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539 Palavras
O relógio marcava 11h47 quando notei a ausência. O quarto de hóspedes estava vazio, a cama arrumada demais pra alguém que saiu com pressa. O moletom do meu irmão estava dobrado com cuidado, junto da camiseta que o Jace usou. Desci até a cozinha. Minha mãe cortava legumes e meu pai lia as manchetes do jornal impresso, como sempre. — Cadê o Jace? — perguntei, tentando soar casual. Meu pai olhou por cima dos óculos. — Saiu faz um tempinho. Disse que precisava buscar uma coisa que esqueceu... em algum lugar. — Ele disse onde? — Só falou que voltava com o carro antes do almoço. Achei melhor não insistir. Ele tava... sério. Sério. Frio. Duro. Do jeito que ele ficava quando queria esconder que tava quebrado por dentro. ⸻ Pouco depois do meio-dia, ouvi o portão abrindo. Espiei pela janela e o vi entregando as chaves pro meu pai. Desci sem pensar. Encontrei ele ainda na garagem, com o olhar no chão. — Obrigado pelo carro. E... por tudo. Seus pais são legais. — Jace, espera... onde você foi? Ele respirou fundo. — Não importa. Eu precisava resolver umas coisas. — Você foi atrás do Theo, né? Ele me encarou por um segundo, mas não respondeu. — Eu só queria ser honesta com você. Por mais que tenha doído. — É. Doeu mesmo. Ele colocou as mãos nos bolsos e olhou em volta, como se não soubesse mais onde cabia naquele lugar. — Cuida de você, Ellie. E foi embora. ⸻ O resto do domingo passou arrastado. Me despedi dos meus pais com um beijo demorado, prometendo ligar durante a semana. Voltei pro campus no fim da tarde, tentando reorganizar minha cabeça. Mas era como tentar montar um quebra-cabeça com peças de outro jogo. ⸻ Segunda-feira. Universidade. Bloco de Comunicação Social. Sentei no meu lugar habitual na sala de Teorias da Comunicação II, com Cassie ao lado, mastigando chiclete como se fosse a única coisa que ainda funcionava no mundo. — Alguém entendeu aquele trecho do Foucault? — ela perguntou, abrindo o caderno. — Só o suficiente pra fingir que entendi. — respondi, forçando um sorriso. Ben se aproximou com os olhos inchados. — Gente, eu juro que li três vezes o mesmo parágrafo e ele continuava em latim. O professor entrou com aquela energia de segunda-feira que ninguém compartilha. — Bom dia. Vamos continuar falando sobre discurso, poder e as instituições que moldam nossa percepção de realidade. Ellie, lembra do trecho sobre vigilância e controle simbólico? Assenti. — Foucault argumenta que o discurso dominante impõe um padrão de normalidade. Quem não se encaixa, é marginalizado — expliquei. — Excelente. Esse é o ponto de partida de hoje. Cassie me cutucou com o cotovelo. — Tu tá muito focada. Alguma coisa aconteceu no fim de semana? — Muitas coisas. Mas nenhuma eu consigo explicar em voz alta ainda. — Tem a ver com aquele roqueirinho emocional? Não respondi. Só respirei fundo, encarando o quadro cheio de palavras. Enquanto o mundo girava normalmente, minha cabeça continuava cheia de perguntas: Será que ele se arrependeu? O que ele falou pro Theo? Será que ele foi embora de vez? Na universidade, tudo parecia igual. Mas dentro de mim, nada mais era.
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