CAPÍTULO 02 — ALLEGRA

2166 Palavras
Meu pai machucado está de um lado, a minha irmã do outro, e eu no meio em desespero. Meu coração está saindo pela boca e só piora a cada passo que ouço, e sem outra saída, pego minha irmã e faço a única coisa que pode me salvar. Corro com minha irmã para dentro do esconderijo que papai mantém em casa, para o caso de o pior acontecer – mais um sinal de seu envolvimento com coisas sujas. É uma espécie de porão que tem embaixo da sala, que graças ao chão de madeira é apenas levantar o alçapão e descer. Preciso cobrir a boca da minha irmã com a mão e ao mesmo tempo controlar o meu nervoso, medo, e a dor de saber que abandonei meu pai com aquelas pessoas que não podem ser boas. Tudo está r**m, mas consegue piorar quando os passos que ouvia de longe agora estão logo acima de nós, é possível ouvir absolutamente tudo e para melhorar, há uma pequena fresta na madeira que me permite assistir. Meu coração bate em cada poro do meu corpo. — Onde está? — Uma voz que não me é estranha ordena a meu pai. — Entregue e você sobrevive. — Nós dois sabemos que eu não tenho chance, Simon. — Meu pai parece conformado que não sairá desse vivo. As lágrimas escorrem lentas pelo meu rosto e eu não posso parar de cobrir a boca de minha irmã, abraçando seu corpo trêmulo. Simon é o nome do homem que comanda a invasão a minha casa, e a voz, o nome... não pode ser o mesmo... Deus, eu não sei mais o que pode ser. Ao mesmo tempo, saber que esse monstro está em minha casa, tão próximo a mim depois de tudo que ele me fez... Na hora faz meu estômago reclamar. Ergo minha cabeça e pela fresta consigo ver bem um dos homens que me dão pesadelos, um dos que mais me destruiu internamente. Sim, é ele. Simon é um traficante de drogas perigoso, poderoso, e tem um lugar de destaque na gangue conhecida por Spider – isso por ser cunhado do chefe. Quando conheci meu ex-namorado, ele andava muito com Simon e seus homens – assim como meu pai, Ivan estava metido em seus negócios sujos. Para tentar ter uma posição melhor, abrir caminho, Ivan achou uma boa ideia me compartilhar com Simon e sua gangue de traficantes. Simon e seus homens, meu ex-namorado, todos abusaram de mim, repetidamente. Agora, esse monstro desumano está logo acima de mim e minha irmã, torturando meu pai bem diante de nossos olhos e ouvidos. Olhando para cima, eu posso ver meu pai sendo amarrado e logo depois os seus gritos. Fecho os olhos. Não tenho como cobrir os ouvidos e a boca de minha irmã ao mesmo tempo, pois o som de osso quebrando, de golpes, os gritos, o som de maçarico, e em especial os barulhos de desespero que papai solta não sairão da minha cabeça nunca. Amorinha é apenas uma criança, ela não deveria estar passando por isso. Minha vida não foi fácil, foram vinte e seis anos longos e cheios de aprendizados traumáticos. Mas eu só queria que minha irmã não tivesse que passar por nada de tão r**m quanto o que passei – mas desde tão jovem ela está presenciando o pior terror que uma filha pode passar. Nós duas presenciamos toda a tortura que estão fazendo com nosso pai, sem podermos chorar alto, sem poder pedir que parem, sem poder fazer absolutamente nada por ele – ou o pior aconteceria conosco. Não há nada que fossem fazer comigo que já não tenham feito antes, mas minha pequena tem apenas treze anos e os conhecendo como eu conheço, ela seria um prato cheio para eles. — Diga onde está o mapa, droga! Sabemos que está com você, é seu dever como m****o mostrar sua lealdade a Spider. — Eu... — Meu pai ofega, é possível notar a dor em sua voz. — Não estou com o mapa. — O mapa que foi entregue por você é falso, Richelli não viria aqui fazer perguntas se não tivesse informações sobre o mapa, e se não está com mais ninguém... — Faz uma pausa, mas o silêncio logo é interrompido por mais gritos de meu pai que me levam ao erro de olhar para cima. As lágrimas escorrem mais ainda