Os corredores do bloco E estavam mais cheios do que o normal. Tinha barulho de risadas, passos apressados, cartazes colados nas paredes sobre festivais, debates e grupos de teatro.
Eu tentava equilibrar o copo de café na mão enquanto lia o e-mail da professora no celular, desviando de alunos distraídos, quando esbarrei em alguém.
— Ai, desculpa! — falei automático.
— Relaxa... Ellie?
Levantei o olhar. Kayle.
Ela estava com uma camisa branca social amarrada na cintura, jeans escuro e o cabelo preso em um coque bagunçado. Estava bonita, como sempre, mas diferente... mais tranquila.
— Oi. — respondi.
Ela me olhou por um segundo, como se tentasse avaliar meu humor antes de falar.
— Você tem um minuto?
— Claro.
Nos afastamos do fluxo de alunos e fomos até um banco no corredor lateral. Ela sentou de pernas cruzadas e me olhou, mas sem arrogância — só curiosidade.
— Eu fiquei sabendo de umas coisas... — começou, devagar. — Jace brigou com o Theo. Você sabe disso?
— Imagino. Ele foi atrás dele no domingo.
— Ele voltou diferente. — ela disse. — Não falou comigo, mas... o olhar dele tava cheio de coisa não dita, sabe?
Fiquei em silêncio. Era exatamente isso que ele deixou comigo também: silêncio e mil coisas não ditas.
— Você... tá com o Theo? — ela perguntou, delicadamente. Não tinha deboche, nem segunda intenção. Era só uma pergunta de alguém que sabia como o mundo real funcionava.
— Não sei. Não oficialmente. A gente se beijou. A gente se provoca. Mas... eu não tô com ninguém.
— E com o Jace?
Suspirei.
— É confuso. Com o Theo, tudo é mais fácil. Ele é claro, direto, divertido. Me dá segurança. Mas com o Jace... — pausei, tentando encontrar a palavra certa — tudo é mais intenso. É como se eu me perdesse e me encontrasse ao mesmo tempo. Ele me tira do chão, mas também me faz querer entender tudo que existe dentro de mim.
Kayle assentiu devagar.
— Eu entendo. Eu já estive nos dois papéis. E vou te dizer uma coisa, Ellie: não tem problema estar apaixonada pelos dois. O que importa é entender o que você quer, e quem te aproxima mais de quem você realmente é. Porque no fim, o que você escolher vai magoar alguém. Só... escolhe por você.
— Eu não queria magoar nenhum dos dois.
— Vai acontecer. — ela respondeu, sem crueldade. — Mas isso não faz de você uma vilã. Só uma garota tentando amar da melhor forma que consegue.
Fiquei em silêncio, sentindo o peso daquelas palavras.
— Posso te perguntar uma coisa meio pessoal?
— Pode.
Ela hesitou, mas riu de leve.
— Você transou com os dois?
Arregalei os olhos, rindo nervosa.
— Não! Com o Theo a gente só teve... uns momentos bem quentes. Tipo, muito quentes mesmo. Mas não aconteceu. Com o Jace... aconteceu.
— Ah. — Kayle mordeu o lábio, mas assentiu. — Isso explica um pouco da intensidade, né?
—Totalmente. — sussurrei, quase sem querer sorrir.
Por alguns segundos, ficamos só ali, observando o movimento do corredor. E foi estranho, mas confortável.
— Sabe... — Kayle disse, se levantando. — Se você precisar conversar de novo, ou só quiser fugir das suas próprias escolhas por uns minutos... me chama. A gente tem mais em comum do que parece.
— Obrigada, Kayle.
Ela sorriu. Um sorriso real.
— Até mais, ruiva.
Fiquei ali por mais alguns instantes, sentindo a cabeça girar, mas pela primeira vez... sem culpa.
Talvez o que eu precisasse naquele momento não fosse uma resposta definitiva.
Talvez eu só precisasse respirar.