Eu não dormi. Cada vez que meus olhos se fechavam, o som dos fuzis ecoava na minha mente como se estivessem dentro do meu quarto. O quarto que, ironicamente, era mais luxuoso do que muitos hotéis cinco estrelas onde já me hospedei, mas que para mim tinha o cheiro de uma cela de segurança máxima. O lençol de cetim parecia áspero contra a minha pele, e o silêncio daquela casa, após a saída brusca do Comandante, era carregado de uma eletricidade estática que fazia os pelos do meu braço se arrepiarem.
Quando o sol nasceu, tingindo o céu do Rio de Janeiro com um laranja que parecia sangue espalhado no horizonte, eu me levantei. Meus olhos estavam inchados, e as sardas no meu rosto pareciam mais escuras contra a palidez doentia da minha pele. Eu ainda usava a camisola de seda verde — a única coisa que me restava da minha vida anterior.
Saí do quarto cautelosamente, como um animal ferido testando os limites do território do predador. A casa estava silenciosa. O Comandante não estava lá. Onde quer que ele estivesse, o rastro de sua presença permanecia: o cheiro de uísque, tabaco e aquela aura de poder que parecia impregnada nas paredes de mármore.
Caminhei até a imensa parede de vidro da sala. Dali, o Alemão se revelava em toda a sua glória caótica. Milhares de casas amontoadas, ruelas que pareciam labirintos e o movimento frenético de pessoas que, ao contrário de mim, pertenciam àquele lugar. Eu me sentia como uma boneca de porcelana jogada em um lixão de ferro-velho.
— Admirando a vista, ruivinha? Ou procurando um lugar para pular?
A voz era áspera, carregada de um deboche que me fez pular de susto. Girei o corpo e dei de cara com Marreco. Ele estava encostado no portal da cozinha, segurando um fuzil com uma mão e uma caneca de café com a outra. O olhar dele não era como o do Comandante — que era frio, porém focado. O olhar do Marreco era sujo. Ele me olhava como se estivesse calculando o preço de cada pedaço do meu corpo.
— Onde está o... o Comandante? — perguntei, tentando manter a voz firme, embora minhas mãos estivessem escondidas nas dobras da seda para esconder o tremor.
— O patrão está resolvendo problemas de homem. Coisas que uma princesinha do asfalto não entenderia — ele deu um passo em minha direção, o sorriso de dente de ouro brilhando de um jeito sinistro. — Ele mandou eu ficar de olho em você. E eu gosto muito de observar coisas bonitas.
Recuei até que minhas costas batessem no vidro frio. O pânico começou a subir pela minha garganta. O Comandante era perigoso, mas havia uma espécie de código nele, uma disciplina sombria. O Marreco, não. Ele exalava uma crueldade descontrolada.
— Não chegue perto — eu disse, a voz subindo uma oitava.
— E quem vai me impedir? O teu pai fugitivo? — ele riu, um som seco que me deu náuseas. Ele parou a poucos centímetros, o cheiro de suor e pólvora me sufocando. — O Comandante tem um ponto fraco por coisas raras, mas ele não está aqui agora. Eu me pergunto se ele sentiria falta se eu desse uma provadinha na mercadoria antes de ele cansar de você.
Ele estendeu a mão livre, a pele áspera e suja, para tocar no meu cabelo. Eu senti o pavor paralisar meus músculos, mas no segundo em que os dedos dele roçaram um fio ruivo, uma voz cortou o ar como uma lâmina de aço.
— Tira a mão dela, Marreco. Agora.
O Comandante estava parado na entrada da sala. Ele não gritou. Ele não precisava. A temperatura do ambiente pareceu cair dez graus no instante em que ele falou. Suas roupas estavam limpas agora, mas o olhar era o mesmo que ele usou para encarar a guerra na noite anterior.
Marreco recuou instantaneamente, mudando a postura de predador para subordinado em um piscar de olhos.
— Só estava brincando com a moça, chefe. Vendo se ela tinha sangue nas veias ou se era de plástico.
— Eu não te pago para brincar — o Comandante caminhou lentamente pelo centro da sala. Seus olhos não saíram de Marreco por um segundo sequer. — Eu te dei uma ordem: proteger a casa e a mercadoria. Se eu te pegar tocando nela de novo, ou mesmo olhando do jeito que você estava olhando, eu vou fazer você esquecer como se usa os olhos. Fui claro?
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Marreco baixou a cabeça, o maxilar tenso.
— Sim, senhor. Com licença.
Ele saiu quase em fuga. Eu soltei o ar que nem sabia que estava segurando, minhas pernas fraquejaram e eu quase caí, mas o Comandante foi mais rápido. Ele me segurou pelos ombros, me mantendo de pé. O toque dele era firme, e por mais que eu o odiasse, naquele momento, era a única coisa que me impedia de desabar no chão.
— Você está bem? — ele perguntou, sua voz ainda gélida, mas com uma nota de algo que eu não conseguia identificar.
— Por que você me trouxe para cá? — eu perguntei, as lágrimas finalmente transbordando. — Para ser um brinquedo para os seus homens? Para ser humilhada? Se quer me matar, me mate logo, mas não me deixe aqui desse jeito!
Ele apertou meus ombros, me forçando a olhar para ele. A coroa de espinhos tatuada no pescoço dele parecia brilhar sob a luz da manhã.
— Ninguém vai te tocar, Antonella. No meu morro, a minha palavra é a única lei que existe. O Marreco sabe disso agora. E você também precisa entender: você não é um brinquedo. Você é a minha garantia.
Ele me soltou e caminhou até a mesa, pegando uma sacola de papel que eu não tinha notado antes. Jogou-a no sofá.
— Mandei trazer roupas para você. Coisas decentes. Não quero você circulando pela casa nessa seda transparente na frente dos meus soldados. Você é uma mulher de elite, comporte-se como tal, mesmo no inferno.
Eu olhei para a sacola e depois para ele. Ele era um enigma violento. Ele me protegia de um monstro, mas ele mesmo era o mestre de todos eles.
— O que você vai fazer comigo? — perguntei, num fio de voz.
Ele parou na porta, de costas para mim. A silhueta dele contra a luz do sol era imponente, a imagem perfeita de um ditador que não conhece a derrota.
— Por enquanto, você vai ser a minha sombra. Eu tenho uma reunião com os outros chefes da cúpula hoje. E você vai comigo. Quero que todos vejam o que acontece com quem deve ao Comando. E quero que você veja exatamente quem é o homem que agora é dono da sua vida.
Ele saiu sem olhar para trás, deixando-me ali, entre o medo do que estava por vir e a estranha e perigosa sensação de que, naquele mundo de lobos, o lobo alfa tinha decidido que eu era sua propriedade exclusiva.
Vesti a roupa que ele trouxe — um vestido preto simples, mas elegante — e me preparei. Eu não sabia o que me esperava naquela reunião, mas uma coisa era certa: a Antonella do Leblon estava morrendo, e uma nova versão de mim, forjada no medo e na sobrevivência, estava começando a nascer nas cinzas do Complexo do Alemão.