Capítulo 1 – Antonela

1301 Palavras
O som da porta blindada fechando atrás de mim foi o barulho mais definitivo que já ouvi na vida. Foi o som do meu funeral. Eu estava encolhida no banco de couro daquela SUV imensa, sentindo o cheiro de tabaco, metal e algo que eu só conseguia identificar como perigo. Ao meu lado, o homem que se autodenominava Comandante era uma presença física tão esmagadora que o ar dentro do carro parecia ter acabado. Eu tentava respirar, mas meus pulmões se recusavam a aceitar aquele oxigênio carregado de tensão. Olhei pela janela, vendo o cenário do meu mundo — os prédios simétricos do Leblon, as boutiques de luxo, o calçadão onde eu corria todas as manhãs — desaparecer para dar lugar ao caos. O carro começou a subir. As ruas ficaram estreitas, o asfalto deu lugar a buracos e terra, e as luzes organizadas da cidade foram substituídas por um emaranhado de fios, tijolos aparentes e o brilho sinistro de fuzis em cada esquina. — Por favor... — minha voz saiu como um suspiro suplicante. — Meu pai... ele vai conseguir o dinheiro. Ele me ama. Ele não faria isso. Um riso seco e c***l veio do banco da frente. O homem que o Comandante chamava de Marreco olhou pelo retrovisor, seus olhos me despindo com uma vulgaridade que me fez querer desaparecer. — Teu pai te usou como ficha de pôquer, ruivinha. E ele perdeu a mão. Agora tu é patrimônio do Alemão. O Comandante, ao meu lado, não disse uma palavra. Ele não precisava. O silêncio dele era pior que qualquer grito. Eu arrisquei olhar para ele de relance. Ele observava a favela passar pela janela com a calma de um rei inspecionando suas terras. As tatuagens no seu pescoço se moviam conforme ele respirava, uma coroa de espinhos n***a que parecia sufocá-lo, mas que na verdade avisava ao mundo que ele era o dono da dor. Ele era assustadoramente lindo de uma forma distorcida. O maxilar rígido, o nariz reto, os lábios finos que nunca pareciam ter sorrido por prazer. Mas eram os olhos... olhos tão escuros que pareciam dois buracos negros prontos para engolir minha alma. — Para de olhar para mim, Antonella — a voz dele vibrou, baixa e potente, fazendo meu estômago dar um solavanco. — Eu não sou uma das estátuas do museu que você frequenta. Eu desviei o olhar imediatamente, sentindo meu rosto arder. O terror estava sendo infiltrado por uma sensação de humilhação que eu nunca havia experimentado. Eu era a "garota de ouro" do Leblon, a filha do empresário de sucesso, a mulher que todos admiravam nas festas de gala. Agora, eu era apenas "a dívida". […] O carro parou no ponto mais alto que eu poderia imaginar. Quando a porta foi aberta, o som me atingiu como uma bofetada. Um funk agressivo ecoava de algum lugar distante, misturado com o chiado de rádios comunicadores e vozes de homens que pareciam prontos para a guerra. — Desce — a ordem veio dele. Eu hesitei. Meus pés descalços e macios pareciam ridículos naquele chão. O Comandante perdeu a paciência. Ele me segurou pelo braço e me puxou para fora. O aperto não foi bruto a ponto de quebrar meu osso, mas foi possessivo o suficiente para me lembrar que eu não tinha mais vontade própria. — Olha para cima — ele ordenou, me forçando a encarar a mansão fortificada à nossa frente. — Esta é a sua jaula. Você vai aprender a viver aqui, ou vai morrer tentando sair. A escolha é sua, mas o resultado é o meu domínio. Ele me arrastou para dentro. O interior da casa era um choque. Era luxuoso, sim, mas de uma forma fria e masculina. Móveis pretos, mármore cinza, armas expostas em cima de uma mesa de centro como se fossem objetos de decoração. Não havia flores, não havia cor, não havia vida. Era o reflexo exato do homem que me mantinha presa. — Marreco, fica de olho no perímetro — o Comandante disse, soltando meu braço. — Se algum dos moleques subir aqui para espiar a ruiva, corta a orelha e traz para mim. Marreco assentiu com um brilho sádico e saiu, batendo a porta de ferro. Eu estava sozinha com ele. O Terror do Alemão. O Gelo e o Fogo Eu me abracei, tentando esconder o decote da camisola de seda que eu não tive tempo de trocar. Eu sentia o olhar dele em mim, percorrendo meu corpo com uma lentidão que me fazia tremer. Ele caminhou até um bar, serviu-se de uma bebida e me encarou por cima do copo. — Você tem muitas sardas — ele comentou, como se estivesse analisando uma mercadoria defeituosa. — Eu quero ir para casa... — eu sussurrei, as lágrimas voltando a inundar meus olhos azuis. — Você não tem mais casa. Seu pai vendeu sua casa, seu carro e a sua liberdade. Você agora é minha, Antonella. Cada centímetro dessa pele pálida, cada fio desse cabelo ruivo. Você é a garantia de que eu vou receber o que é meu. Ele se aproximou. O cheiro dele era uma mistura de perfume caro, tabaco de charuto e algo metálico. Ele era imenso. Quando parou na minha frente, eu tive que inclinar a cabeça para trás para encará-lo. — Você não sente nada? — eu perguntei, a raiva começando a surgir do fundo do meu desespero. — Você me sequestrou, me tirou da minha vida, e fala como se estivesse comprando um carro! Você é humano ou é apenas uma máquina de matar? O Comandante deixou o copo na mesa e deu um passo final, colando o peito no meu. Eu senti a dureza do seu corpo, o calor que emanava dele apesar da sua frieza emocional. Ele levou a mão ao meu pescoço, o polegar pressionando a minha pulsação acelerada. — Eu sou o que eu preciso ser para manter esse morro de pé — ele disse, a voz quase um sussurro no meu ouvido. — Sentimentos são para pessoas como você, que vivem em bolhas de vidro. Aqui em cima, o amor mata, a piedade destrói e o medo... o medo é a única coisa que mantém as pessoas vivas. Sinta medo de mim, Antonella. É o melhor que você pode fazer por si mesma. Ele apertou levemente o meu pescoço, não para me sufocar, mas para demonstrar poder. Eu fechei os olhos, sentindo a eletricidade perigosa que corria entre nós. Eu o odiava. Eu o temia. Mas, por algum motivo obscuro e doentio, meu corpo reagia à presença dele. De repente, o som de tiros de fuzil explodiu lá fora. O barulho foi tão alto que eu gritei, cobrindo os ouvidos e me encolhendo no chão. O Comandante nem sequer estremeceu. Ele apenas pegou um rádio na cintura. — Chefe! Os alemão tão tentando entrar pela Grota! O bicho tá pegando! — a voz no rádio gritava. O Comandante olhou para mim, caída no chão, com um desprezo que me feriu mais que os tiros. — Fica aí. Se você abrir essa porta, meus homens têm ordens para te apagar. Você é valiosa, mas ninguém é insubstituível. Ele pegou um fuzil automático que estava encostado na parede, verificou o carregador com uma precisão assustadora e saiu. O som da fechadura eletrônica travando foi o lembrete final. Eu estava presa no céu, que na verdade era o inferno. E o meu carcereiro era o homem mais perigoso do Rio de Janeiro. Deitei minha cabeça no porcelanato frio e chorei. Chorei pelo meu pai, pela minha vida perdida e pelo fato de que, no fundo do meu terror, o toque daquele monstro tinha despertado algo em mim que eu nunca deveria ter sentido. A guerra estava apenas começando. E eu era o campo de batalha.
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