Segurança

1538 Palavras
Eu deixo o bonitão dormindo na sala e vou para o meu quarto. — Só comigo acontecem essas coisas mesmo! — resmungo. Qual é a probabilidade de euzinha deixar um estranho dormir na minha casa? Eu diria zero. Mas, ao mesmo tempo em que ele me assustou, também me fez sentir segura. Ele falou que deu uma lição naquele cara. Que tipo de ligação será que ele recebeu? E ele se preocupou com a minha porta, com a minha segurança, com o fato de eu morar sozinha. Talvez ele seja um cara legal. Talvez eu esteja ficando maluca. Ou talvez seja apenas a primeira vez, em muito tempo, que alguém demonstrou preocupação genuína comigo sem querer algo em troca. Durmo em meio aos meus pensamentos, tentando afastar as dúvidas da minha cabeça. Estou caminhando por uma rua deserta. Acabei de sair da escola e estou indo para casa. O céu está começando a escurecer e as ruas parecem vazias demais. Um carro passa ao meu lado e mexe comigo. Eu abaixo a cabeça e acelero os passos. Meu coração já dispara. O carro faz o retorno e passa por mim novamente. Meu estômago embrulha. Pego o celular e tento ligar para minha mãe. Minhas mãos tremem tanto que quase deixo o aparelho cair. Olho para trás e vejo que o carro está parado. A porta se abre. Um homem desce e começa a caminhar na minha direção. Eu corro. Corro o mais rápido que consigo. Nesses quinze anos de vida, acho que nunca senti tanto medo. Meu ar some. Meu peito dói. Minhas pernas queimam. Mas eu não posso parar. Eu sei que ele está correndo atrás de mim. Posso ouvir os passos. Posso ouvir a respiração pesada. Posso ouvir o som dos meus próprios soluços. Eu corro e corro. Olho para trás para ver a distância que existe entre nós. Mas tropeço. Caio no chão. A dor rasga meus joelhos. Antes que eu consiga levantar, mãos fortes me puxam para cima. — Viu só, garotinha? Não adiantou fugir... Eu me debato. — Agora você é minha. — NÃO! ME LARGA! ME LARGA! Eu grito. Grito até minha garganta arder. Me esperneio. Choro. Imploro. Mas ninguém me escuta. Ninguém aparece. Ninguém vem me ajudar. O mundo inteiro parece ter desaparecido. — ME LARGA! ME LARGA! — Meu Deus, Laura! Laura, acorda, querida! É só um pesadelo! Acordo em um pulo, ainda gritando. Meu corpo inteiro está tremendo. Meu coração parece querer sair pela boca. — Laura, calma! Foi só um pesadelo! Eu preciso focar. Preciso respirar. Preciso lembrar onde estou. Eu odeio tudo que aconteceu comigo a seis anos atrás. Levo alguns segundos para conseguir entender a realidade. Inspiro profundamente. Depois de algumas tentativas, minha respiração começa a desacelerar. Só então percebo que, ao lado da minha cama, está Antony. Os olhos azuis dele estão assustados. Preocupados. Como se ele realmente tivesse ficado com medo por mim. Levanto da cama e corro para o banheiro. O nervosismo e o medo me causam náuseas. Me ajoelho diante do vaso sanitário e vomito. Minhas mãos tremem enquanto seguro a borda da pia. Lavo o rosto. Escovo os dentes. Jogo água gelada na nuca. Demoro alguns minutos até conseguir me recompor. Quando saio do banheiro, encontro Antony sentado no sofá me observando. Ele levanta imediatamente e vem em minha direção. Instintivamente, eu recuo. Ele para no mesmo instante. Não insiste. Não invade meu espaço. Apenas me olha e fala com calma: — Senta no sofá, Laura. Me dê licença, vou até a cozinha pegar uma água para você. Eu me sento porque realmente não tenho condições de discutir. Poucos minutos depois ele retorna com um copo nas mãos. — É água com açúcar. Pode beber. Vai ajudar você a se acalmar. Pego o copo de sua mão. Nossos dedos se tocam por um breve segundo. Estranhamente, isso não me assusta. Dou alguns goles. A água parece aliviar um pouco o tremor do meu corpo. Ele se senta novamente no sofá, mantendo uma distância respeitosa. Fica me observando em silêncio enquanto bebo. Então pergunta: — Laura, o pesadelo foi por causa do que aconteceu no bar? Dou uma risada irônica apenas em meus pensamentos. Claro que não vou contar minha história para ele. Não vou falar sobre o passado. Não vou falar sobre os medos que me acompanham até hoje. Então apenas balanço a cabeça em afirmação. — Me perdoa. Eu realmente sinto muito pelo que aconteceu. Eu dei uma surra naquele cara, mas mesmo assim sinto muito, Laura. Olho para ele em silêncio por alguns minutos. Tudo o que consigo enxergar é sinceridade. Não parece estar fingindo. Não parece querer me