita para acompanhar os nossos toques de amor.
Comecei a deita-la sobre o chão, dando atenção a cada parte dos seus lábios, correndo minha língua no interior de sua boca. Dulce levou seus dedos até os botões de minha camisa e começou a abri-los um a um.
Sentir suas mãos delicadas tatearem o meu tórax foi a sensação mais prazerosa que eu já havia sentido até aquele momento. Eu sabia o que eu queria e pelo ritmo em que íamos, aquilo acabaria em algo bem maior do que já tínhamos feito juntos até então.
Eu parei de beija-la e a observei, ofegante e com um brilho radiante em seus olhos.
— Você quer fazer isso? — eu entendia como aquilo era importante para uma mulher, ainda mais uma mulher tão pura e ingênua como a Dulce.
— Sim.
— Tem certeza?
— Com você eu tenho todas as certezas do mundo. — sorrimos um para o outro e tornamos a nos beijar, concentrando-se para o que estava prestes a acontecer.