Atravessamos a fronteira em um caminhão cargueiro, dentro de um contêiner junto com animais – ovelhas. Além de incomodada pelos maus tratos por prenderem as coitadas assim e saber que estão indo para o abate, o cheiro não é agradável, elas também fazem muito barulho. Posso não querer dormir, mas minha cabeça doeu a viagem inteira.
Eu não consegui parar de ouvir os gritos do meu pai, de ver as cenas através da fresta, o rosto de Simon, e chorei
lágrimas tão dolorosas que ardiam em minha face como se fossem ácidos, me corroendo.
— Chegamos, amorinha. — Eu acordo Alice quando sinto o caminhão parando. Toco gentilmente seu rosto, acariciando seus cabelos, até ela despertar. — É hora de ir.
— Onde vamos? — Ela me questiona, passando os dedos nos olhos e erguendo o corpo.
— Primeiro, onde o tio nos mandou, tem uma pessoa esperando por nós. — E depois, encontrar o Guerra, mas esse é um detalhe que não é importante para uma criança.
Quando ouço o barulho da traseira do caminhão ser aberta, me preparo junto com Alice, em seguida, somos liberadas do contêiner.
Pego minha irmã e sigo para fora, dando meus primeiros passos na Noruega e avaliando o ambiente. Não tenho tempo para pensar em beleza, em esperanças, só penso na nossa segurança. Paramos em uma espécie de vila, há muitas casas perto uma da outra e o caminhão parece ter chegado em seu destino.
Há muitas pessoas vendendo coisas, casas, barulho, o homem que viria nos encontrar deveria estar aqui, mas somos levadas de um lado para o outro no meio do amontoado de gente. Abraço Alice com um braço e vou nos guiando, negando as propostas dos vendedores ambulantes – não é assim que eu imaginava a Noruega.
— Allegra! — Ouço uma voz masculina e junto com o chamado, um toque em meu ombro que me faz saltar do lugar e virar para trás. — Calma, eu vim para ajudar.
— É o meu contato? — Confirmo.
É um homem já de cabelos brancos, não está muito bem vestido também e imagino que me reconheceu facilmente pelas características que tio Turner deve tê-lo passado. Meu coração acelerado e meu corpo tensionado vai se acalmando aos poucos, e até consigo mover os lábios em um sorriso aliviado quando o homem acena com a cabeça, afirmando ser a pessoa que eu procurava.
— Venha, vou levar você e sua irmã em segurança para a Noruega. — Ele me dá um sorriso largo, mostrando todos os dentes.
Mas nesse momento, é o meu sorriso que some. Nós já não estamos na Noruega?
Desconfiada, percebendo que não sei se posso confiar nesse homem, eu volto a me preocupar. Respiro fundo, agarro bem forte na mão de minha irmã e começo a seguir o homem – ou ao menos fingir que estou fazendo isso. Quando damos alguns passos, espero passarmos por uma quantidade grande de pessoas e em especial vendedores, roubando propositalmente um relógio que ele estendeu para mim.
Ao pegar o relógio na mão do vendedor ambulante, uma verdadeira confusão começa quando ele dispara atrás de mim gritando que foi roubado. As pessoas começam a correr atrás uma da outra, e ele nem mesmo percebeu que eu sou uma mulher, não acredito que conseguiu ver meu rosto. Na multidão, mantenho Alice perto e arranco meu boné, liberando meus cabelos para me diferenciar do “ladrão” que procuram.
— ALLEGRA! Volte aqui, Allegra! Quero ajudar você! — As juras falsas não me enganam. Eu conheço pessoas ruins, e eu pude ver em seu sorriso largo que ele estava longe de querer me ajudar.
Meu objetivo foi na verdade fugir do homem que foi enviado até mim, usando a multidão. Nessa hora nem tenho tempo de pensar em como fui mandada diretamente para uma armadilha, só corro juntamente com Alice entre as pessoas que gritam e fogem do falso ladrão. Tenho boas chances, eu achava, eu até acreditei que seria fácil, mas dentre as pessoas comuns outros homens surgem.
O desgraçado chamou seus companheiros, homens armados que começam a entrar no meio das pessoas em busca de mim. Olho ao redor, ofegando, e me abaixo até entrar junto com Alice em uma das barracas de comida que vejo na vila. A dona está atrás do balcão e não se importa quando eu e minha irmã nos escondemos, apenas trocando olhares comigo.
— Lice, você precisa ser forte agora, está bem? — Seguro o rosto dela entre minhas mãos. Já é possível ver o desespero nos olhinhos dela depois de passar por tanta coisa. — Estão atrás de mim, se não nos separarmos agora pegarão nós duas. Você é inteligente, pode fazer isso.
— Não, eu não vou deixar você! — Ela de agarra em mim, me fazendo me odiar por força-la a seguir sozinha.
Mas que escolha eu tenho?
Não posso deixar que peguem Alice, cuidar dela é minha responsabilidade agora que papai não está aqui. Se ficarmos juntas, não teremos chances contra tantos homens armados em um lugar desconhecido, mas se eu os atrair, posso salva-la.