manipular. E isso me faz relaxar um pouco. — Está tudo bem, Antony. A culpa não foi sua. Procuro um relógio na parede. São quatro da manhã. Ele continua me observando com atenção. — Você pode voltar a dormir, Laura. Meu sono é leve. Se precisar de qualquer coisa, pode me chamar. Estou aqui. Nada de r**m vai acontecer. Por mais estranho que pareça, aquelas palavras me confortam. Faz muito tempo que não me sinto protegida. Muito tempo mesmo. Balanço a cabeça em afirmação e sigo para o meu quarto em silêncio. Antes que eu entre, ele me chama novamente. — Ei, baby. Eu me viro. — Se precisar de qualquer coisa, me chama. Mas durma em paz. Estou aqui. Novamente apenas balanço a cabeça. Fecho a porta. Me deito. Puxo o cobertor até o queixo. Pela primeira vez em muito tempo, sinto meu corpo relaxar completamente. E, dessa vez, durmo livre de pesadelos. Acordo com barulhos vindos da sala. Levanto da cama. Coloco uma legging e um top. Penteio os cabelos. Escovo os dentes. Lavo o rosto. Quando saio do quarto, dou de cara com Antony e outro homem mexendo na minha porta. Quer dizer... Mexendo não. Eles estão substituindo a porta. No lugar da antiga existe agora uma porta gradeada e, logo atrás dela, uma porta extremamente bonita e reforçada. Ela possui três trancas. Na janela do apartamento também foram instaladas grades e travas muito mais resistentes. Fico completamente paralisada olhando tudo aquilo. Antony me vê. Mas continua agindo com absoluta naturalidade. Como se trocar portas e janelas de alguém fosse a coisa mais comum do mundo. Ele olha para o outro homem e fala: — Ela já saiu do quarto. Pode trocar a porta do quarto dela e a janela também. O homem apenas concorda e continua trabalhando. Eu permaneço imóvel. Sem acreditar no que estou vendo. Antony então olha para mim. — Eu comprei o café da manhã, Laura. Está na mesa. Vou até a cozinha. E encontro uma mesa cheia de pães, queijos, bolo, frutas, café, leite e suco. Por alguns segundos fico apenas observando. Ninguém nunca fez algo assim por mim. Ninguém. Me sirvo em silêncio. Enquanto tomo café, escuto os sons das ferramentas ecoando pelo apartamento. Quando o homem finalmente termina o trabalho, eu também termino minha refeição. Ele se despede e vai embora. Antony então entra na cozinha. Ele me observa com cautela. Como se estivesse tentando entender o que estou pensando. — O gato comeu sua língua, baby? Baby. Repito o apelido em meus pensamentos. Estranhamente, não odeio ouvir isso. — Por que você está fazendo tudo isso? Ele dá de ombros. Como se a resposta fosse óbvia. — Porque ficou claro para mim que você é uma menina cautelosa e se preocupa com a própria segurança. Mas esse prédio não tem segurança nenhuma. Então acredito que agora você se sinta mais segura e confortável. — Você não precisava fazer nada disso por mim. Você nem me conhece. Ele sorri de leve. — Você também não conhecia a minha irmã, Laura. Mesmo assim, achou que ela precisava de ajuda. Você a trouxe para sua casa e cuidou dela sem hesitar. Fico sem palavras. Porque ele tem razão. — Certo... eu nem sei como agradecer. Isso significa muito para mim. Muito obrigada. Ele se aproxima. Segura minha mão. E eu deixo. O toque dele não me causa repulsa. Nem medo. Nem vontade de fugir. — Amigos, então? Olho nas profundezas daqueles olhos azuis. E balanço a cabeça em afirmação. Um sorriso surge em seu rosto. Então ele usa a outra mão para colocar uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. O gesto é simples. Mas meu corpo reage instantaneamente. Eu recuo. Assustada. Com medo. Completamente em alerta. O sorriso dele desaparece. E então ele faz a pergunta que não deveria fazer. A pergunta que ninguém deveria fazer. — Alguém já te machucou, Laura? Meu coração dispara. As paredes parecem se fechar ao meu redor. As lembranças ameaçam voltar. Levanto do sofá rapidamente. — Antony, muito obrigada por tudo... mas agora você pode ir embora. Por alguns segundos ele apenas me observa. Não insiste. Não questiona. Não exige explicações. Apenas balança a cabeça. Levanta. E vai embora. Quando a porta se fecha atrás dele, encosto as costas na parede. Levo a mão ao peito. E tento controlar a respiração. Porque, pela primeira vez em muito tempo, alguém chegou perto o suficiente para perceber que existe algo quebrado dentro de mim. E isso me assusta muito mais do que qualquer outra coisa.
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