O relógio marcava 11h47 quando notei a ausência. O quarto de hóspedes estava vazio, a cama arrumada demais pra alguém que saiu com pressa. O moletom do meu irmão estava dobrado com cuidado, junto da camiseta que o Jace usou.
Desci até a cozinha. Minha mãe cortava legumes e meu pai lia as manchetes do jornal impresso, como sempre.
— Cadê o Jace? — perguntei, tentando soar casual.
Meu pai olhou por cima dos óculos.
— Saiu faz um tempinho. Disse que precisava buscar uma coisa que esqueceu... em algum lugar.
— Ele disse onde?
— Só falou que voltava com o carro antes do almoço. Achei melhor não insistir. Ele tava... sério.
Sério. Frio. Duro.
Do jeito que ele ficava quando queria esconder que tava quebrado por dentro.
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Pouco depois do meio-dia, ouvi o portão abrindo. Espiei pela janela e o vi entregando as chaves pro meu pai.
Desci sem pensar. Encontrei ele ainda na garagem, com o olhar no chão.
— Obrigado pelo carro. E... por tudo. Seus pais são legais.
— Jace, espera... onde você foi?
Ele respirou fundo.
— Não importa. Eu precisava resolver umas coisas.
— Você foi atrás do Theo, né?
Ele me encarou por um segundo, mas não respondeu.
— Eu só queria ser honesta com você. Por mais que tenha doído.
— É. Doeu mesmo.
Ele colocou as mãos nos bolsos e olhou em volta, como se não soubesse mais onde cabia naquele lugar.
— Cuida de você, Ellie.
E foi embora.
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O resto do domingo passou arrastado. Me despedi dos meus pais com um beijo demorado, prometendo ligar durante a semana. Voltei pro campus no fim da tarde, tentando reorganizar minha cabeça. Mas era como tentar montar um quebra-cabeça com peças de outro jogo.
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Segunda-feira. Universidade. Bloco de Comunicação Social.
Sentei no meu lugar habitual na sala de Teorias da Comunicação II, com Cassie ao lado, mastigando chiclete como se fosse a única coisa que ainda funcionava no mundo.
— Alguém entendeu aquele trecho do Foucault? — ela perguntou, abrindo o caderno.
— Só o suficiente pra fingir que entendi. — respondi, forçando um sorriso.
Ben se aproximou com os olhos inchados.
— Gente, eu juro que li três vezes o mesmo parágrafo e ele continuava em latim.
O professor entrou com aquela energia de segunda-feira que ninguém compartilha.
— Bom dia. Vamos continuar falando sobre discurso, poder e as instituições que moldam nossa percepção de realidade. Ellie, lembra do trecho sobre vigilância e controle simbólico?
Assenti.
— Foucault argumenta que o discurso dominante impõe um padrão de normalidade. Quem não se encaixa, é marginalizado — expliquei.
— Excelente. Esse é o ponto de partida de hoje.
Cassie me cutucou com o cotovelo.
— Tu tá muito focada. Alguma coisa aconteceu no fim de semana?
— Muitas coisas. Mas nenhuma eu consigo explicar em voz alta ainda.
— Tem a ver com aquele roqueirinho emocional?
Não respondi. Só respirei fundo, encarando o quadro cheio de palavras.
Enquanto o mundo girava normalmente, minha cabeça continuava cheia de perguntas:
Será que ele se arrependeu?
O que ele falou pro Theo?
Será que ele foi embora de vez?
Na universidade, tudo parecia igual.
Mas dentro de mim, nada mais era.