14

936 Palavras
O Bloco G já estava pulsando quando chegamos. A música escapava pelas janelas, misturada com risadas, vozes e o cheiro forte de bebida barata e perfume doce demais. Cassie nos esperava na entrada, com um copo vermelho na mão e um brilho suspeito nos olhos. — Achei que vocês não vinham — ela disse, entregando outro copo pra mim. — Tive que convencer ela com argumentos lógicos — Jace respondeu, com um sorriso provocador. — Tipo? — "Vai ter brownies." — Mentira. Ele falou "vai ter gente pior que você". — Eu revirei os olhos, e as duas riram. Entramos no saguão, e imediatamente o calor humano nos envolveu. As luzes eram coloridas e intermitentes, dançando com a batida grave da música. Gente dançando apertado, outros encostados nas paredes em conversas rasas, alguns já mais bêbados do que deveriam. Cassie puxou minha mão. — Vem, tem gente da nossa sala ali. E o Theo. E... — ela fez uma pausa curta — Kayla. Suspirei. — Maravilha. — Se ela vier com gracinha, eu jogo ponche na cara dela. Prometo que aviso depois. Rimos, e fomos nos aproximando do grupo. Theo estava de moletom e jeans rasgados, rindo de algo que Marla dizia. Kayla estava sentada numa poltrona roxa, pernas cruzadas, um drink rosa fluorescente na mão, como se fosse a rainha do caos moderno. Ao lado dela, Liv — mais discreta, mas igualmente atenta. — Ellie! — Theo sorriu. — Jace, beleza? — Tudo certo — Jace respondeu, apoiando uma das mãos nas minhas costas com naturalidade. Foi aí que vi Kayla levantar uma sobrancelha. Ela me olhou dos pés à cabeça, depois sorriu — pequeno, quase educado. — Pronta pro nosso projetinho, princesa? — Prontíssima. E você? — Sempre pronta pra um desafio. O subtexto no ar era mais espesso do que o ar quente da sala. — Vamos pegar mais bebida — Jace disse, talvez percebendo que o clima não ia melhorar. Ele me puxou com ele até a cozinha improvisada, onde um garoto enchia copos de uma espécie de suco fluorescente. — Você tá bem? — ele perguntou, virando-se pra mim. — Tô. É só... estranho. — Ela vai provocar. É o que ela faz. Mas você é a única que me faz esquecer o resto. Lembra disso. Assenti. Mas no fundo, eu sabia que Kayla ainda via o mundo como um jogo — e eu como a peça que apareceu do nada pra tomar o lugar dela. Voltamos pro centro da sala quando começou a tocar uma música mais dançante, e Cassie já estava no meio da pista improvisada. Ela gritou meu nome e me puxou. Eu fui, rindo, tentando esquecer tudo por alguns minutos. Dançamos. Rimos. Esbarramos em gente aleatória. Cassie arrastou Theo pra pista, e ele foi, com os passos mais desajeitados da noite. Marla girava sozinha como se estivesse num palco. E Jace me observava, parado, com aquele olhar que me atravessava sem pedir licença. Em determinado momento, ele se aproximou e me puxou pela cintura. — Posso? — Acha que eu vou dizer não? Dançamos colados, os corpos se movendo no ritmo da música, mas também um no ritmo só nosso. As mãos dele nas minhas costas, meus dedos entre os fios do cabelo dele, e os olhos... sempre presos em mim. — Você é linda — ele sussurrou no meu ouvido. — Mas quando sorri desse jeito, fica quase injusto. — Você só diz isso pra me distrair. — Tá funcionando? — Completamente. Ficamos assim por alguns minutos, até uma voz familiar cortar o momento. — Maddox, vem cá um segundo? Era Kayla. Ele virou o rosto, hesitou. — Preciso resolver uma coisa. Volto já, tá? Assenti, com o coração dando um pequeno alerta interno. Fiquei parada por alguns minutos, observando ele e Kayla conversarem do outro lado do salão. Ela falava perto demais, gesticulava demais. Ele parecia sério, respondia pouco. Depois ela tocou o braço dele. Ele afastou, mas o incômodo já estava em mim. Cassie apareceu ao meu lado. — Quer que eu vá lá e diga que você caiu no banheiro e precisa dele? — Não. Eu não sou esse tipo de drama. — Mas eu sou — ela riu. — Só dizer a palavra. — Vai ser pior se parecer que me incomoda tanto. Eu só... preciso respirar. Fui até a varanda. Lá fora, o ar era gelado, mas aliviava. Encostei na mureta, observando a cidade iluminada e tentando lembrar que esse tipo de coisa era só um detalhe. Que ele tinha me escolhido. Que eu estava ali por quem ele era agora, não por quem tinha sido com ela. Poucos minutos depois, senti a presença dele atrás de mim. — Me desculpa. Ela só queria falar de um projeto antigo que não tem nada a ver com a gente. — Tá tudo bem — menti. Ele se aproximou, encostando o queixo no meu ombro. — Se não tivesse, você teria ido embora. E você ainda tá aqui. — Ainda — respondi, com um sorriso leve. Ele me virou de frente, me encarando. — Você não tem ideia do quanto eu te admiro por isso. Por ficar mesmo quando tem mil motivos pra não. — É porque você ainda me dá mais motivos pra ficar. E ali, naquele terraço gelado, ele me beijou com calma. Como se dissesse: você é a única que importa agora. E por mais que o mundo lá dentro fosse barulhento e cheio de passado, aqui fora, entre o frio e os batimentos acelerados, era como se o tempo parasse só pra gente existir. Juntos. Na nossa própria frequência.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR