No dia seguinte Letícia não precisaria estar na boca cedo, mas sim na casa do LC a noite. A casa de LC estava movimentada naquela noite. A música alta, o cheiro de álcool e cigarro se misturavam ao som de risadas e conversas abafadas. Letícia estava sentada em um canto, com os braços cruzados, observando tudo com cuidado. Ainda que tentasse parecer indiferente, sabia que cada olhar furtivo em sua direção não era à toa.
Desde que começou a lidar com as tarefas de LC, os homens ao redor tinham mudado a maneira de tratá-la. Não era apenas respeito. Era algo diferente, mais incômodo.
Mas nenhum deles incomodava mais do que o próprio LC.
Ele estava sentado no sofá, com um copo de whisky na mão, e seus olhos escuros estavam cravados em Letícia. Não era o olhar casual de antes, como quando ele testava sua coragem ou desafiava suas palavras. Era um olhar intenso, quase predatório, que fazia a pele dela arrepiar.
Depois de um tempo, LC se levantou e foi até ela, parando ao seu lado com um sorriso lento.
“Você tá cada vez mais confortável nesse lugar, hein, Letícia?” disse ele, inclinando-se para falar perto de seu ouvido, a voz baixa, mas carregada de algo que ela não sabia se era sarcasmo ou um interesse mais perigoso.
“Só tô aqui pra fazer o que precisa ser feito,” respondeu Letícia, mantendo a voz firme.
Ele riu, aquela risada seca que ela já conhecia bem. “Sempre tão direta. É isso que eu gosto em você. Não faz rodeios, não tenta enrolar. Diferente da maioria.”
Ela desviou o olhar, mas ele se inclinou ainda mais, a presença dele invadindo o espaço ao seu redor.
“Você acha que é igual aos outros aqui, mas não é,” continuou LC. “Tem algo em você, Letícia. Uma força que nem você percebe que tem. E, vou te dizer, isso me intriga pra caralho.”
Letícia sentiu o sangue subir ao rosto, uma mistura de raiva e desconforto. “Eu só tô tentando resolver a dívida da minha mãe. Não quero nada além disso.”
“Eu sei,” disse ele, com um tom quase divertido. “Mas talvez você esteja subestimando o que pode conseguir aqui. Gente como você não aparece todo dia.”
Ela se levantou, tentando encerrar a conversa, mas LC segurou seu braço, com força o suficiente para que ela parasse, mas sem machucá-la.
“Você acha que pode fugir disso, Letícia? Que quando a dívida acabar, você vai sair andando como se nada tivesse acontecido?” Ele aproximou o rosto do dela, e o cheiro forte de álcool e cigarro a envolveu. “Você já tá no jogo, garota. Não adianta fingir que não é peça. E eu sempre cuido bem das minhas peças mais valiosas.”
Ela se soltou com um puxão brusco, mas o sorriso dele permaneceu no rosto, como se tivesse gostado do desafio.
Mais tarde, enquanto os outros riam e bebiam, LC voltou a observá-la de longe. Havia algo diferente nele naquela noite, algo que ela não conseguia decifrar. Não era apenas autoridade ou frieza – era uma curiosidade afiada, quase perigosa.
E aquilo a deixava inquieta.
Quando finalmente conseguiu sair dali, sentiu um alívio instantâneo ao respirar o ar fresco da noite. Caminhou apressada pelas ruas, mas não conseguia se livrar da sensação de que estava sendo seguida – ou talvez apenas vigiada, como um rato preso em um labirinto.
Quando chegou em casa, encontrou Selma dormindo no sofá, o rosto cansado. Letícia a cobriu com uma manta e foi para o quarto, onde tentou, sem sucesso, ignorar a lembrança do olhar de LC.
Nos dias seguintes, LC continuou a dar tarefas a Letícia. E, a cada nova missão, ela sentia que o interesse dele crescia. Não apenas em sua lealdade ou coragem, mas nela.
Os olhares demorados, os comentários cheios de duplo sentido, o jeito como ele parecia estar mais presente sempre que ela estava por perto. Tudo isso a fazia se sentir presa em algo muito maior do que a dívida que tentava pagar.
Ela sabia que LC era perigoso – não só por ser o chefe daquele mundo, mas porque ele tinha o poder de mexer com ela de um jeito que ela não queria admitir.
E, pior ainda, começava a se perguntar se parte de si estava sendo puxada para aquele mesmo abismo.
