Laura
A ansiedade corrói meu estômago enquanto aguardo ser chamada para a entrevista. Minhas mãos estão frias e minhas pernas inquietas balançam sem parar debaixo da cadeira. Aquela vaga não era exatamente o que eu sonhava, muito longe disso na verdade, mas eu precisava começar de algum lugar.
Meu diploma de contabilidade ainda parecia distante da vida real. Apesar de já estar graduada.
As parcelas da faculdade acumuladas, o aluguel atrasado e as contas empilhadas sobre a pequena mesa do meu apartamento não me davam o luxo de esperar pela oportunidade perfeita.
Eu precisava de dinheiro. Precisava sobreviver primeiro.
A recepcionista ergue os olhos do computador e sorri de forma simpática.
— Laura? Pode me acompanhar.
Levanto rápido demais e quase tropeço nos próprios pés. Respiro fundo, tentando me recompor enquanto sigo a mulher pelo corredor sofisticado e muito amplo do bar, esse lugar é enorme e absurdamente bonito.
Luzes baixas, decoração moderna, cheiro de madeira misturado com perfume caro.
Subo as escadas e consigo ver daqui de cima vários ambientes.
Caminhamos até parar diante de uma porta preta enorme.
— Pode entrar. - a recepcionista me instrui.
Bato duas vezes e uma voz masculina responde do outro lado.
— Entra.
Abro a porta… e simplesmente esqueço como se respira.
Meu Deus.
O homem sentado atrás da mesa é, sem exagero algum, o homem mais bonito que já vi pessoalmente na vida. Alto, ombros largos, barba perfeitamente alinhada e olhos azuis intensos que parecem atravessar qualquer pessoa.
Pele dourada, cabelo em um tom de louro escuro em um corte militar, maxilar forte e sua boca....
Sinto um calor subir pelo meu corpo inteiro.
Ele ergue os olhos dos papéis e me encara da cabeça aos pés sem nenhuma pressa. Meu coração dispara tão forte que tenho certeza de que ele consegue ouvir.
Ele se levanta.
Muito alto. Muito bonito. Muito homem.
Meu cérebro simplesmente para de funcionar.
— Laura? — ele pergunta.
Faço um movimento afirmativo com a cabeça.
Ele estende a mão.
Fico olhando para ela igual uma i****a por alguns segundos até perceber que deveria cumprimentá-lo. Estendo minha mão trêmula e nossos dedos se tocam.
O aperto dele é firme. Seguro. Quente.
E aquilo me pega completamente desprevenida.
Porque pela primeira vez em muito tempo eu não sinto medo ao tocar um homem.
Não sinto repulsa. Não sinto vontade de me afastar.
Só um nervosismo absurdo.
Ele solta minha mão devagar e aponta para a cadeira à frente da mesa.
— Sente-se, Laura. Vamos conversar sobre a vaga.
Obedeço imediatamente.
Ele abre meu currículo e arqueia uma sobrancelha.
— Formada em contabilidade.
Vejo um pequeno sorriso surgir no canto de sua boca, como se aquilo tivesse despertado sua curiosidade.
— Você é formada. Por que está procurando vaga aqui?
Junto as mãos sobre meu colo tentando controlar o nervosismo.
— Eu procurei trabalho na minha área, mas ainda não consegui nada. Sou nova na cidade e preciso trabalhar.
Os olhos azuis continuam presos nos meus e aquilo me deixa ainda mais nervosa.
— Tem experiência como barista?
— Trabalhei como barista durante a faculdade. Era como eu pagava meus estudos.
Ele parece analisar cada palavra minha.
— Você parece tímida. Aqui é lotado, cheio de gente bêbada da alta sociedade, por vezes esnobes. Tem certeza que consegue lidar com isso?
Engulo seco antes de responder.
— Eu consigo.
Simples. Direta.
Os olhos dele estreitam minimamente como se tivesse me achado interessante.
Ele fecha meu currículo devagar.
