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O salão estava impecável — luxo, flores brancas por todos os lados, cristais refletindo a luz dourada que parecia ainda mais fria do que deveria.
Mário Ferreira não sorria.
Ele estava de pé no altar como se aquilo fosse uma assinatura de contrato e não um casamento. Terno sob medida, postura impecável, 2 metros de presença que intimidava até os convidados mais próximos. Mas por dentro… tudo era gelo.
A traição ainda queimava.
A imagem dela — a noiva anterior — com o amigo dele fugindo como se nada tivesse acontecido, voltava em flashes rápidos e cruéis. E agora, ali, ele estava prestes a casar de novo. Não por escolha. Mas por correção de imagem. Por conveniência. Por orgulho ferido.
Então ela entrou.
Bianca.
25 anos. Morena. Cabelos cacheados caindo em ondas definidas sobre os ombros. Vestido branco simples, mas perfeitamente ajustado ao corpo. E havia algo estranho nela… não era arrogância, não era medo exagerado. Era silêncio.
Um silêncio que parecia aceitação.
Os pais de Mário tinham escolhido bem. Até demais.
Porque ela lembrava demais a outra. E isso o irritava mais do que ajudava.
Quando ela chegou ao altar, ele não disse nada.
Nenhum “olá”. Nenhum sorriso.
Só estendeu a mão.
Bianca olhou para ele por um segundo antes de segurar.
E não soltou mais.
A cerimônia começou.
Mário não olhou nos olhos dela nenhuma vez. Mas manteve a mão firme na dela o tempo inteiro — não como carinho… mas como posse. Como se aquilo fosse o único controle que ele ainda tinha naquela situação.
E Bianca… não recuou.
Não falou.
Não questionou.
Só ficou ali, ao lado dele, respirando baixo, firme, como se já tivesse aprendido que naquele tipo de mundo… sobreviver era mais importante do que ser ouvida.
O padre falava sobre amor.
Mário não escutava.
Quando chegou o momento dos votos, ele hesitou por meio segundo.
Curto.
Quase imperceptível.
Mas suficiente para mostrar que aquilo não era uma promessa… era um acordo.
E Bianca apertou levemente a mão dele.
Como resposta.
Sem palavras.
Sem expectativa.
E naquele gesto pequeno, quase invisível, algo começou a incomodar Mário de um jeito diferente do ódio ou da dor.
Não era amor.
Ainda não.
Mas também não era indiferença.
A festa começou logo depois da cerimônia, como se ninguém tivesse tempo para respirar.
O salão foi tomado por música baixa, taças sendo servidas, flashes discretos de fotógrafos tentando capturar o “casal perfeito” que, na verdade, m*l se conhecia.
Mário ainda segurava a mão de Bianca.
Não por carinho.
Por controle.
Ela caminhava ao lado dele com uma calma quase inquietante, cumprimentando os convidados com um leve aceno de cabeça quando necessário, sem se esconder, mas também sem se expor demais. Como se já soubesse exatamente como sobreviver em ambientes onde todos julgavam tudo.
— Impressionante… — uma das mulheres sussurrou perto de outra mesa. — Ele se casou tão rápido depois do escândalo.
— Dizem que foi a família que resolveu tudo… — a outra respondeu baixo, olhando para Bianca de cima a baixo. — Ela parece… parecida.
Mário ouviu.
Mesmo sem olhar.
E o maxilar dele travou.
Bianca também ouviu.
Mas não reagiu.
Só apertou levemente os dedos dele, como se dissesse sem palavras: eu não preciso da sua defesa.
Isso, por algum motivo, irritou mais ainda.
No centro do salão, os pais de Mário tentavam sustentar a imagem perfeita da noite. Sorrisos ensaiados, discursos sobre “recomeços”, “união” e “destino”.
Mário não acreditava em nada daquilo.
Quando finalmente chegaram à mesa principal, ele puxou a cadeira para Bianca sentar.
Um gesto mínimo.
Quase automático.
Ela sentou e ajeitou o vestido com cuidado. Elegante. Silenciosa. Presente.
E ele ficou de pé ao lado dela por um instante longo demais, como se não soubesse o que fazer com aquilo.
— Você não vai comer? — a voz dela veio baixa.
Simples.
Sem emoção.
