Pré-visualização gratuita Daniela
Faz 20 dias que o dono da nossa casa vem segurando o aluguel. Mas é um senhor de idade, que precisa do dinheiro, entendo a pressa dele. Mas eu não tenho mais da onde tirar dinheiro.
Rafael, dois anos mais velho que eu, com seus 25 anos, descobriu uma doença rara e que compromete o seu sistema nervoso central. Fazendo com que tenha tremores e convulsões. Precisa ficar 24 horas sob vigilância hospitalar.
Sou técnica em enfermagem, comecei a cursar com 19 anos, quando a doença do Rafa veio a tona. Fui uma das melhores da classe, e logo consegui indicação de trabalho. Estou no hospital que melhor paga e melhor atende. Fizeram um esquema de desconto muito bom para nós, cerca de 70% de desconto, mas ainda assim, é surreal de caro.
Meu irmão está há 5 meses internado já. Precisa de medicamentos caríssimos, e tratamentos que vem do exterior. Os médicos já me prepararam, para o caso de ele não aguentar. Mas eu não posso pensar nisso. Desde os meus 7 anos, somos só eu e ele. Crescemos na casa dos nossos avós paternos. Mas eles era idosos e m*l cuidavam de nós. Era um pelo outro sempre. E só de pensar me dá vontade de chorar.
- Com licença... - Ouço a voz de um homem e ergo a cabeça. Estava arrumando a medicação com soro no braço da senhora Semedo. Uma senhora brava, mas ao mesmo tempo, era divertida e gente boa. - Está tudo bem? - Ouço a voz de novo, e pisco fitando nos olhos escuros a minha frente.
- Oh, sim... - Forço um sorriso. - Estou trocando o soro... - Começo a explicar desviando o olhar do belo homem.
- Está chorando. - A voz dele é grossa e imponente, mas tem uma brandura e delicadeza que me faz erguer os olhos para ele novamente. Sua pele era clara, nitidamente bronzeada pelo sol. Os cabelos bem pretos, e uma barba rala. Os olhos escuros sob sobrancelhas grossas davam a ele um ar de poder e domínio. A mão grande e grossa dele toca no meu rosto e o viro automaticamente.
- Desculpe. - Termino o que precisava fazer e me dirijo a saída do quarto. A senhora Semedo é rica e sempre vem acompanhada de alguém, na maioria das vezes a filha, ou um empregado. É a primeira vez que vejo esse homem.
- Espere... - Sinto ele me segurar firme pelo braço e me viro de cenho franzido. Qual é? Eu nem senti a lágrima cair! - Qual o seu nome?
- Meu nome? - Minha voz sai aguda e trêmula, será que ele ia reclamar de mim? Só porque derramei umas lágrimaszinhas? Oh Deus, não faz isso comigo, como vou pagar o hospital? - Por-por quê? Vai fazer uma reclamação? Por favor senhor, eu lhe peço desculpas, é que meu ...
- Não! - Ele me interrompe com um meio sorriso e as sobrancelhas franzidas. - Nâo, nada a ver... fique calma. - Respiro fundo, e respondo.
- Técnica de enfermagem Daniela Neves Paiva. - Respondo aguardando pelo quer que seja.
- Muito prazer, Vicente Álvares Semeno. - Ele estende a mão, que pego e dou um meio sorriso. Um semedo, devia ser neto da Senhora Semedo. Tomarei mais cuidado, não posso me deixar levar e chorar no trabalho.
- Certo, a Senhora Semedo está bem, já foi medicada, e será liberada em algumas horas.
- OK, muito obrigado. - Viro as costas e saio apressada, perdi tempo de mais ali, agora tenho que correr nos outros atendimentos.
O dia acaba depois de 12 horas de trabalho com duas horas de intervalo. Ou seja, 14 horas perdidas no trabalho. Mais uma hora de transporte. Me sento no sofá velho de casa, e remexo o miojo que fiz para comer. É o só o que vem dando pra comer. Compro 90 pacotes de miojo do mais barato e com isso consigo sobreviver o mês. Já fazem quase três meses que estou assim. Sempre fui corpulenta, com 1,65 de altura, quadris mais largos, s***s fartos, mas com esses meses mais difíceis que venho vivendo, perdi cerca de 10 quilos. Seco a lágrima que insiste em rolar, largo o prato com o miojo, que já esfriou e não comi.