— Pode começar hoje?
Piscou surpresa.
— Sério?
Uma sobrancelha dele se ergue.
— Isso é um sim?
Meu coração acelera imediatamente.
— Sim… claro. Muito obrigada.
Ele apenas faz um pequeno aceno de cabeça antes de se levantar.
Enquanto caminhamos pelo corredor tento discretamente observá-lo melhor.
Ele deve ter perto de um metro e noventa. Forte. A camisa social preta marcando os braços musculosos de uma forma quase criminosa.
A calça caqui caí perfeitamente em suas pernas fortes e o tênis Ralph Lauren deixava tudo ainda mais elegante.
E infelizmente meus olhos descem.
O homem tem uma b***a absurda.
Meu Deus, Laura.
Ele para diante do balcão principal do bar.
— Diego, essa é a Laura. Mostra tudo pra ela.
O barista sorri.
— Pode deixar chefe.
Diego começa a me mostrar tudo: máquinas de café, pedidos, sistema, bebidas, estoque. Tento prestar atenção, mas meu cérebro ainda está preso nos malditos olhos azuis do dono.
Depois de um tempo ele me entrega um uniforme.
— Laura, os uniformes foram pra lavanderia e só sobrou esse. Vai ter que quebrar o galho hoje.
Pego as roupas.
— Onde posso trocar?
— Banheiro dos funcionários no fim do corredor. E corre porque daqui a pouco entra o DJ e isso aqui vai lotar.
Assinto rapidamente e corro até o banheiro.
Mas no instante em que visto o uniforme meu humor muda completamente.
A saia preta é absurdamente justa.
Ela marca minha cintura e termina um palmo abaixo da minha b***a. A camisa branca social fica presa por dentro da saia e a gravata borboleta deixa tudo ainda pior.
Ou melhor. Mais vulgar.
Fico me encarando no espelho em choque.
— Ah não…
Solto o cabelo, depois prendo em um coque tentando parecer mais profissional.
Mas não adianta.
Aquela roupa parece feita para chamar atenção masculina.
Respiro fundo.
Você precisa do emprego.
Saio do banheiro tentando ignorar o desconforto.
O bar começa a encher rapidamente. Música alta, gente bonita, cheiro de bebida e perfume caro por todos os lados.
E os olhares começam.
Homens observando minhas pernas. Minha cintura. Minha b***a.
Meu corpo inteiro fica tenso.
Automaticamente me escondo atrás do balcão, onde pelo menos metade do meu corpo fica protegida.
Diego percebe meu desconforto, mas não comenta nada.
Continuo preparando bebidas em silêncio até que um grupo de homens se senta em uma mesa VIP. A garçonete anota os pedidos e os passa para mim.
Preparo tudo rapidamente.
— Laura, consegue levar essa bandeja pra eles? As meninas estão ocupadas fechando pedidos.
Olho para a mesa cheia de homens engravatados e sinto um aperto no peito.
Mas preciso trabalhar.
— Claro.
Pego a bandeja e caminho até eles.
Entrego as bebidas rapidamente tentando voltar para trás do balcão o mais rápido possível.
Mas antes que eu consiga me afastar, uma mão segura meu pulso.
Meu corpo inteiro trava.
— Querida… — o homem sorri de forma nojenta. — Quanto você ganha aqui?
Puxo minha mão discretamente.
— Com licença.
— Relaxa… — ele tira algumas notas do bolso. — Se eu te der muito mais dinheiro, você aceita ir comigo pro meu apartamento?
O nojo sobe imediatamente pela minha garganta.
Olho diretamente nos olhos dele.
— Não sou prostituta. Então pega seu dinheiro e enfia no seu bolso.
Os amigos dele começam a rir.
Tento sair dali, mas assim que viro de costas sinto uma mão apertando minha b***a.
O mundo para.
Meu sangue ferve.
As lembranças vêm como um soco.
Mãos. Toques. Força. Medo.
