O céu estava encoberto, carregado, como se sentisse o peso do que estava por vir. As nuvens baixas refletiam perfeitamente meu peito. A mensagem da Kayle ainda estava aberta no celular, e cada palavra parecia mais urgente do que a anterior.
"Se alguém pode impedir ele... é você."
Desci as escadas da casa dos meus pais com o coração na garganta.
Peguei a chave do carro no aparador da entrada e mandei uma mensagem rápida pra Kayle:
"Qual o nome da balada?"
Ela respondeu em segundos.
"Club 93. Perto da galeria abandonada. Cuidado, Ellie."
Cuidado.
Mas eu já estava fora de controle antes mesmo de girar a chave na ignição.
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A estrada até a cidade era escura, cortada apenas pelos faróis dos poucos carros que passavam. Minha cabeça estava uma confusão. Eu pensava no que Jace tinha se tornado... e no que ele tinha sido antes disso.
Lembrei das poucas vezes em que ele falou sobre o irmão.
Davi.
Jace nunca dizia o nome em voz alta, mas certa vez, bêbado, ele sussurrou no meu ouvido como se fosse uma confissão:
"Davi era o herói da casa. Sabe aquele cara que entra no quarto e todo mundo para de falar? Que os pais tratam como se fosse de outro mundo? Ele era isso."
Davi tinha dois anos a mais. Era inteligente, popular, jogava futebol e tirava notas boas. Tinha uma risada escandalosa que Jace imitava às vezes, com uma saudade que transbordava.
Mas quando Davi se machucou num treino — uma lesão séria no joelho — os sonhos acabaram. Não havia mais futebol. E, segundo Jace, foi ali que tudo começou.
Primeiro os analgésicos. Depois, os mais fortes. Quando a dor no corpo passou, a da alma ficou. E com ela, o vício.
Jace viu tudo. Viu o irmão mudar, mentir, desaparecer aos poucos dentro de si mesmo.
"Ele era meu melhor amigo. E eu perdi ele com os olhos abertos."
A lembrança me fez acelerar.
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A fachada da Club 93 era iluminada por néons roxos e vermelhos. Uma fila dobrava a esquina, cheia de gente falando alto, rindo, tropeçando.
Desci do carro sentindo o coração bater no estômago.
Lá dentro, o som era ensurdecedor. Luzes piscavam como se quisessem cegar. A fumaça de cigarro se misturava com perfume barato e álcool. Rostos desconhecidos. Corpos dançando como se o mundo fosse acabar.
Me empurrei pelo meio da multidão. Perguntei aos poucos rostos conhecidos — dois colegas da faculdade que me olharam como se eu fosse louca.
Foi perto do bar que vi ele.
Jace.
Encostado na parede, com os olhos baixos e a garrafa na mão. Ao lado dele, três caras que eu nunca tinha visto, todos rindo alto. E Kayle, parada perto, parecendo desesperada, tentando falar algo que ele ignorava.
— Jace! — gritei, mas ele nem se mexeu.
Fui até ele, furando o espaço entre as pessoas. Quando me aproximei, ele levantou o olhar.
— Olha só quem veio — disse, com um sorriso torto. — A ruiva da consciência pesada.
— Para com isso — falei, firme. — Vamos embora.
— Por que eu iria embora agora? Tá só começando.
— Kayle me mandou mensagem. Você tá atrás daquele cara... do traficante.
O sorriso dele morreu.
— Ele tá aqui. — Seus olhos vasculharam a pista. — Eu vi ele. O desgraçado.
— Jace, escuta o que você tá dizendo...
— Você não entende. Ele destruiu o Davi. Ele aparecia em casa com um sorriso simpático, chamava meu pai de "senhor", dizia que eram só uns calmantes. E quando a gente viu... ele já tinha feito meu irmão virar um zumbi.
Kayle se aproximou, segurando o braço dele.
— Jace, vamos pra casa. Por favor. Você tá transtornado.
— Se vocês forem, vão sem mim.
— Você não vai fazer nada — insisti. — Ele já destruiu uma vida. Você vai deixar ele destruir a sua também?
— Talvez já tenha destruído.
Foi nesse momento que o homem apareceu.
Calça jeans rasgada, jaqueta de couro, cabelo curto, rosto magro demais pra parecer saudável. Parou a três metros de distância, encarando Jace com um sorrisinho provocador.
— Olha quem tá aí. O irmãozinho.
Jace se lançou pra frente.
— SEU m***a!
Kayle e eu nos jogamos ao mesmo tempo, segurando-o com toda força.
— Ele não vale isso! — gritei. — Ele não vale mais ninguém da sua família!
— E EU NÃO TENHO MAIS FAMÍLIA! — ele gritou de volta, os olhos cheios de raiva e dor. — Ele levou tudo! Ele levou o Davi!
A música parou por um instante. Alguém tinha baixado o volume ao notar a confusão.
As pessoas ao redor assistiam em silêncio. Como se fosse uma peça de teatro.
Jace estava tremendo.
O homem só sorriu e desapareceu por entre a multidão, covarde como sempre.
Jace caiu de joelhos no chão, respirando como se o ar tivesse acabado.
Ajoelhei ao lado dele.
— Você ainda tem a mim — sussurrei.
Mas ele me empurrou com os olhos frios.
— Não diz isso.
— Por quê?
— Porque você já fez sua escolha.