08

2464 Palavras
Dulce Como todos os dias, eu fui até o bosque e esperei por Daniel embaixo das macieiras. As horas foram passando e o sol já parecia querer ir embora, me dando a certeza de que ele não viria.  Levantei, limpei a grama de minhas roupas e quando estava prestes a ir embora, ouvi um cavalo aproximar-se. Abri um sorriso instantâneo achando que Daniel estava a chegar, mas não era ele.  — Oi, Dulce! — Anabel disse.  — Oi, Anabel!  — O meu irmão me fez vir até aqui para dizer que ele não poderá vê-la hoje. — ela parecia desconfortável.  — Aconteceu alguma coisa?  — O rei não está no castelo e o príncipe atarefou um pouco o meu irmão.  — Por que ele mandou você aqui sozinha? Pode ser perigoso.  — Bem, eu sou a única pessoa que a conhece e não se preocupe por eu estar sozinha, eu e a Gamora corremos muito rápido. — fez carinho em sua égua. — Quer que eu a leve em casa?  — Não precisa. — sorri de lado. — Ele vai poder vir amanhã?  — Ele não sabe, então pediu que você não saia de casa. Se ele for vê-la, irá até você.  — Tudo bem.  — Eu jurei que não ia mais me envolver... — suspirou.  — O que? — franzi a testa.  — Dulce, você é muito bondosa e eu não sei se deveria ficar tão perto do Daniel.  — Por que diz isso?  — Eu não estou dizendo que ele é uma má pessoa, porque ele não é. Meu irmão tem o coração mais puro que eu já vi. A questão é que talvez ele machuque você mesmo que não tenha essa intenção.  — Eu não estou entendendo...  — Quer saber? Esquece que eu disse isso. — riu. — Eu não vou me envolver, não é da minha conta. Até mais, Dulce.  — Até. — acenei para ela.  No caminho de volta para casa, não parei de pensar nas palavras de Anabel. O que ela queria dizer com "talvez ele machuque você"? O que Daniel estaria me escondendo?  Quando passei em frente à taverna, vi o dono expulsar Ronald de lá. Ele estava bêbado e reclamando que não tinha bebido o suficiente.  — Ron? — o chamei.  — Dulce! — ele abriu os braços vindo até mim. — Como é bom te ver! — me abraçou jogando seu peso contra meu corpo.  — Você tem que ir para casa. — eu disse.  — Só se você me levar.  — Está bem, apoie-se em mim. — ele jogou um de seus braços sobre os meus ombros e nós começamos a andar em direção à sua casa.  — Olha aquela lua lá em cima! Gorda e brilhante... parece a minha tia Guidea suada. — gargalhou.  — O que deu em você? Não é de beber assim.  — Sabe, Dulce... a vida parecia fácil quando você não tinha ninguém. Tudo bem que me rejeitasse, ninguém iria tocar em você de qualquer forma. — cambaleou um pouco para a direita e eu tive que usar minha força para mantê-lo de pé. — Agora tudo se complicou.  — Nós já conversamos sobre isso.  — E o pobre Ronald terá que aceitar. — riu. — Você me odeia, não é? Pode dizer.  — Não, eu não o odeio.  — Eu devo ser insuportável. — cuspiu no chão. — Minha boca está seca.  — Estamos quase chegando em sua casa. Nós entramos juntos em sua casa e eu o levei até sua cama. Quando me virei para pegar o jarro de água, ele segurou o meu braço e me fez olhá-lo.  — O que ele tem de tão especial? — perguntou.  — Já conversamos sobre isso e você disse que não iria mais insistir.  — É que isso é muito difícil! Tem noção do quanto eu amo você?  — Não diga bobagens! Você não me ama dessa forma.  — Não entende o que eu sinto.  — Se me amasse, me deixaria em paz. — depois que eu disse isso, ele ficou sério e em completo silêncio. — Precisa beber água para recuperar-se. Eu peguei o jarro com água, coloquei em um copo e segurei sua cabeça para que ele bebesse. Fiquei ao lado de Ronald até ele pegar no sono e antes de sair, deixei um balde ao lado da cama caso ele sentisse a necessidade de vomitar.  Já era tarde quando eu voltava para casa. Coloquei o capuz da minha capa sobre minha cabeça, certificando-me de ficar bem escondida enquanto apressava meus passos pela aldeia. Os prostíbulos eram os últimos estabelecimentos a fecharem e eu podia ouvir o barulho de cantoria alta e as vozes de homens conversando ecoarem pelos becos. Homens bêbados que não perdoariam nenhuma mulher que estivesse sozinha naquela hora da noite.  Passei pelos fundos de um desses lugares e para o meu desconforto, um bêbado assediava uma meretriz que parecia não estar muito interessada em lhe prestar seus serviços. Eu poderia simplesmente me esconder mais em meu capuz e ir embora, mas eu detestava ver uma mulher sendo maltratada, por mais impura que ela fosse.  — Ei, ela já disse que não quer, deixa ela em paz! — gritei tirando o meu capuz.  — Ah, olha só o que temos aqui... — ele sorriu maliciosamente, vindo em minha direção. — As mulheres de Seráfia são as mais deliciosas.  Quando ele ameaçou tocar em mim com aqueles dedos sujos, instintivamente eu segurei o seu braço e o torci, fazendo o homem ajoelhar-se no chão, grunhindo de dor.  — Acha que pode fazer o que quiser com qualquer uma? — perguntei.  — Me solta, vagabunda! — torci seu braço ainda mais. Se eu girasse mais um pouco, acabaria quebrando. — Me solta! — gritou de dor.  Eu o soltei e lhe dei um chute. Depois de levantar-se, ele saiu correndo para dentro do prostíbulo, cambaleando pela bebida e segurando seu braço que quase foi quebrado.  — Uau, você tem um ótimo reflexo! — a meretriz de cabelo preto falou.  — Meu pai me ensinou algumas coisas sobre como me defender de homens nojentos assim. É a primeira vez que eu faço isso. — eu me sentia nervosa, mas orgulhosa de mim mesma.  — Muito obrigada pela ajuda. A maioria das pessoas sequer lembra que eu existo. — sorriu fraco. — Sou a Maitê. — ela ergueu sua mão para me cumprimentar, mas eu fiquei parada. — Ah... — ela baixou sua mão devagar e desviou o olhar, sem jeito. — Eu entendo que não queira contato.  — Não é nada pessoal.  — Pois é... a igreja pintou as meretrizes de sujas e impuras, então nenhuma mulher considerada digna chega perto delas. — limpou suas mãos em seu avental. — Eu uso avental porque eu sirvo cerveja, limpo o balcão e também preparo comida para os clientes. Ganho o meu dinheiro com isso, não com sexo.  — Então, você não é uma...  — Prostituta? Não. Mas o fato de eu trabalhar num prostíbulo não me deixa com uma imagem boa, por mais que eu não faça nada demais.  — Ah... eu sinto muito... — agora eu estava envergonhada por tê-la tratado com indiferença.  — Não sinta. Você não é diferente de mim e nós não somos diferentes dessas mulheres que estão lá dentro. Somos todas pobres que tentam ganhar dinheiro como podem. Elas não têm culpa de terem nascido numa realidade miserável.  — Eu nunca vou precisar vender a minha dignidade para conseguir dinheiro. — me senti ofendida pela comparação.  — Eu sei, olha só você. Essas roupas parecem novas, esses tecidos são de qualidade e você usa esse crucifixo no pescoço. Confia na igreja e sempre vai concordar com tudo o que ela disser. Eu entendo. A maioria das pessoas não nasce enxergando o mundo como ele realmente é.  — O que? Acha que Deus não existe? — franzi a testa.  — Longe de mim. Se eu disser uma coisa dessas, serei acusada de bruxaria. Só prefiro acreditar que Jesus não trataria uma meretriz como vocês cristãos tratam. Aliás, pelo que me recordo, ele protegeu uma. — sorriu de lado. — Você me protegeu também, mas nem tem coragem de tocar em mim. — eu mirei o chão. Ninguém nunca tinha falado aquelas coisas para mim.  — Meu nome é Dulce. — eu disse quando ela parecia já estar indo embora. — Peço que me perdoe. A sua visão é bem interessante e eu adoraria saber mais. — ergui minha mão para ela, que me cumprimentou e sorriu logo em seguida.  — O importante é evoluir. Obrigada mais uma vez, Dulce. Que Deus guie seus passos até em casa.  — Amém. Tenha uma boa noite. — sorri.  Sob a luz do lampião, eu tentava me concentrar na leitura do meu livro, mas ao mesmo tempo, o meu encontro com Maitê rondava os meus pensamentos. Suas palavras eram firmes e o sermão que ela me deu, fez a minha mente se abrir para um mundo de possíveis possibilidades sobre como a nossa sociedade atual talvez não fosse tão justa quanto eu achava.  Cresci ouvindo que as moças que trabalhavam naqueles prostíbulos eram impuras e sujas, comparadas até com leprosos. Nenhuma moça de família deveria ser vista falando com alguma delas. Eram um grupo demonizado pela sociedade, mas ao mesmo tempo, não eram acusadas de bruxaria e agora estava claro o porquê. As meretrizes oferecem prazer fácil aos homens e eles jamais acabariam com algo que os beneficia. Eu gostava de aprender, tanto com livros, quanto ouvindo a perspectiva de outra pessoa sobre algum assunto, qualquer que fosse. Eu era fascinada por aprendizado, o que fazia de mim uma moça rara, entre tantas outras que eram impedidas por suas famílias de terem uma devida educação.  Acabei indo dormir muito tarde e na manhã seguinte, fui até a venda às pressas, depois que minha mãe já havia saído. Pelo caminho, eu ouvi os comentários que diziam que a princesa Eliza, nossa futura rainha, estava no castelo para visitar seu noivo.  Assim que entrei na venda, eu vi Daniel conversando com Angelique. Quando ele me viu, veio até mim e sem nenhuma cerimônia, pousou suas mãos sobre a minha cintura e me deu um beijo.  — Bom dia, minha querida. — ele disse. — Bom dia. — eu sorri.  — Dulce! — minha mãe apareceu, com uma expressão um pouco irritada. — Eu nem a vi chegar ontem! No que estava pensando ficando fora até tarde? — colocou as mãos na cintura.  — Ficou fora até tarde? — Daniel me olhou.  — Eu tive um imprevisto. — minha mãe arqueou as sobrancelhas, como se quisesse que eu continuasse a falar. — Foi o Ronald. Ele estava muito bêbado, não conseguiria ir para casa sozinho. Eu fiquei com ele até ter certeza que estava tudo bem. Desculpe-me por tê-la deixado preocupada.  — O Ronald é um homem adulto, ele pode muito bem cuidar-se sozinho! É muito perigoso uma mocinha ficar andando pela aldeia tão tarde! — ela ainda estava brava.  — Mas... — Daniel me interrompeu.  — Sua mãe tem razão, Dulce. A integridade física do Ronald é responsabilidade dele. Foi ele quem escolheu beber tanto, não é problema seu.  — Agradeço pelo conselho, mas ele é meu amigo e eu jamais deixaria um amigo meu sozinho nessa situação.  — Eu já te disse que ele não parece ser seu amigo. — Daniel suspirou.  — Isso quem decide sou eu. — a minha resposta grosseira apareceu sem querer e Daniel me olhou com surpresa.  — Isso é jeito de falar com o Daniel? — fui repreendida por minha mãe. — Peça desculpas!  — Não há necessidade, dona Blanca. — ele disse. — Eu estava entrando num assunto do qual não sei nada, Dulce tem todo o direito de me responder assim.  — Tudo bem. — minha mãe disse. — Eu vou voltar a costurar e você, mocinha, será responsável por fechar a venda. — ela deu as costas e entrou.  — Dulce sendo repreendida pela primeira vez... eu preciso contar ao Christian! — Angelique saiu saltitando em direção à padaria.  — Desculpe-me... — falei olhando para ele sem jeito.  — Eu já disse que você não precisa me pedir desculpas. Ninguém entende a sua amizade com o Ronald melhor que você.  — Obrigada por compreender.  — Eu compreendo, mas seria hipocrisia da minha parte se dissesse que aceito. Eu não gosto dele. Ele te olha como se quisesse desesperadamente beija-la e pelo que pude perceber, ele quer. Saber que tem alguém com esses pensamentos tão próximo de você me incomoda.  — Está com ciúmes? — não consegui evitar de sorrir.  — Sim, eu estou. Ficou muito tempo com ele ontem?  — Só até ele dormir.  — Hum...  — Ei, não precisa se preocupar. — pousei minhas mãos em seu peito. — Eu nunca me interessei pelo Ronald e agora que você apareceu, a possibilidade de eu ter algum sentimento por ele ficou ainda mais longe.  — Por que? O seu coração já está ocupando-se comigo? — ele sorriu e acariciou o meu rosto.  — Digamos que sim...  Daniel chegou mais perto, roçando seu nariz no meu e me deu um beijo carinhoso, enquanto abraçava a minha cintura. Estar presa em seus beijos me deixava com a sensação de estar em outro ambiente, um lugar tranquilo, onde nada jamais me atingiria. E mesmo depois de ele afastar sua boca da minha, aquela sensação perdurava por longos segundos.  — Eu vim aqui compensar por ontem. O príncipe está cheio de coisas para fazer e tudo no castelo foi uma correria. — ele disse.  — Eu soube que a noiva dele está de visita. Como ela é? Ela é bonita? — eu estava animada e curiosa para saber.  — Bem... — Daniel pareceu desconfortável por algum motivo e desviou o olhar. — Ela é uma princesa bem complicada.  — Como assim?  — Cá entre nós, Eliza é insuportavelmente egocêntrica. O mundo gira em torno dela e quem discordar é inimigo.  — Que horror! — nós dois rimos. — Espero que ela não seja uma rainha c***l.  — Não precisa se preocupar, o príncipe Christopher já deixou claro que a voz dessa mulher não terá tanto poder quanto ela pensa que vai.  — Menos m*l.  — Vamos falar de outra coisa? Eu prefiro mesmo focar em você e em como você é perfeita em todos os detalhes. — aquelas palavras me faziam tocar o céu.  Daniel passou o dia inteiro comigo, me vendo trabalhar, conversando muito sobre nossas vidas e claro, me dando alguns beijos sempre que via a oportunidade. Era muito prazeroso estar ao seu lado e tê-lo por perto aquecia o meu peito de um jeito novo e que aumentava a cada dia.
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