Capítulo 2 – Comandante

1357 Palavras
O som de um AK-47 a cantar é a única música que eu realmente entendo. Não há mentira no disparo de um fuzil, não há falsidade no cheiro de pólvora que impregna o ar da madrugada. Enquanto eu descia as escadarias da favela, saltando entre becos que eu conheço como as linhas da minha própria mão, a minha mente estava limpa. O mundo lá fora pode achar que somos apenas caos, mas para mim, a guerra é ordem. É o momento em que a hierarquia se prova e o respeito se renova. — Eles estão tentando invadir pela entrada da Grota, Chefe! — Marreco gritou, enquanto se protegia atrás de uma parede de tijolo furado, cuspindo fogo com o seu fuzil. — Eles são uns amadores, Marreco! — respondi, sentindo o sangue a pulsar nas minhas têmporas. — Eles acham que porque eu estava na Zona Sul, a guarda estava baixa. Vamos mostrar-lhes que o dono do morro nunca dorme. Avancei sob fogo cruzado. A adrenalina é a única droga que alguma vez permiti que entrasse no meu sistema. Ela torna tudo mais nítido. O brilho dos disparos na escuridão, o grito dos inimigos a cair, o peso do fuzil nos meus braços. Eu não sou um homem que se esconde atrás de ordens; eu sou o primeiro a dar a cara. Se o Alemão é o meu reino, o meu sangue é o cimento que mantém estas paredes de pé. O confronto foi rápido e brutal. Deixámos três deles no chão e os restantes fugiram como ratos para os limites do complexo vizinho. Senti uma dor aguda no ombro esquerdo, um rasgão quente que molhou a minha camisa preta instantaneamente. Um tiro de raspão. Nada que eu já não tivesse sentido cem vezes antes. — Limpo, Chefe — disse Marreco, aproximando-se com a respiração ofegante, limpando o suor da testa. — O que fazemos com os corpos? — Pendura-os na divisa. Que sirva de aviso — ordenei, a minha voz saindo fria, desprovida de qualquer resto de emoção. — Eu vou subir. Quero a contenção em alerta máximo. Ninguém dorme até o sol estar alto. Subi o morro de volta para a minha fortaleza. O silêncio da casa, após o estrondo da guerra, era quase ensurdecedor. Abri a porta de ferro e entrei. As luzes estavam baixas. No meio da sala, ela ainda estava lá. A Antonella não se tinha mexido muito. Estava sentada no sofá de couro preto, abraçada aos próprios joelhos, com a camisola de seda esmeralda a brilhar sob a luz do candeeiro. O cabelo ruivo estava despenteado, caindo como uma cascata de fogo sobre os seus ombros brancos. Ela olhou para mim e os seus olhos azuis arregalaram-se. — Você está... está sangrando — sussurrou ela, a voz trémula. Ignorei-a. Caminhei até ao bar, deixei o fuzil em cima do balcão com um estrépito metálico e servi-me de um uísque. O álcool desceu a queimar, mas a minha atenção estava presa nela. Ela olhava para o meu ombro, onde a mancha de sangue se expandia. — É apenas um risco, ruiva — respondi, tirando a camisa com dificuldade. Senti o olhar dela percorrer o meu peito. Eu sei o que ela vê. Um mapa de cicatrizes de bala e faca, entrelaçado com o preto das minhas tatuagens. Eu sou o oposto de tudo o que ela conheceu no Leblon. Sou o monstro que vive debaixo da cama dos playboys como o pai dela. — Você precisa limpar isso. Vai infeccionar — disse ela, levantando-se devagar. Aproximei-me dela, diminuindo a distância até que eu pudesse sentir o calor que emanava da sua pele. Ela cheirava a medo e a algo doce, como baunilha. Era um cheiro que não pertencia a este lugar. — E você sabe limpar feridas, Antonella? — perguntei, a minha voz baixando de tom, tornando-se perigosa. — Ou as tuas mãos só servem para segurar copos de champanhe e joias caras? Ela sustentou o meu olhar. Aquela ponta de desafio que eu vira no apartamento dela ainda estava lá, escondida