quando a fresta na madeira me permite vê-lo posicionar um alicate no dente de meu pai e arranca-lo com força bruta. — Quer dizer que o verdadeiro está com você. — Richelli errou. — Cospe meu pai, tentando convence-lo de sua inocência. Simon quer um mapa. Na mesma hora eu só consigo pensar na caixa que me foi entregue, papai disse que eu não deveria perguntar nada sobre, ele estava preocupado. Agora ele está disposto a morrer sabendo onde está essa droga de mapa? Por que? Talvez ele saiba que não importa se ele entregará o mapa ou não, não haverá piedade para ele. — Richelli não erra. Quem diabos é Richelli? É o homem que há dois dias tentou me matar? Ele também quer esse mapa? Eu não sei o que tem de tão especial em um mapa, e porque esses homens maduros querem brincar de caça ao tesouro. Tudo ainda é muito confuso e apesar de tentar pensar, eu não consigo concluir nada nessa situação. Minha cabeça dói, e depois de torturarem meu pai até cansar, posso ver o momento que uma arma é apontada para sua cabeça – e morto. — Encontrem as garotas, esse miserável não teria morrido sem dar nenhuma informação para aquelas miseráveis. — Simon ordena aos seus homens. Desabo, quase sem forças para conseguir abraçar minha irmã. Sinto que tudo está desmoronando ao nosso redor, que meus pulmões não são capazes de completar ar, sinto dor até na alma e mesmo assim, preciso ser forte pela minha irmã. Alice e eu ficamos escondidas no compartimento secreto enquanto eles vasculham a casa inteira, mas não encontraram. O corpo de papai é levado, provavelmente como prova ao chefe da Spider de que cumpriram a missão. Pode ser horrível, mas penso que foi melhor assim, pois eu não aguentaria sair daqui sabendo que encontraria o corpo do meu pai. De qualquer forma, não é fácil, é como se meu coração tivesse parado junto com o de papai e minha alma arrancada dentro daquele alçapão. A pessoa que sai, é uma completamente diferente. A primeira coisa é colocar um casaco com capuz, em mim e minha irmã. Depois, dou uma última olhada na casa que foi meu lar por tantos anos e hoje se tornou a razão dos meus pesadelos. Tirando forças não sei de onde, sem conseguir parar de chorar, em especial ao ver o sangue espalhado pela sala, eu saio junto com Alice pela porta dos fundos. Alice não entende quando eu a arrasto pelas ruas, alguns quarteirões a frente, para cavar onde enterrei a caixa. Com minhas mãos e como se isso pudesse aplacar minha dor, aos prantos, mas de forma silenciosa, eu enfio com força os dedos na terra. — Allegra? — Minha irmã chama, também derramando lágrimas e assustada. Ela se aproxima de mim, parando ao meu lado com os olhinhos úmidos e o corpo franzino tremendo. — O que está acontecendo? — Vai ficar tudo bem, eu prometo, nós vamos ficar bem. — É horrível fazer uma promessa que não sei se posso cumprir, mas nesse momento, não tenho forças para explicar mais nada para Alice agora. Puxo seu corpo para mim, a abraçando mesmo com minhas mãos sujas. Alice não se afasta, pelo contrário, gruda em mim com seu cheirinho de chiclete delicioso. Eu quis consola-la, mas na verdade sou eu quem precisa de consolo. Nós ficamos assim, abraçadas e chorando em silêncio a morte de nosso pai por alguns segundos, mas não temos muito tempo para sentir nosso luto. Há barulhos de tiros bem perto de nós e damos um salto no lugar. Não é seguro ficar. No bolso da minha calça eu tenho o papel de onde preciso ir, e agora, depois de me afastar de Alice, termino de tirar a caixinha de madeira de dentro da terra. É o momento de descobrir que mapa é esse que fez meu pai ser morto, e porque é tão importante. Mas quando abro, o que vejo é o último nome que eu esperava. No meio de toda a localização, de marcações, há um nome em especial. Esse nome é conhecido por toda Moscou e fora dela também, em especial nas gangues mais importantes. Quando eu estive dentro da Spider graças a meu ex-namorado, eu