Mário virou o rosto devagar, surpreso por ela ter falado a primeira vez sem ser provocada.
— Não estou com fome.
Bianca assentiu, como se aceitasse qualquer resposta.
E voltou a olhar a mesa.
O silêncio entre os dois não era confortável… mas também não era vazio. Era cheio de coisas não ditas, como uma sala trancada por dentro.
A certa altura, um convidado mais ousado se aproximou, taça na mão.
— Mário Ferreira… finalmente decidiu sossegar, hein? — o homem riu. — Depois de tudo…
A frase morreu no ar.
Porque Mário virou o rosto devagar.
E o sorriso do homem desapareceu na mesma hora.
— Você está confundindo “decidir” com “ser obrigado”, disse Mário, frio.
O homem engoliu seco e recuou.
Bianca olhou de lado para ele. Não assustada. Apenas observando.
Como se estivesse registrando cada rachadura daquele homem.
Mais tarde, quando começaram as fotos oficiais, Mário voltou a segurar a mão dela com força.
Mais firme agora.
Quase demais.
E Bianca finalmente olhou diretamente para ele.
Por um segundo.
Longo.
Silencioso.
E naquele olhar não havia submissão.
Nem medo.
Só uma calma perigosa, como quem já entendeu que aquele casamento não era um final feliz… era o começo de uma guerra silenciosa dentro da mesma casa.
Quando a festa terminou, o carro seguiu em silêncio pelas ruas da cidade até a mansão de Mário.
Um lugar grande demais, frio demais, feito mais de poder do que de vida.
Assim que entraram, o ambiente parecia ainda mais silencioso.
Bianca olhou ao redor por um instante, absorvendo tudo sem dizer nada. Mário tirou o paletó com calma, como se estivesse tentando recuperar o controle de si mesmo depois de um dia inteiro que ele não queria viver.
Ele subiu as escadas sem esperar por ela.
— O quarto já está pronto — disse, sem olhar para trás. — Vai tomar um banho e se arrumar pra mim.
A frase não era um pedido.
Era uma ordem.
Bianca não respondeu.
Só assentiu levemente e seguiu o caminho indicado.
Minutos depois, o som da água correndo preenchia o silêncio da mansão. Ela tirou o vestido de noiva com cuidado, como se aquele tecido carregasse mais peso do que deveria. Lavou o rosto, apagando a maquiagem, revelando de vez a beleza natural — simples, delicada, quase inquietante de tão serena.
Quando saiu do banho, envolveu o corpo numa camisola branca leve. O perfume suave dela ficou no ar enquanto ela voltava para o quarto.
Mário já estava lá.
Sentado na beira da cama.
O olhar fixo nela.
Diferente de antes. Mais profundo. Mais instável.
Bianca parou por um segundo na porta, como se estivesse esperando alguma instrução… ou talvez uma fuga.
Mas não veio nenhuma palavra.
Mário apenas se levantou.
E foi até ela.
O silêncio entre os dois ficou pesado, carregado de tudo que não tinha sido dito naquele dia inteiro.
Ele ergueu a mão, tocando o rosto dela com uma calma estranha, quase como se estivesse tentando decidir se aquilo era real.
E então a puxou para si.
O beijo veio intenso, cheio de conflito, não de delicadeza.
Não era amor.
Era caos.
Era raiva misturada com necessidade, lembrança com fuga, passado tentando ser sufocado pelo presente.
O resto da noite ficou para trás, dissolvido no silêncio daquela casa.
Quando tudo finalmente se acalmou, o quarto voltou a ficar quieto.
Bianca dormia ao lado dele, serena, como se nada pudesse perturbá-la naquele momento — como se tivesse aceitado o peso de tudo sem lutar contra.
Mário permanecia acordado.
Sentado parcialmente, olhando para ela.
O rosto dela tão tranquilo contrastava com tudo o que ele sentia por dentro.
E a dor ainda estava lá.
A traição ainda estava lá.
A imagem da ex ainda atravessava sua mente como um veneno antigo que não saía.
Ele passou a mão pelo rosto, frustrado consigo mesmo.
Porque, pela primeira vez desde que tudo aconteceu…
não era só raiva que ele sentia.
Era confusão.
E Bianca, dormindo tão perto, parecia ao mesmo tempo a resposta errada e a única coisa que estava começando a silenciar o vazio dentro dele.