sob camadas de terror. — Eu fiz enfermagem por dois anos antes do meu pai me obrigar a desistir para ir para a empresa — respondeu ela, a voz a ganhar uma firmeza inesperada. — Sei fazer um curativo melhor do que qualquer um dos teus soldados que usa fita-cola e cachaça. Dei um passo em frente, encurralando-a contra o balcão do bar. A mão dela subiu instintivamente para o meu peito, os dedos finos a tocar na pele tatuada, logo acima do coração. O toque dela era como fogo sobre gelo. Senti o meu músculo cardíaco reagir, uma pulsação que eu não autorizei. — Então prova, ruiva — murmurei, inclinando-me para que o meu hálito de uísque tocasse o seu rosto. — O kit de primeiros socorros está ali naquela gaveta. Vamos ver se as tuas mãos são tão úteis como o teu rosto. Ela moveu-se com agilidade, pegando no material necessário. Eu sentei-me num banco alto e observei-a. Ela aproximou-se com cuidado, as mãos a tremer levemente enquanto abria o antisséptico. — Vai doer — avisou ela. — A dor é a minha velha amiga, Antonella. Faz o que tem que azer. Quando ela encostou o algodão embebido no ferimento, os meus músculos contraíram-se. Não pelo ardor, mas pela proximidade. Ela estava tão perto que eu conseguia contar as sardas no seu nariz, conseguia ver a dilatação das suas pupilas azuis. Ela estava concentrada, o lábio inferior preso entre os dentes — um hábito que eu achei irritantemente provocador. — O teu pai é um homem morto se puser os pés no Rio — disse, apenas para quebrar o silêncio que estava a me deixar desconfortável. — Ele sabe que eu não brinco em serviço. Ela parou por um segundo, olhando para mim com uma tristeza profunda. — Ele não volta. Ele nunca amou ninguém além de si mesmo e das suas apostas. Eu era apenas o seu último trunfo. — E agora é o meu — retorqui, estendendo a mão e segurando uma mecha do seu cabelo ruivo, enrolando-o no meu dedo. — E eu trato muito melhor do meu património do que ele. Ela terminou o curativo e prendeu a gaze com firmeza. Os olhos dela encontraram os meus. Não havia apenas medo ali agora. Havia algo mais. Uma curiosidade mórbida, talvez uma atração pelo perigo que eu representava. — Já terminei — disse ela, tentando afastar-se, mas eu não a deixei. Segurei o seu braço, puxando-a para o espaço entre as minhas pernas. O meu corpo estava tenso, o instinto animal a gritar. Eu queria esmagar aquela pureza, queria ver o que acontecia se eu a beijasse com a mesma violência com que eu comando este morro. — Você não vai a lugar nenhum — afirmei, a minha mão subindo para a nuca dela, os meus dedos a enterrarem-se naquele cabelo macio. — Você é a minha prisioneira, Antonella. Mas também é a única coisa bonita nesta casa de morte. E eu ainda não decidi se te quero proteger ou se te quero destruir. O peito dela subia e descia rapidamente contra o meu. Ela era tão frágil, tão pequena nas minhas mãos. Eu podia sentir o medo dela, mas também senti quando ela fechou os olhos e inclinou a cabeça levemente para trás, expondo o pescoço alvo. Eu sou o Comandante. Eu não sinto amor. Mas naquela noite, com o sangue ainda fresco nas mãos e a ruiva nos meus braços, eu senti que o Alemão ia tornar-se pequeno demais para o que estava a começar a crescer dentro de mim. — Vai dormir — ordenei bruscamente, soltando-a. — Antes que eu me esqueça que é uma dívida e te trate como uma mulher. Ela não disse nada. Virou-se e correu para o quarto que eu lhe tinha designado. Fiquei sozinho no bar, o uísque já não sabia a nada. Olhei para o curativo perfeito no meu ombro. A dívida do pai dela acabara de se tornar a minha maior obsessão. E no meu mundo, eu nunca perco o que decido que é meu.
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