Os dias se tornaram uma mistura indistinguível de tensão e sobrevivência. Letícia completava cada tarefa com o máximo de precisão, tentando não pensar demais no que aquilo significava. Mas a sombra de LC estava sempre lá, crescendo.
Ele não era apenas o chefe. Para ela, agora, era uma presença quase onipresente, como se cada passo que ela desse fosse calculado por ele antes mesmo de acontecer.
Naquela noite, LC convocou Letícia para uma conversa mais privada.
“Quero te mostrar uma coisa,” disse ele, enquanto caminhava à frente dela por um corredor estreito da casa.
Letícia o seguiu sem fazer perguntas, mas o nervosismo crescia a cada passo. Ele a levou até uma sala que ela nunca tinha visto antes. Era menor, com paredes escuras, e o cheiro de cigarro parecia impregnado em cada canto. Na mesa, havia uma garrafa de whisky, um baralho e uma arma descansando sobre um pano vermelho.
“Fecha a porta,” ordenou ele, sem olhar para trás.
Ela obedeceu, tentando manter a calma.
“Você tem se saído bem, Letícia,” começou ele, enquanto se servia de um copo. “Mais do que eu esperava, na verdade. Mas o jogo tá mudando, e eu preciso saber se você tá pronta pra ir até o fim.”
“Fazer o quê, exatamente?” perguntou ela, a voz soando mais firme do que sentia.
LC virou-se para ela, segurando o copo com uma mão enquanto apontava para a cadeira em frente à mesa com a outra.
“Senta.”
Letícia hesitou, mas sentou. Ele a observou por um momento, como se estivesse avaliando cada centímetro dela.
“Sabe, Letícia,” começou ele, encostando-se à mesa, “tem muita gente que entra nesse mundo achando que consegue sair ilesa. Que vai resolver um problema, pagar uma dívida e sumir. Mas ninguém passa por aqui sem deixar uma marca. E você... já deixou a sua.”
Ela estreitou os olhos. “Eu só quero sair disso. Resolver a dívida da minha mãe e seguir em frente.”
Ele riu, aquela risada seca que fazia o estômago dela revirar.
“Você ainda acha que tá no controle, né?” Ele colocou o copo na mesa e inclinou-se para frente, os olhos presos nos dela. “O problema é que você já tá no meu radar, Letícia. Já tá no meu jogo. E, se eu tiver que ser sincero, não sei se quero deixar você sair.”
O coração dela disparou. “O que você quer dizer com isso?”
Ele sorriu, mas não era um sorriso confortável. Era sombrio, carregado de intenções que ela não queria decifrar.
“Quero dizer que você é diferente. Forte. Persistente. Tem algo em você que me faz querer testar os limites.” Ele passou a mão pela arma na mesa, mas sem intenção de usá-la. Era um gesto mais teatral, uma demonstração de poder. “E, talvez, te manter por perto seja bom pra mim.”
Letícia apertou os punhos sob a mesa, tentando controlar a raiva e o desconforto que cresciam em sua garganta.
“Eu não sou um brinquedo, LC. Se tá pensando que pode me usar assim, tá muito enganado.”
Ele gargalhou alto, um som que reverberou pela sala. “Você tem coragem, menina. E é isso que eu gosto em você. Mas não confunda meu interesse com fraqueza. Se eu tô falando isso, é porque já decidi.”
Ela se levantou, pronta para sair, mas LC segurou seu pulso. Não com força, mas o suficiente para fazê-la parar.
“Não tô pedindo nada agora,” disse ele, num tom mais baixo, quase suave. “Só tô dizendo que, se você continuar jogando, vai perceber que não é só sobre a dívida da tua mãe. É sobre você. Sobre o que você é capaz de se tornar.”
Ele a soltou, e Letícia saiu da sala sem olhar para trás, o coração disparado.
De volta à rua, o ar noturno parecia mais frio. Ela caminhou rápido, tentando processar o que tinha acabado de acontecer.
A ideia de LC vê-la como mais do que uma peça no tabuleiro era aterrorizante, mas também... intrigante. E isso a assustava ainda mais.
Quando chegou em casa, encontrou Selma acordada, esperando por ela.
“Tá tudo bem, filha?” perguntou a mãe, com a voz carregada de preocupação.
Letícia apenas assentiu. Mas, enquanto se deitava naquela noite, as palavras de LC ecoaram em sua mente. Ele não era o tipo de homem que dizia algo sem intenção.
E, pela primeira vez, ela começou a se perguntar se estava sendo moldada para ser algo que nem ela mesma reconheceria.