Capítulo 4 – Comandante

1161 Palavras
A política no crime é mais suja do que a política no Planalto. No Complexo do Alemão, o poder não se herda, conquista-se com sangue e mantém-se com o cano de um fuzil e uma mente fria. Hoje era dia de reunião da cúpula. Os donos dos maiores morros do Rio estariam lá, homens que sorriam para você enquanto verificam se a faca está afiada o suficiente para as suas costas. Mas hoje, eu tinha algo que nenhum deles tinha. Eu tinha a joia da coroa do Leblon. Olhei para Antonella enquanto ela saía do quarto. O vestido preto que mandei comprar era simples, colado o suficiente para mostrar que ela era uma mulher escultural, mas comportado o suficiente para não parecer vulgar. Ela estava pálida, as sardas destacando-se como brasas no rosto alvo, e os olhos azuis carregavam um brilho de pavor que eu quase podia tocar. — Vamos — eu disse, a minha voz saindo mais grossa do que o habitual. — Mantém a cabeça erguida. Não olhe para ninguém, não fale com ninguém. Você é minha. Lembre disso e ninguém pode te tocar. — Você está me usando como um objeto, Comandante — ela sussurrou, a voz carregada de uma mágoa que eu fiz questão de ignorar. — No meu mundo, Antonella, tudo tem uma utilidade. Hoje, você é o meu aviso. O aviso de que ninguém, nem mesmo um bilionário da Zona Sul, fica a dever ao Terror do Alemão e sai impune. Segurei o braço dela. Senti o tremor fino que percorria o seu corpo, mas não suavizei o aperto. Saímos de casa e entramos na SUV blindada. Marreco estava ao volante, com uma cara de poucos amigos desde o corretivo que lhe dei de manhã. Ele sabia que se falhasse de novo, o próximo buraco que ele veria seria o da própria cova. […] A reunião era num galpão camuflado na Vila Cruzeiro. Quando o meu comboio parou, o som dos rádios comunicadores intensificou-se. Homens armados até aos dentes abriram caminho. Eu desci primeiro, ajustando a minha pistola de ouro na cintura, e depois estendi a mão para ela. Antonella hesitou por um segundo, olhando para o mar de fuzis à nossa volta. Eu vi o momento em que ela quase desabou, mas então, ela respirou fundo, endireitou as costas e aceitou a minha mão. Aquela garota tinha fibra. Mais do que muitos soldados que eu comando. Entrámos no galpão. O cheiro de churrasco, cerveja e maconha era denso. Sentados à volta de uma mesa de madeira maciça estavam os donos do jogo: Caveira, DG e Lobo. Homens que não conheciam a palavra misericórdia. O silêncio foi imediato quando passámos pela porta. Todos os olhos — olhos carregados de luxúria e surpresa — fixaram-se na ruiva ao meu lado. Senti a minha mandíbula travar. O instinto de posse rugiu dentro de mim como um animal enjaulado. — Comandante! — Lobo levantou-se, com um sorriso cínico. — Ouvimos dizer que você tinha feito uma cobrança especial no Leblon, mas porra... não sabia que a dívida era tão bonita. — Ela não é para os teus olhos, Lobo — respondi, a minha voz saindo gélida, um aviso claro que fez o sorriso dele vacilar por um momento. — Esta é a filha do empresário que tentou passar a perna no Comando. Ela fica comigo até o pai dela aparecer com os três milhões. E se ele não aparecer... ela continua comigo. Puxei uma cadeira para ela, bem ao meu lado, no centro da mesa de poder. Antonella sentou-se, as mãos cruzadas no colo, os olhos fixos na mesa. Ela parecia um anjo caído numa reunião de demónios. — Três milhões é muito dinheiro, Comandante — disse DG, tragando um charuto. — Mas essa ruiva aí... ela vale cada centavo num leilão internacional. Sabe que os russos pagariam uma fortuna por algo assim. Senti um calor súbito subir-me ao pescoço. A ideia de Antonella nas mãos de qualquer outro homem, especialmente de porcos como os russos, fez-me apertar o cabo da minha arma por baixo da mesa. — Ela não está à venda — afirmei, cada palavra saindo pausada, carregada de uma ameaça implícita. — Ela é minha garantia pessoal. E quem tocar no assunto de venda de novo, vai descobrir como eu trato quem tenta gerir os meus negócios. A reunião prosseguiu com discussões sobre rotas de armas e invasões de território, mas o clima estava tenso. Eu sentia os olhares deles sobre ela. Antonella mantinha-se imóvel, mas eu via o suor frio na sua nuca. De repente, Lobo, que já tinha bebido mais do que devia, esticou o braço por cima da mesa, tentando tocar na mão de Antonella. — Deixa lá ver se essa pele é mesmo de verdade ou se é pintada... — balbuciou ele. Antes que os dedos dele chegassem perto da pele dela, eu agi. Num movimento que ninguém viu chegar, saquei da minha faca tática e cravei-a na mesa, a milímetros dos dedos do Lobo. O som da lâmina a perfurar a madeira ecoou como um tiro. — Próxima vez, Lobo, a faca não vai para a mesa. Vai para o teu fígado — rosnei, levantando-me e ficando por cima dele. O meu corpo, fechado em tatuagens, exalava uma promessa de morte que ninguém ali se atreveria a testar. Lobo recolheu a mão, pálido. Os outros chefes ficaram em silêncio, medindo a minha reação. Eu não estava apenas a proteger uma "dívida". Eu estava a marcar território. E todos ali perceberam que a ruiva era intocável. — A reunião acabou por hoje — anunciei, guardando a faca. — Antonella, vamos. Segurei-a pela mão, mas desta vez não foi um puxão bruto. Foi um gesto de proteção. Saímos do galpão sob o olhar pesado da cúpula. Eu sabia que tinha acabado de pintar um alvo nas minhas costas ao mostrar fraqueza por uma refém, mas naquele momento, eu não queria saber. Ao chegarmos ao carro, Antonella olhou para mim. Havia algo diferente nos olhos dela. O terror ainda estava lá, mas havia uma confusão nova. — Por que fez aquilo? — perguntou ela, enquanto o carro arrancava. — Poderia ter começado uma guerra por minha causa. Olhei para ela, para as sardas, para a boca que eu tinha vontade de calar com a minha. — Ninguém toca no que é meu, Antonella — respondi, voltando a olhar para a janela, sentindo o gelo do meu coração a lutar contra o fogo que ela tinha acabado de acender. — Nem mesmo os meus aliados. Aprende uma coisa: no Alemão, eu sou o único monstro de quem você precisa ter medo. Os outros... eu trato deles. Ela não disse mais nada, mas encostou a cabeça no vidro, exausta. Eu fiquei ali, na escuridão do carro, a perceber que o resgate dos três milhões era o que menos me importava agora. Eu queria a ruiva. E eu ia tê-la, custasse o que custasse.
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