— Você não vai me deixar, vai me ajudar. Segure isso... — Entrego a ela o endereço que papai me deu, também todos os rublos que tenho em mãos. — E isso. Você não vai dizer seu nome, meu nome, não vai falar ou confiar em ninguém. Encontre um táxi logo que sair da vila, basta seguir em linha reta até encontrar a pista e verá muitos. Entregue o endereço e o dinheiro ao motorista, ele irá levá-la até mim.
Gravei o endereço, então eu posso mandar minha irmã para lá em segurança. Enquanto isso, levarei esses homens para longe da minha pequena.
— Não posso fazer isso sem você. — Posso ver o medo nos olhos dela.
— Claro que pode. Repita comigo, o que você vai fazer?
— Encontrar um táxi, entregar o endereço e o dinheiro.
— E então o que acontece? — É a parte mais importante.
— Vou encontrar você.
— Isso, minha menina. — Eu a aperto em meus braços, fechando os olhos e sentindo seu cheiro, acariciando seus cabelos. Do lado de fora há uma guerra, os homens que estão buscando por mim aumentaram a confusão e o medo das pessoas. — Seja forte, minha pequena e inteligente guerreira. E lembre-se, não confie em ninguém. Conte até vinte depois que eu sair e corra sem olhar para trás.
— Cuidado, Allegra. — Ela retribui meu abraço e eu beijo o topo de sua cabeça.
— Eu te amo. — É a última coisa que digo antes de me forçar a me afastar dela, acenando em agradecimento para a dona da barraquinha que está na frente do caixa e voltando para o meio da confusão. Dessa vez eu não fujo, não de primeira, apenas fico parada bem no meio. — Ei! Aqui! — Ergo minha mão, chamando bem a atenção. Os olhares dos homens imediatamente param em mim, que apontam suas armas, mas eu sei que não irão atirar pois precisam de mim viva. — Venham me pegar!
O homem que tio Turner mandou para me levar até Simon é o primeiro a vir, e em seguida, seus capangas. Começo a correr, agora precisando levar todos eles para longe de Alice. Meus pulmões reclamam precisando de ar, minhas pernas doem, meu corpo fraco pelo cansaço e falta de nutrição reclama, mas eu sigo sem parar. Vou para o caminho oposto de onde mandei minha irmã, ou seja, se ela vai em linha reta eu corro para fora da vila.
Eu só não contava, que o caminho longe das pessoas me levaria ao topo de uma ribanceira. Corro até o final, ficando sem saída e até precisando dar um passo para trás para não cair devido a velocidade que eu vinha. Meu coração está prestes a sair para fora, meus olhos saltam, o vento na beirada do precipício é tão grande que parece que vai me levar junto, mas faz apenas meus cabelos voarem com força.
— Fim da linha, ruivinha. — Sou ameaçada pelo homem que deveria me ajudar, olhando para baixo e vendo apenas mar e rochas. Virando para trás, há quinze homens fora o tal contato que me recebeu, todos armados e me tendo em sua mira.
Não há nada a dizer, então apenas fico parada em silêncio, assistindo-o se comunicar com alguém por mensagem. Posso afirmar mesmo sem ver que ele falando com Simon, é claro pelo seu sorriso de quem conseguiu o que o chefe queria. Nesse momento eu cogito pular, olhando para baixo, e sou surpreendida com um dos homens que agarra meu braço e me puxa para longe.
A mão espreme minha carne contra o osso, mas o pior não é a dor e sim estar sendo tocada por ele. Eu o encaro, tentando me soltar e ele não gosta da minha reação, acertando um soco que parte meu lábio. Sou agredida sem nenhuma misericórdia, com puxão de cabelo e golpes que machucam meu rosto.
Quando Simon chega, comprovando minha teoria sobre a mensagem, ele me encontra de joelhos.
Posso estar ajoelhada, sentindo dor, mas não derramarei uma única lágrima na frente desse homem. Para meu desgosto, Simon caminha até mim depois de falar algo que não entendo com seus subordinados, que dizem apenas que eu quase me joguei do precipício de medo, então será fácil para ela.
— Queria se jogar, minha menina? Então irei ajudá-la. — Sua voz me chamando de sua, o toque em meu braço me arrastando de volta até a beira do precipício faz meu estômago embrulhar. Simon me solta, caminhando em minha direção até meus calcanhares ficarem quase para fora do limite. Engulo seco, mantendo meus olhos nos dele. Eu ainda matarei esse homem, eu juro pela alma de papai. — Entregue-me o mapa verdadeiro e você vive.
— Eu escolho a morte. — Sussurro bem próximo ao seu rosto. Não penso duas vezes em me lançar para trás, despencando no mar.
Sinto meu corpo relaxar sendo carregado pelo vento como não senti por muito tempo, e depois, sou abraçada pelas ondas. Mas o rosto de Simon ao me assistir pular lavou a minha alma.