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894 Palavras
A primeira coisa que percebi quando Ellie entrou na festa foi o cabelo solto caindo sobre os ombros, e a forma como ela andava, com a leveza de quem não tentava chamar atenção — mas chamava. Cada passo dela parecia desacelerar o ambiente, como se o resto do mundo perdesse o volume. Ela ria com Cassie, copo na mão, e os olhos varrendo o lugar com atenção. Ellie era o tipo de pessoa que observava antes de mergulhar. E quando mergulhava, fazia tudo afundar com ela. A minha primeira reação? Alívio. Ela tinha vindo. Mesmo depois da semana caótica, mesmo depois de eu ter feito tudo errado — de novo. A segunda reação? Medo. Porque quando Ellie sorria daquele jeito, algo dentro de mim se mexia. Algo que eu sempre mantive trancado. Encostado no batente da porta, com os ombros tensos e os olhos nela, percebi que já não sabia quem eu era antes dela chegar. ⸻ Quando ela dançou com Cassie no meio da sala, eu fiquei só olhando. Os braços soltos, o riso leve, os olhos fechados por um segundo enquanto girava devagar. Ela se deixava levar pela música de um jeito que parecia poesia. E ali, no meio de tanta gente que gritava, bebia e exagerava, Ellie era... silenciosamente intensa. Me aproximei e a puxei pela cintura. Ela me recebeu com aquele sorriso de canto, como se já soubesse o efeito que tinha em mim. — Posso? — perguntei. — Acha que eu vou dizer não? Tocá-la era como puxar o ar depois de minutos submerso. O corpo dela se encaixava no meu como se já estivesse ali antes, e os olhos me atravessavam com calma, mas sem piedade. Ellie não via o que eu mostrava. Ela via o que eu tentava esconder. — Você é linda — murmurei. E era verdade. Mas não só isso. Ela era a bagunça mais bonita que já existiu na minha zona de guerra interna. Ela sorriu, provocando: — Você só diz isso pra me distrair. — Tá funcionando? Ela riu, e o som ficou preso no meu peito. Mas aí veio a interrupção. Sempre vem. — Maddox, vem cá um segundo? Kayla. A voz dela tinha aquele tom meloso que eu conhecia bem demais. Uma mistura de carência e manipulação. Vi o olhar de Ellie endurecer. m***a. — Preciso resolver uma coisa. Volto já, tá? Afastar de Ellie me custava mais do que eu imaginava. Mas se eu não fosse, Kayla faria escândalo — e não era a hora. Ela me puxou para um canto da cozinha improvisada. — Relaxa, não vou te beijar. Ainda que você esteja me olhando como se quisesse. — Não tô, Kayla. Fala o que quer. Ela revirou os olhos, depois cruzou os braços. — Só queria te lembrar que a exposição de fotos da Harley vai abrir semana que vem. Metade das imagens são nossas. Eu tô nelas, Jace. — E? — E eu quero aprovação antes de ela exibir. Se vão me ver seminua com você, eu quero pelo menos ter controle de como. Suspirei, impaciente. — Você só me chamou pra isso? — E pra ver de perto se a sua novinha é mesmo tudo isso. Ela parece meio... frágil demais pro seu gosto. — Ela é tudo o que você não conseguiu ser pra mim. Real. Transparente. Sem jogos. Ela deu um passo pra trás, o rosto mudando de expressão. Pela primeira vez, sem a máscara de superioridade. — Você mudou, Jace. — Porque ela me faz querer isso. — Então cuidado pra não voltar a ser o mesmo quando ela descobrir quem você é de verdade. — Ela já sabe mais do que todo mundo aqui. Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Depois forçou um sorriso. — Boa sorte. Você vai precisar. Me afastei. E por instinto, fui atrás da única coisa que ainda me mantinha firme naquela festa: Ellie. Encontrei ela na varanda, sozinha, encostada no parapeito, o cabelo balançando com a brisa da noite. Havia uma serenidade melancólica nela, como se estivesse tentando segurar a própria paz com as mãos. — Me desculpa. Ela só queria falar de um projeto antigo. — Tá tudo bem — ela disse, mas a voz dizia o contrário. Me aproximei com cuidado, encostei o queixo no ombro dela e fechei os olhos por um instante. O perfume dela. A calma. A presença. — Se não tivesse, você teria ido embora. E você ainda tá aqui. Ela respondeu baixo: — Ainda. Virei ela de frente, os olhos dela encontrando os meus. Havia um universo inteiro ali dentro. Coisas que ela não dizia, mas sentia. Coisas que, de algum jeito, eu entendia. — Você não tem ideia do quanto eu te admiro por isso. Por ficar mesmo quando tem mil motivos pra não. — É porque você ainda me dá mais motivos pra ficar. Então a beijei. Lento. Verdadeiro. Sem pressa. Sem escudo. Porque ela merecia isso. E porque, talvez, eu também. ⸻ Se ela soubesse o quanto isso tudo me assusta... o quanto é difícil carregar o peso de alguém acreditar em mim sem saber até onde eu sou capaz de ir quando estou quebrado. Mas ela estava ali. Me olhando com esperança. Com fé. E eu decidi, naquele instante, que faria tudo pra merecer isso. Nem que fosse a luta mais difícil da minha vida.
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