ouvia as pessoas comentando sobre esse nome e pesquisei. Kratos. O homem conhecido como Kratos é como o fundador do mundo do crime, nascido na América Latina. Ele iniciou o tráfico de drogas em vários países, incluindo aqui na Rússia. Não se sabe onde ele morreu, o homem é considerado uma lenda e seu tesouro mais ainda. Eu por exemplo, nem acreditava que existia realmente um mapa que levava ao lugar onde ele escondeu toda sua riqueza antes de morrer – mas meu pai o encontrou. Sem ter muito tempo, guardo a caixa vazia no lugar e escondo o mapa dentro do sutiã. Minha irmã e eu cobrimos nossos rostos com os capuzes e segurando sua mão, nós nos esgueiramos pelas ruas. Há homens armados atrás de nós, nos perseguindo, e minha vantagem é conhecer bem essas ruas e seus atalhos. *** Usando atalhos, fujo dos homens que tentam encontrar a mim e minha irmã. Não sei exatamente como sair do país a procura de guerra sozinha com uma criança de treze anos, sem documentos, e com pessoas tentando nos matar. Por isso, minha única chance é ir atrás da única pessoa que pode me ajudar a partir para Noruega. Bato na porta do único homem que pode ser um aliado para mim, por ter sido amigo de papai por anos, e peço sua ajuda. Primeiro, peço apenas um lugar para descansar junto com minha irmã, contando a ele o que aconteceu e porque estou nesse estado. — Não acredito que ele está morto, não pode ser... — Comenta para si mesmo, também em choque com as informações. Em silêncio, não sei muito o que comentar sobre o assunto, afinal, as imagens e os barulhos que ouvi ainda estão na minha cabeça. Engulo seco. — Vamos resolver tudo, filha, não se preocupe. Tome um banho e descanse essa noite, estará segura aqui. — Tem certeza que podemos ficar? Eu realmente não quero ser um fardo, basta que me diga como atravessar a fronteira e nós iremos. — É o mínimo que eu posso fazer, não se preocupe. — Ele toca meus ombros, e o toque masculino me faz enrijecer inteira, mudando na hora a minha respiração. Desconfiado, ele afasta as mãos de mim quando nota o desconforto. — Perdoe-me. — Sem problemas, tio. Eu peço desculpas, é que... Foi uma noite difícil. — Confie em mim, logo você e sua irmã estarão em segurança. — Garante, me fazendo respirar um pouco melhor pela primeira vez na noite de hoje. — Agora tome um banho e cuide de sua irmã, eu vou sair para deixar vocês duas a vontade e cuidar de algumas coisas para a sua viagem. Não é fácil passar pela fronteira clandestinamente, irei pedir ajuda a alguns contatos. — Não há problema, estamos bem com o senhor aqui. — Realmente não me sinto bem em tira-lo de casa. — Há homens armados e perigosos lá fora, estão procurando por nós, não é seguro sair nas ruas. — Não se preocupe comigo, filha, eu seu me cuidar. — Sorri para mim. — Além disso, se estão procurando por vocês, não temos tempo a perder. Diga-me, para qual país deseja ir? — Noruega. — É a localização que papai me deu, e eu seguirei seus passos. Alice não tira os braços ao redor da minha cintura. Se esse for o Guerra que me lembro, se for quem eu estou pensando, terei a proteção que ele puder me oferecer e ainda terei ajuda para vingar a morte do meu pai. Simon tirou minha inocência, minha juventude, ele e seus homens me assombram há muito tempo. Eu me calei, fui dócil enquanto era a única a ser prejudicada. Mas essa noite ele tirou muito mais de mim do que já tinha feito, ele destruiu a mim, a minha irmã, e matou o meu pai. O que ele quer agora está em minhas mãos, eu tenho a vantagem, e com Guerra ao meu lado, eu não irei desistir enquanto não o fizer pagar. Levar uma vida longe do negócio sujo deles não me levou a nada de bom, então, a pessoa diferente que nasceu no momento que o coração de meu pai parou, não irá descansar até fazê-los conhecer o inferno. — Noruega então. — Concorda, deixando Alice e eu sozinha.
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