Começo a fuçar no celular empregos com horários flexíveis. Pego no hospital às 8 e saio as 22 horas, com o intervalo. Precisava encontrar algo que pudesse ser dia sim, dia não, das 23 hs às 7 hs. Onde vou arrumar isso? Fazendo o que? Travo os dentes ao me lembrar da proposta que recebi de uma enfermeira. Ela trabalha somente seis horas no hospital, e depois vai para uma boate, onde consegue o triplo de salário. Eu já consegui dois turnos no hospital, por pena, os chefes me autorizaram até meu irmão sair do hospital fazer tantas horas extras. Se não fosse isso, não teria como.
Procuro o número dela na agenda do celular, e clico em cima. Deus me ajuda! Chama uma, duas, três, penso, que se chamar mais uma vez e não atender, é um sinal de Deus, para eu não me meter com essas coisas. Então ela atende. Droga! O que estou fazendo? Posso ouvir o barulho do som alto ao fundo, conversas e risadas.
- Elô? Pode falara agora?
- Oi, Dani, posso sim, só um minuto. - Ouço os sons diminuindo, até serem abafados completamente.
- Tudo bem? - Elô tinha se tornado uma boa amiga. Era enfermeira e sempre me ajudava no que podia. De vez em quando levava almoço a mais para dividir comigo, por não aguentar me ver comendo miojo todos os dias.
- Sim... - Silêncio.
- Dani? - Solto o ar que estava prendendo.
- Eu... eu queria saber... se ainda tem aquela vaga... - Fico em silêncio, então ouço um suspiro.
- Eu consigo uma vaga pra você... mas você sabe como é aqui né? - Elô sabia que eu nunca tinha namorado na vida, e seria muito difícil pra mim entrar numa boate dessas. Mas eu tenho escolha? É isso ou ter as coisas jogadas na rua, e morrer de fome, e deixar meu irmão morrer. E não! Isso não é uma opção. - Você não é obrigada a nada, a não ser servir e dançar. Mas... sempre vão tentar...
- Tá... - Travo os maxilares e fecho os olhos. - Não tenho escolha. - Digo baixo e em seguida ela responde.
- Ok, vem amanhã depois do turno, eles dão roupa para atender aqui.
- Muito obrigada, Elô. - Responde segurando os soluços do choro que quer vir contudo.
- Não amiga... não me agradeça... - Desligo e desabo.
As últimas semanas foram terríveis. Combinei com o dono da boate de trabalhar dia sim, dia não. Eu atendo e danço como posso. Sorrio e aceno. Mas minha vontade é correr daquele inferno. O lugar é escuro, com luzes vermelhas piscando e fumaça por todo lado. Fede a bebida e cigarro, mas eles usam outras substâncias por lá também. Homens bêbados passando a mão nas garçonetes e dançarinas, e o pior, a maioria usa máscara. Se fizerem algo, não tem nem como saber quem foi. A boate é de alto padrão, muitos políticos e policiais vão lá, fora os CEOs e bilionários. Então na entrada eles recebem máscaras, caso não queiram ser identificados, e a maioria as usa. Todo cuidado era pouco.
Hoje terei folga a noite, posso sentir minhas olheiras. Correndo para levar um balão de oxigênio esbarro em um homem. - Oh, sinto muito...
- Que isso, acontece... como vai, Daniela? - Só ao ouvir como ele me chama que ergo os olhos. É o bonitão que está acompanhando a senhora Semedo. É neto dela mesmo, sempre puxa assunto comigo quando vou no quarto dela, mas é raro eu ter tempo, então acabo sempre o deixando no vácuo.
- Ah, oi, desculpa, eu m*l vi que era o senhor, correria... sabe como é.. - Ele dá um meio sorriso que devolvo e saio em disparada.