Não penso.
Apenas me viro e dou um tapa na cara dele com toda força que tenho.
O bar inteiro parece silenciar.
O homem me encara incrédulo antes de começar a rir.
— Vagabunda gostosa…
Antes que ele termine a frase eu pego o copo de bebida da mesa e jogo tudo na cara dele.
Os amigos se levantam imediatamente.
Ouço gritos. Xingamentos. Ameaças.
Então dois seguranças aparecem rapidamente.
Um deles me segura pela cintura e praticamente me arrasta dali enquanto o homem continua berrando que vai acabar comigo.
Estou tremendo inteira.
O segurança me leva para a área exclusiva dos funcionários e me entrega um copo d’água.
— Respira.
Mas eu não consigo.
Meu peito dói. Minha garganta fecha.
Sem falar nada pego minhas roupas e entro no vestiário.
Arranco aquele uniforme ridículo do corpo como se ele estivesse queimando minha pele.
Coloco minha roupa rapidamente.
Quando saio, o segurança ainda está me esperando.
Sigo ele até o escritório que estive mais cedo.
O homem dos olhos azuis ergue os olhos assim que entramos.
Seu olhar passa rapidamente pelo meu rosto vermelho e pela expressão destruída que eu provavelmente estou fazendo.
Ele franze o cenho.
— O que aconteceu?
O segurança cruza os braços.
— Ela deu um tapa num cliente e jogou bebida nele.
Os olhos azuis voltam pra mim.
— Por quê?
Cruzo os braços tentando segurar a raiva.
— Porque ele passou a mão na minha b***a.
O maxilar dele trava imediatamente.
Mas então ele suspira.
— Laura… você devia ter chamado um dos seguranças.
Fico olhando pra ele sem acreditar.
— Como é?
Minha voz sai carregada de raiva.
— Vocês colocam uma saia ridícula numa mulher, um cara me assedia e a única coisa que você consegue dizer é que eu não deveria ter reagido?
Ele passa a mão no rosto claramente irritado.
— Não foi isso que eu quis dizer...
Dou uma risada amarga.
—A foi sim... você é igualzinho eles...
Ele me encara confuso.
Jogo o uniforme no peito dele.
— Devia colocar sua mãe pra usar isso. Ou sua irmã. Quem sabe assim você entende.
E saio batendo a porta.
Meu peito sobe e desce rapidamente enquanto caminho até o estacionamento.
Odeio homens. Odeio mãos em mim. Odeio sentir medo de novo.
Estou quase entrando no carro quando vejo uma garota sentada na calçada chorando.
Ela é linda. Pequena. Frágil.
Meu coração aperta imediatamente.
— Ei… você está bem?
Ela ergue os olhos cheios de lágrimas.
Acabamos conversando.
O nome dela é Nina e ela acabou de brigar com o namorado.
Por algum motivo estranho me sinto confortável perto dela quase instantaneamente.
Então ofereço uma carona.
No caminho conto rapidamente o que aconteceu dentro do bar.
Ela me conta sobre seu namorado e a briga que tiveram.
Solto uma risada sem humor.
Faço o retorno e passo novamente em frente ao bar.
O dono está do lado de fora conversando com o segurança, mas não nos enchergam pois os vidros são escuros.
Ofereço abrigo para Nina...
Levamos sorvete para o apartamento. Assistimos filme. Conversamos por horas.
Faz tanto tempo que não me sinto confortável perto de alguém que aquilo chega a assustar.
Talvez minha mãe tenha razão. Talvez eu seja solitária demais.
Empresto uma roupa pra Nina dormir e depois coloco minha camiseta larga.
O sono me vence rapidamente.
Mas horas depois acordo assustada com batidas fortes na porta.
Meu coração dispara.
Olho o relógio ainda completamente sonolenta e caminho até a entrada.
Abro a porta… e paraliso.
Antony está do lado de fora, olhos azuis me encaram da cabeça aos pés...